Festival traz o melhor do cinema latino a SP

Quantas vezes você já assistiu a um filme colombiano? E venezuelano? E paraguaio? O 7º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo é uma ótima oportunidade para o grande público conhecer a cinematografia dos países que estão ao nosso lado, mas que raramente chegam ao circuito comercial brasileiro.

Mais de 70 produções serão exibidas ao longo de uma semana, entre esta quinta (12/7) e a próxima (19/7), com obras inéditas por aqui ou premiadas em outros festivais internacionais – além da presença de diversos realizadores. E todas as sessões têm entrada franca.

Artigas, La Redota

A seleção é saborosa e deve agradar a todos os gostos: tem filme cubano que traz a capital Havana infestada por zumbis, road movie mexicano que passou pelo Festival de Berlim, colombiano que conquistou o prêmio de diretor revelação num festival espanhol, e uma co-produção Uruguai, Brasil e Espanha dirigida pelo cinematógrafo uruguaio de “Cidade de Deus”, Cesar Charlone.

Entre as produções nacionais, vale ficar de olho em “Augustas”, primeiro longa-metragem de ficção do jornalista Francisco Cesar Filho, conhecido como Chiquinho. O diretor usou como base o livro “A Estratégia de Lilith”, de Alex Antunes, para abordar o universo e personagens da mítica rua paulistana, símbolo de boemia, cultura underground e prostituição. Mas o foco do filme, exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, está mais centrado nos moradores da rua do que das baladas e tribos urbanas.

El Páramo

“Estradeiros”, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, acompanha os nômades e mochileiros errantes pelas ruas e estradas do país. Cheio de imagens poéticas, o longa transforma as vias em protagonistas para entender justamente quem anda nelas. As motivações das pessoas também estão presentes em “Pulsações”, documentário de Manoela Ziggiatti que parte de seu núcleo familiar para entender a vida como um todo – a montagem é de Juliana Rojas, co-diretora do elogiado “Trabalhar Cansa”.

Augusto Sevá retorna à direção de um longa-metragem após 22 anos (“Real Desejo”) com a comédia romântica “Fala Sério!”, sobre três garotas que se tornaram mães na adolescência. Já “Rânia”, de Roberta Marques, também traz o olhar feminino jovem, mas de forma mais dramática. A menina do título (interpretada por Gaziela Felix) troca sua vida humilde pelas noites de sexo e dinheiro numa boate de Fortaleza e vê seu sonho de se tornar bailarina mais distante.

Juan de los Muertos

O público interessado em conhecer filmes de nossos hermanos não pode deixar passar algumas pérolas que dificilmente passarão por alguma sala das multiplex dominadas pelos blockbusters americanos. É o caso de “Artigas – La Redota”, do uruguaio indicado ao Oscar Cesar Charlone (“O Banheiro do Papa”). A produção, exibida na Mostra de São Paulo, acompanha a trajetória do mito sul-americano José Gervasio Artigas, um dos Libertadores da América e, apesar de ser um filme com temática história, traz uma linguagem visual e narrativa bastante moderna.

“Juan de Los Muertos” traz a curiosa visão de uma Havana dominada por zumbis. E se George Romero elaborou uma metáfora entre os cadáveres andantes e os consumidores capitalistas em sua saga inaugurada por “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), não há dúvida de que o argentino radicado em Cuba Alejandro Brugués também repete o recurso. A obra foi premiada no Festival de Leeds (Inglaterra) e seu protagonista, Alexis Díaz de Villegas, levou troféu do Fantasporto (Portugal).

El Chico que Miente

Outro premiado é “Un Mundo Secreto”, que passou nos festivais de Guadalajara, Tolouse e Berlim. A obra acompanha o rito de passagem da adolescente vivida por Lucía Uribe numa Cidade do México pulsante, violenta e cheia de incertezas. A direção é do estreante Gabriel Mariño.

“Porfírio” e “El Páramo” destacam-se entre os colombianos. “Porfírio” é um símbolo da América Latina internacional: é uma coprodução com a Argentina, Uruguai, Espanha e França, dirigida por Alejandro Landes, nascido em São Paulo, e filho de mãe colombiana e pai equatoriano. Além disso, traz o tema político como catalisador (baseado em história real): um paraplégico vítima de violência quer sequestrar um avião para chegar até o presidente de seu país. O filme foi exibido Festival de Cannes e no Festival de Nova York.

Un Mundo Secreto

“El Páramo” também teve seus louros: o diretor Jaime Osório Márquez ganhou o prêmio de revelação do Festival de Cinema Fantástico de Sitges (Espanha) e fez fila nas salas de exibição colombianas. Co-produzido com a Argentina e Espanha, “El Páramo” foi filmado numa base militar localizado há mais de quatro mil metros de altitude e traz em sua história um mistério sobre um único sobrevivente de uma região desolada.

O chileno “Bonsai” também passou pela mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e faturou o prêmio de melhor filme ibero-americano no Festival Internacional de Miami. Co-produzido com a Argentina, França e Portugal, o longa é inspirado pelo livro homônimo de Alejandro Zambra e dirigido por Cristián Jiménez (“Ilusões Óticas”).

Bonsai

Entre os venezuelanos, atente para “El Chico Que Miente”, uma co-produção com Perú e Alemanha. Dirigido por Marité Ugas, a obra foi premiada pelo roteiro no Festival de Havana e foi selecionado para o Festival de Berlim. A história acompanha um pré-adolescente em busca de sua mãe desaparecida durante um trágico deslizamento de terras na Venezuela em dezembro de 1999.

A programação do Festival também traz a Competição de Escolas de Cinema Ciba-Cilect, com a exibição de curtas de diversos países latino-americanos, a mostra Fronteiras, que reúne produções do canal TNT realizadas no continente, e uma homenagem ao Cine en Construcción, projeto franco-espanhol que completa 10 anos apoiando longas-metragens da América Latina.

Augustas

Também acontece durante o evento o Prêmio Finaliza 2012, que concede ao vencedor R$ 99,4 mil para a finalização de uma produção em pleno andamento.

O 7º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo acontece no Memorial da América Latina, no Cinesesc e na Cinemateca Brasileira, entre os dias 12 e 19 de julho. Todas as exibições são gratuitas. A programação completa, com horários, pode ser conferida no site oficial.

Rânia

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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