George Clooney vive anti-herói no thriller Um Homem Misterioso

Desde John Ford, o anti-herói do cinema americano consiste num protagonista de poucas palavras, sombrio, misterioso e que, embora pareça agir com boas intenções, é sempre de moral duvidosa. Pois, no final das contas, ele mata gente. O cineasta italiano Sergio Leone, citado em “Um Homem Misterioso”, adotou essa concepção em sua trilogia de bangues-bangues à italiana, por meio do Homem Sem Nome – o pistoleiro interpretado pelo impassível Clint Eastwood.

Em “Um Homem Misterioso”, o assassino solitário vivido por George Clooney (“Amor sem Escalas”) também não tem nome certo – ora chamado de Jack, ora Edward. Diz-se “movido por boas causas”, mas sabe que “Deus não se importa comigo”. Se o anti-herói tradicional se mantém na zona cinzenta entre o bem e o mal, já na primeira seqüência Jack/Edward choca o público e afunda no lado maligno.

Depois desse prólogo, o arrependimento acompanhará o matador durante toda a sua nova missão. O thriller que se segue é também a história de redenção do protagonista. Não é por acaso que, contrariando o aviso do chefe, para não fazer mais amigos nas missões, Jack/Edward se aproxime de um padre bonachão (Paolo Bonacelli, de “Missão Impossível III”) e uma voluptuosa garota de programa (Violante Placido, de “O Vulcão Ginostra”). Personagens através dos quais tentará lidar com os seus demônios e salvar-se do inferno da consciência.

O diretor Anton Corbijn (“Control”, sobre Ian Curtis, do Joy Division) prima por uma composição econômica, precisa e sem firulas. Aproveita a luz natural da paisagem bucólica da região montanhosa de Abruzzo, na Itália, onde transcorre a ação. Minimiza os diálogos e busca o mais no menos de cada personagem, em atuações compactas.

As perseguições e tiroteios reduzem-se à essência e dispensam a barulheira, a correria e os efeitos exagerados de vários filmes de ação da última década. A trama se desenrola sem pressa e, deste modo, Corbijn pode tirar o melhor das tomadas nas ruas labirínticas do vilarejo medieval e na campagna italiana.

Com trama de final imprevisível digna de John Frankenheimer, fotografia pastel e com um quê soturno que remete a Michelangelo Antonioni, e atmosfera sofisticada e cool à altura de Jean-Pierre Melville – e contando ainda com o bom desempenho de Clooney -, “O Americano” é um filme que provavelmente vai encantar o cinéfilo mais exigente.

Imagem de Amostra do You Tube


Um Homem Misterioso

(The American, EUA, 2010)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★★½☆ 

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+ Bruno Cava

Bruno Cava é escritor, cineclubista, roteirista, colunista do Le Monde Brasil online e Revista Global e publica o blog Quadrado dos Loucos.

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