Frank Pierson (1925 – 2012)

Morreu o diretor, produtor e roteirista Frank Pierson, que ganhou um Oscar por seu roteiro de “Um Dia de Cão” (Dog Day Afternoon, 1975). Ele faleceu na segunda-feira (23/7) de causas naturais, aos 87 anos de idade.

Pierson estava atualmente trabalhando como roteirista e consultor da série “Mad Men”, tendo servido nas mesmas funções em vários episódios de “The Good Wife”. Além de ganhar o Oscar por “Um Dia de Cão”, ele foi indicado mais duas vezes, por “Dívida de Sangue” (Cat Ballou, 1965) e “Rebeldia Indomável” (Cool Hand Luck, 1967). Foi neste filme que cunhou uma das frases mais conhecidas do cinema, “O que temos aqui é uma falha de comunicação”.

Dívida de Sangue, com Jane Fonda, Lee Marvin e elenco

Ele nasceu em Chappaqua, Nova York, em 1925, filho da escritora Louise Randall Pierce e do empresário Harold C. Pierson. A vida de seus pais foi parar no cinema, quando uma autobiografia escrita por sua mãe foi adaptada no filme “O Preço da Felicidade” (Roughly Speaking, 1945), estrelado por Rosalind Russell e Jack Carson.

Após se formar na prestigiosa universidade de Harvard, Pierson começou a trabalhar como jornalista de variedades em Hollywood, escrevendo para as revistas Time e Life, antes de arranjar emprego como editor de roteiros da série “Paladino do Oeste” (Have Gun, Will Travel) em 1959. Ele acabou escrevendo 11 capítulos da atração estrelada por Richard Boone, que foi um dos westerns mais populares da história da televisão.

The Happening, com Faye Dunaway

A partir de 1962, passou a roteirizar outros programas do estúdio Screen Gems, como o policial “Cidade Nua” (Naked City) e o drama “Rota 66″ (Route 66), que também marcaram época, trabalhando lado a lado com futuros mestres do cinema, como John Cassavetes, Bob Rafelson, Paul Mazursky e Robert Altman. Em entrevista ao Sindicato dos Roteiristas da América (WGA), Pierson contou que aquele dream team só foi parar no cinema por incompetência do estúdio.

“Todos nós estávamos criando pilotos de série que ninguém produzia, então fomos considerados dispensáveis e demitidos”, ele explicou. “Mas aí perceberam que tínhamos multas elevadas em nossos contratos e decidiram que iriam nos aproveitar no estúdio de cinema da companhia, a Columbia Pictures, que adorou poder contar conosco, escritores baratos com salários televisivos, criando e reescrevendo roteiros de cinema”.

Rebeldia Indomável, com Paul Newman

A primeira encomenda de Pierson na Columbia Pictures foi reescrever o roteiro de “Dívida de Sangue”, projeto que estava empacado e já tinha passado pelas mãos de dez escritores. O estúdio pretendia lançar o filme como um western musical tradicional, à moda de Gene Autry, o cowboy cantor, mas Pierson o transformou em comédia, seguindo a deixa de Walter Newman, o lendário roteirista de “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole, 1951) e “O Homem do Braço de Ouro” (The Man with the Golden Arm, 1955). Newman tinha esboçado as bases da adequação da trama como comédia. Pierson deu os retoques finais, transformando Jane Fonda em pistoleira e Lee Marvin em bêbado atrapalhado, e o resultado foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro.

Sua missão seguinte foi tentar salvar a trama da comédia “The Happening” (1967), sobre quatro hippies que raptam um mafioso aposentado (Anthony Quinn). Desta vez, não houve milagre, mas a produção virou cultuada por sua música-tema, gravada pelas Supremes, que chegou ao topo da parada de sucessos, e por ser um dos três filmes estrelados por Faye Dunaway em seu primeiro ano de carreira cinematográfica – o mais famoso deles, claro, é “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas”.

O Golpe de John Anderson, com Sean Connery

No mesmo ano, Pierson conseguiu emplacar o seu primeiro roteiro original na Columbia, “Rebeldia Indomável”. Estrelado por Paul Newman, na pele de um prisioneiro rebelde que desafia as autoridades, o filme se tornou um dos mais emblemáticos e famosos da década de 1960.

Pierson investiu todo o seu tempo e dedicação no projeto. Uma das anedotas da produção lembra que ele temia ver a icônica frase da “falha de comunicação” ser cortada pelo estúdio, já que era proferida por um oficial caipira e brutal, então escreveu uma longa biografia para aquele personagem (não utilizada no filme) só para justificar a expressão. A frase é listada em 11º lugar entre as mais famosas do cinema pelo American Film Institute e foi sampleada duas vezes pela banda Guns N’ Roses. Pierson, porém, não ganhou o Oscar com ela, batendo na trave pela segunda vez.

Nichols, com James Garner

Após duas indicações ao Oscar, ele decidiu que iria dirigir seu próprio roteiro, uma adaptação do famoso escritor de espionagem John Le Carré. “A Guerra no Espelho” (The Looking Glass War, 1969) foi estrelado por um jovem Anthony Hopkins (“O Silêncio dos Inocentes”) e ousava discutir patriotismo à luz da Guerra Fria. Mas, desta vez, a crítica não se impressionou.

Ele se voltou novamente à TV, escrevendo e dirigindo o teledrama “The Neon Ceiling” (1971), que rendeu o Emmy de Melhor Atriz à Lee Grant (“Cidade dos Sonhos”), e criando a série “Nichols” (1971-1972), um western passado no começo do século 20, com James Garner (“Maverick”) e Margot Kidder (a Lois Lane de “Superman”).

