Glee 3D – O Filme é mais um prego na saturação da série

A série “Glee” era, até a metade de sua 2ª temporada, uma das mais originais e divertidas da televisão norte-americana. Criada por Ryan Murphy, já reconhecido pelo sucesso do drama “Nip/Tuck”, ela se propunha a unir o exagero teatral dos musicais da Broadway ao mais raso filão de comédia, o pastelão colegial. O sucesso foi imediato: o público aceitou a inusitada ideia de ver um musical semanal de 42 minutos, a crítica se derreteu em elogios ao tom exagerado e escapista, e, em pouco tempo, “Glee” se tornou fenômeno mundial.

Então vieram as vendas avulsas das músicas da série no iTunes, os CDs, os CDs temáticos, apresentações especiais, a inevitável turnê musical… e o filme. Nascido da recente turnê americana, “Glee 3D – O Filme” leva o merchandising da série ao ponto da saturação.

Fosse este filme-concerto limitado a trazer simplesmente um registro dos shows ou mesmo a observar os bastidores, o resultado teria sido mais interessante. Mas, entre uma música e outra, surge um discurso de autoajuda, em tom motivacional, durante diversos depoimentos de fãs da série, que contam como “Glee” mudou suas vidas.

São dramas adolescentes de aceitação e superação, muito parecidos com as historinhas que os personagens vivem na ficção, mas contados por gente de verdade.

Assim, o filme mostra uma garota anã que conseguiu se tornar rainha do baile de formatura, conta a história do garoto que teve sua sexualidade revelada e acompanha o drama da menina que sofria de TOC e tinha fobia social. Para enfatizar essas fábulas colegiais, os números musicais são enxugados e as divertidas sequências onde os personagens trocam farpas nos camarins se tornam meras curiosidades.

A culpa não recai apenas sobre o diretor, Kevin Tanchaoren, nome jovem também responsável pelo fracassado remake de “Fama” (2009). Suas escolhas quanto a fotografia e edição são extremamente equivocadas, mas, num produto descaradamente mercadológico como este, a palavra do produtor pesa muito mais. É possível ver tiques de Ryan Murphy durante toda a extensão do longa.

As escolhas musicais também não são as mais inspiradas, preferindo destacar os hits da 2ª temporada e ignorar boa parte das canções que tornaram a série famosa. O hino “Don’t Stop Believing” é apresentado retalhado, enquanto “Safety Dance” aparece apenas para dar ao público uma chance de ver Artie (Kevin McHale) levantar de sua cadeira e dançar.

Talvez o fã brasileiro tenha mais inclinação de relevar os problemas da produção, porque a experiência de ver seus personagens queridos cantando hits na tela de um cinema pode ser sua única interação com um show da série. Nos EUA, porém, “Glee 3D – O Filme” teve um desempenho comercial muito abaixo do esperado.

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Glee 3D – O Filme

Imagem de Amostra do You Tube
(Glee 3D – The Movie, EUA, 2011)

 ★★☆☆☆ 

+ Felipe André

Felipe André é cinéfilo profissional. Usa boa parte do seu tempo em salas de cinema e gasta a outra parte escrevendo sobre o que acabou de ver. Também é cineclubista e adora exibir filmes que ninguém viu, por isso tem uma quedinha pelo cinema independente de todas as partes do mundo. Atualmente reside em Recife, mais precisamente no cinema mais próximo. Leia também no Kinemail.

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