No início de “Hanna”, a personagem título (Saoirse Ronan) pergunta ao pai (Eric Banna) como é a música. O pai, que está lendo uma enciclopédia para a filha como história de ninar, procura a definição de música – uma combinação de sons. Quando ele começa a ler o verbete em voz alta, é interrompido pela garota que pede simplesmente para ouvir uma música e entender por conta própria.
Hanna tem 16 anos e não tem nenhum contato com o mundo. Criada isolada, em uma cabana rústica no círculo polar ártico, e tendo apenas o pai, um ex-agente da CIA, como único contato humano, ela treina sem parar para se tornar uma máquina de matar.
Erik Heller, seu pai, evita o mundo externo para proteger-se e proteger sua filha da implacável agente Marissa Wiegler (Cate Blanchett), que acredita tê-los matado, e eles vivem em harmonia até o dia em que a curiosidade inerente a qualquer adolescente vem à tona. Hanna acredita-se preparada para enfrentar os perigos que virão em sua direção e sai na missão de exterminar Wiegler.
A adolescente deixa as gélidas paisagens, cujos tons cândidos são como as páginas em branco de sua infância, ponta para ser preenchida por cores e sombras. Sua jornada vai incluir o ensolarado deserto marroquino até o colorido parque temático dos Irmãos Grimm, na Alemanha, uma locação que alegórica no contexto da trama.
O roteiro, dos estreantes Seth Lochhead e David Farr, chegou a ser cobiçado por Danny Boyle e Alfonso Cuarón, antes de cair nas mãos do inglês Joe Wright. Diretor dos belíssimos “Orgulho e Preconceito” (2005) e “Desejo e Reparação” (2007), o cineasta, dado a lirismos e encenações muito bem trabalhadas, não perde o pique ao estrear numa narrativa de ação.
Atriz e diretor retomam uma parceria bem-sucedida, que já rendeu indicação ao Oscar à jovem Saoirse Ronan, então com 13 anos (por “Desejo e Reparação”). Hoje com 17 anos, ela demonstra a segurança de uma atriz experiente. Seu desafio aqui é conceber os sentimentos mais primários com densidade, e o resultado é uma performance que se valida como a força motriz do filme. Armada e perigosa, sua Hanna se insere na vertente das garotas letais, como a Hit Girl de “Kick Ass – Quebrando Tudo” (2010), as injustiçadas de “Sucker Punch – Mundo Surreal” (2011) e Katniss Everdeen, de “Jogos Vorazes” (2012).
Embalada por uma trilha frenética, composta pelos Chemical Brothers, ela se atira à ação em cenas de tirar o fôlego – a mesma capacidade que Wright demonstrava para criar narrativas intimistas é aqui extrapolada em escala grandiosa. Enquanto Hanna corre para salvar-se, rumo à casa dos Irmãos Grimm, as analogias pulam do subtexto para o primeiro plano. Com direito à madrasta malvada no encalço desta Branca de Neve, que reage com a velocidade de um anime e a o instinto assassino de Jason Bourne.
Arrojado e brutal, “Hanna” é um mix de diversos elementos muito diferentes entre si, onde todos os paradoxos parecem se encaixar. Um thriller de ação revigorante, de um cineasta conhecido por dramatizar arroubos poéticos.
Hanna
(EUA/Reino Unido, 2011)
Lançamento em DVD e Blu-ray



































