MOSTRA Três jovens universitários inseparáveis, dois rapazes e uma garota, dividindo um apartamento. Esta, que pode ser a descrição de inúmeras repúblicas estudantis, é a base do roteiro de “Os 3″, longa de Nando Olival (do viral “Eduardo e Mônica” de celular). Obviamente haverá tensão romântica na mistura e pronto: surge uma história que o cinema adora revisitar e que resultou em filmes gostosinhos como “Três Formas de Amar” (1994) ou “Splendor – Um Amor em Duas Vidas” (1999).
A esperteza começa na medida em que o próprio Olival, em parceria com Thiago Dottori, resolvem apimentar o roteiro com um detalhe: o projeto de conclusão de curso dos três protagonistas consiste numa espécie de reality show via internet, no qual é possível comprar os produtos usados pelas pessoas que são vigiadas por câmeras 24 horas por dia.
É óbvio que os três acabam virando cobaia do próprio projeto. Mas é a partir daí que surge a desculpa para criar mais do que a simples comédia romântica possibilitada pelo arco dramático, arriscando vôos que alcançam a metalinguagem narrativa e a crítica de mídia.
A história é conduzida pela narração de Rafael, interpretado por Victor Mendes. Embora convença em cena, as falas em “off” soam artificiais, o que, logo no começo do filme, talvez passe a impressão errada de que a produção é descuidada ou amadora. Quem não se deixar enganar por esse detalhe, vai notar uma direção de arte esmerada, uma fotografia cuidadosa e uma direção que consegue explorar à exaustão um espaço que se restringe a um apartamento quase sem paredes.
Ao lado de Cazé (Gabriel Godoy) e Camila (Juliana Schalch), Rafael começa a questionar, afinal, o que é ficção e o que é realidade numa vida midiatizada. E, bem ou mal, é essa a pergunta que todo filme acaba levantando na cabeça do espectador.
É só olhar com mais calma pra notar que, mais do que criticar a sociedade de consumo ou alfinetar um dado formato de programa de TV, o filme está na verdade falando sobre si mesmo enquanto representação de uma realidade. Realidade, aliás, com a qual muitos dos espectadores se identificarão.
E se algumas situações se revelam “armações”, ou “combinadas”, não é assim também com o filme? A ilusão buscada pelo espectador não seria justamente aquela que os protagonistas lutam tanto para desconstruir? Embaladas em uma trama sexy e com detalhes íntimos que todo mundo gosta mas pouca gente assume, essas perguntas acabam virando um problema gostoso de resolver, um labirinto no qual o espectador se diverte ao tentar sair, meio à la “Show de Truman” (1998).
Ao fim, a jovialidade que permeia a trama serve como frescor para um roteiro que, como seus personagens, é muito mais profundo do que parece. Basta estar sujeito a observar os detalhes, como sugere Rafael na primeira cena do longa. É por meio deles que se descobre o que realmente importa.