Um Dia de Cão, com Al Pacino

No mesmo ano, escreveu “O Golpe de John Anderson” (The Anderson Tapes, 1971) para o famoso diretor Sidney Lumet (“12 Homens e uma Sentença”). Estrelado por Sean Connery (o primeiro e melhor James Bond), o thriller acompanhava o plano de um ladrão recém-libertado da cadeia, interessado em roubar o prédio em que mora sua namorada (Dyan Cannon), sem saber que ela está sendo vigiada. No elenco, também estava um jovem iniciante chamado Christopher Walken (“O Rei de Nova York”). Apesar de ser baseado num best-seller, a Columbia não gostou do final planejado, que trazia o ladrão John Anderson escapando num helicóptero. Isto comprometeria à venda para a TV, numa época em que os telespectadores exigiam que todo o crime fosse punido.

Se isso incomodava o estúdio, Pierson não sabia nem como começar a abordar o tema de seu filme criminal seguinte. Ele passou meses estudando a história e seu protagonista, antes de começar a escrever. Baseado em fatos reais, o roteiro acompanhava um roubo de banco que deu errado e virou um cerco policial com reféns. O motivo do crime não podia ser mais bizarro: o ladrão queria pagar uma cirurgia de troca de sexo para seu namorado. Tratava-se de “Um Dia de Cão”.

Nasce uma Estrela, com Kris Kristofferson e Barbra Streisand

Filme que redefiniu o gênero policial nos anos 1970, “Um Dia de Cão” marcou o reencontro entre Pierson e o diretor Sidney Lumet. Suas entrelinhas traziam diversas referências às mudanças culturais da época, não apenas na inclusão de um transexual, mas no fato de o protagonista Sonny, vivido por Al Pacino, ser um veterano da Guerra do Vietnã que nunca se ajustou à vida civil. Além disso, seu grito de resistência à polícia repetia os protestos contra o escandaloso massacre de prisioneiros no presídio de Attica em 1971, que colocou em cheque as forças de repressão nos EUA. Sonny era um criminoso, mas virava herói ao longo da história, graças a um cobertura midiática que preconizou o jornalismo policial da TV contemporânea.

A crítica americana ficou de quatro. O crítico Vincent Canby chamou “Um Dia de Cão” de “o filme mais acurado e exorbitante já feito sobre Nova York”, enquanto Roger Ebert classificou Sonny como “um dos mais interessantes personagens modernos do cinema”. Pierson foi indicado a seu terceiro Oscar. Desta vez, ele ganhou.

Acima da Qualquer Suspeita, com Harrison Ford e Raul Julia

O auge de sua carreira foi seguido de perto por um de seus maiores fracassos. Ele escreveu e dirigiu o remake de “Nasce uma Estrela” (A Star Is Born, 1976), com Barbra Streisand no papel de uma cantora de rock em ascensão. A escalação pode ser responsabilizada pelo fracasso. Os fãs sabiam que Streisand e rock não se misturavam. Mas Barbra era coprodutora. Ela e Pierson até tentaram atrair Elvis Presley para o papel de protagonista masculino. Sem conseguir, cometeram outro equívoco: contrataram o cantor country Kris Kristoferson para viver o roqueiro decadente da trama – nas duas versões anteriores, a história se passava nos bastidores da indústria cinematográfica.

A trilha fez sucesso. Muito sucesso. Rendeu inclusive um Oscar de Melhor Canção para Streisand. Mas o filme foi torpedeado pela crítica e ignorado pelo público. Em sua biografia, a cantora comenta que teria ficado insatisfeita com o trabalho de Pierson e refeito algumas cenas, rejeitando o roteiro e dirigindo ela própria. Isto ajuda a explicar a diferença de qualidade entre “Nasce uma Estrela” e “Um Dia de Cão”, separados apenas por um ano entre seus lançamentos. Streisand e Pierson terminaram as filmagens sem falar um com o outro.

Conspiracy, com Kenneth Branagh

Ele voltou a escrever e dirigir pela última vez em “Rei dos Ciganos” (King of the Gypsies, 1978), com Eric Roberts e Brooke Shields. O fracasso comercial e crítico o afastou de vez da direção de filmes, função que ele só voltou a exercer na televisão. Seus últimos trabalhos no cinema foram os roteiros de “Fantasmas da Guerra” (In Country, 1989), de Norman Jewison, e “Acima da Qualquer Suspeita” (Presumed Innocent, 1990), de Alan J. Pakula.

A partir dos anos 1980, Pierson se dedicou a outras funções na indústria, servindo como presidente do Sindicato dos Roteiristas e até da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, organização responsável pela entrega do Oscar.

Mad Men

Nos últimos anos, ele voltou a focar sua atenção na TV, ganhando três indicações ao Emmy de Melhor Diretor pelos telefilmes “Cidadão Cohn” (Citizen Cohn, 1992), “Conspiracy” (2001) e “Soldier’s Girl” (2003). A partir de 2009, assumiu a função de consultor de produção na série “Mad Men”, para a qual escreveu seu último roteiro, “Signal 30″, episódio exibido em abril nos EUA.

Ele deixa a esposa, Helene, os filhos Michael e Eva, e cinco netos.

Frank Pierson e o Oscar por Um Dia de Cão

+ Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News e é o editor do site Pipoca Moderna

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