Gael García Bernal mostra a força do Não

CANNES O filme chileno “No”, estrelado por Gael García Bernal (“Ensaio Sobre a Cegueira”), recebeu mais de três minutos de aplauso no Festival de Cannes. Dirigido por Pablo Larraín (“Tony Manero”), o longa revisita o ano de 1988, quando o ditador Augusto Pinochet, por pressão internacional, foi obrigado a realizar um referendo para saber se deveria continuar governando o Chile.

Bernal interpreta o publicitário René Saavedra, que retorna do exílio no México e utiliza seus talentos para promover a campanha do voto pelo “não”, contra a continuidade de Pinochet como presidente. Mas em vez de usar um direcionamento sério e até dramático, com imagens de tortura e demais violências típicas de governos ditatoriais, o marqueteiro optou pelo humor e pela linguagem leve da publicidade televisiva.

O resultado foi 44,01% para o “Sim” e 55,99% para o “Não”, retirando o militar do poder após 15 anos e promovendo a redemocratização do país. “Essa é uma história que merecia ser contada”, comentou Larraín, durante entrevista coletiva após a projeção da obra. “Acho que o filme mapeia não apenas o que aconteceu durante a ditadura (chilena), mas também o que vem acontecendo nos últimos 20 anos”, disse o diretor, em referência aos processos democráticos realizados na América Latina e que agora ganham força em países do Oriente Médio.

“Gael estava em minha mente desde o desenvolvimento do roteiro”, contou o cineasta, que possui a credibilidade de filmes como “Post Mortem” (2010) e “Tony Manero” (2008), que também abordam os anos de chumbo. “Tivemos que lhe ensinar algumas coisas sobre o Chile, mas ele imediatamente trouxe o equilíbrio e a ambiguidade necessária para o papel”.

O ator mexicano, que não forçou no sotaque chileno, confessou que precisou fazer um curso intensivo sobre o país sul-americano. “Meu trabalho foi fazer uma espécie de ‘download’ de informações sobre a época para entender o contexto e entrar no ritmo, nas microesferas da vida chilena”.

A tarefa mais difícil, no entanto, foi feita por seu personagem, que antes de convencer mais da metade do país a votar no “não”, teve de persuadir seus colegas de campanha a apostar em estratégias divertidas e humoradas. A história é levemente inspirada em fatos reais e baseada na peça teatral “O Plebiscito”, de Antonio Skármeta.

Para fazer a adaptação do roteiro, Pedro Peirano conversou com pessoas que realmente participaram das campanhas publicitárias da época do referendo e diz que aqueles que foram a favor da permanência de Pinochet hoje sentem vergonha da opção. Sua missão foi transformar essas divergentes visões políticas em personagens chaves: “No filme, cada personagem representa um grupo inteiro de pessoas reais. Eles são arquétipos”.

“No” não concorre à Palma de Ouro, pois foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores, uma mostra paralela aos concorrentes ao prêmio principal, mas seu impacto roubou os holofotes de filmes mais badalados no evento.

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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