A história é real e do jeito que Hollywood adora. Integrante da gangue de motociclistas Hell’s Angels, Sam Childers era um ex-traficante de drogas violento que, de uma hora para outra, passa a ter fé em Deus e se arrepende de seus crimes. Para compensar sua vida tortuosa, decide oferecer seus serviços religiosos e de caridade no Sudão e em Uganda, resgatando centenas de crianças das mãos do Exército de Resistência do Senhor, uma milícia conhecida pela prática de crimes contra a humanidade, como o assassinato em massa, mutilação de aldeões e a transformação de meninos em soldados.
O detalhe é que Childers não se limitou a levar a Bíblia ou montar uma ONG nos países africanos: o americano agia fortemente armado, o que lhe valeu o apelido de “O Pastor de Metralhadora”, título original de “Redenção” (Preacher Gun Machine), filme que traz o astro Gerard Butler no papel do guerreiro religioso.
“Fiquei tão fascinado quanto perturbado por ele”, comentou Butler em entrevista no Festival de Toronto deste ano. “Mas não importa se você ama ou se odeia esse cara, ou se concorda ou não com sua moralidade ou métodos, ou o uso de Deus. Você tem que ver o que ele realizou”, avaliou o ator, que sentiu na pele as consequências de se envolver com o polêmico tema. Ele sofreu diversas ameaças de morte e teve que passar um período acompanhado por seguranças pessoais. Acreditava-se que as intimidações partiram de um grupo extremista religioso citado na produção.
Essa ambivalência de emoções provocada pela história de Childers e transformada em filme vai muito além de oferecer uma aparente mistura de “Rambo” (1982) com “Amor Sem Fronteiras” (2003), garante Butler, que precisou entrar de cabeça na sombria realidade que vivem as pessoas daquela região.
“Meu dever de casa foi olhar diariamente para um livro de fotos do Sudão com valas comuns e crianças mutiladas. Foi como passei meu tempo, tentando ser uma pessoa que precisava lidar com aquela situação, e isso me sugou cada vez mais profundamente. Mas foi perfeito, porque quando cheguei à África, senti como se estivesse vivendo a vida de Sam.”
Butler, no entanto, não se limitou aos livros e foi conhecer pessoalmente o humanitário que carregava uma metralhadora. Durante a conversa, Childers sacou uma arma carregada e entregou ao ator, como se fosse um teste. “Você poderia dizer que ele é alguém perigoso, mas eu logo vi que ele é um homem com carisma, é um poço de energia e tem grande brilho no olhar. Era algo que eu queria agarrar, um personagem real, colorido e com humor”.
A aproximação com Childers, entretanto, teve unicamente a função de inspiração para entrar no clima do filme e para a composição do personagem, porque Butler não queria fazer uma cópia exata da pessoa retratada. O objetivo era contar sua história que, para o ator, tem importância social, apesar da questão ética ou moral.
O escocês, que já explorou quase todos os gêneros do cinema (do musical “O Fantasma da Ópera” à comédia romântica “Caçador de Recompensa”, passando pela ação “Gamer”), acredita que sua filmografia sempre levantou assuntos relevantes. “Mesmo em filmes divertidos como ‘P.S. Eu Te Amo’, ‘300’ ou ‘Beowulf’ acho que há grandes mensagens, seja sobre coragem, tolerância ou a luta contra demônios internos”, refletiu Butler. “Mas, sim, senti a responsabilidade de fazer um filme como esse”.
O continente africano, inclusive, vem ganhando os holofotes de grandes produções hollywoodianas, casos de “Amor Sem Fronteiras” (de Martin Campbell), “O Jardineiro Fiel” (de Fernando Meirelles) e “Diamante de Sangue” (de Edward Zwick). Até o personagem Jack Bauer, da série televisiva “24 Horas”, ganhou um telefilme sobre a questão (com tema e título coincidentes: “24 Horas: A Redenção”) após um intervalo forçado pela greve de roteiristas em 2007.
“Redenção” é a chance de Marc Forster (de “A Última Ceia”, “Mais Estranho que a Ficção” e “007 – Quantum of Solace”) também falar sobre as guerras civis que acontecem naquele continente e motivar seu público a praticar atitudes políticas. “Eu não quero inspirar as pessoas a pegar uma metralhadora e salvar as crianças na África”, disse Forster numa mistura de brincadeira e seriedade. “Mas nós temos o poder de mudar suas vidas de uma forma positiva. Se Sam Childers pode fazer isso, todos nós podemos fazê-lo.”
Butler lembra que, assim como ele antes de receber o roteiro do filme, muita gente desconhece a trajetória de Childers. “É algo cativante, cheio de aventura e ainda assim verdadeiro. É inspirador e notável. Quis contar esta história porque acho que pouca gente ouviu falar sobre ele”.
Além de Gerard Butler, completam o elenco de “Redenção” Michelle Monaghan (“Contra o Tempo”), Madeline Carroll (“Promessas de um Cara de Pau”) e Michael Shannon (“Possuídos”).



































