Febre do Rato alça o cinema brasileiro à condição de poesia

O cineasta recifense Cláudio Assis é um animal cinematográfico. Seus dois trabalhos anteriores, “Amarelo Manga” (2002) e “Baixio das Bestas” (2007), foram premiados como Melhor Filme no Festival de Brasília. Sendo que esse último também foi considerado o melhor no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam.

Agora ele lança “Febre do Rato”, Melhor Filme no Festival de Paulínia e premiado também no Cine Ceará.

Trata-se de obra de realização mais trabalhosa e complicada que as anteriores. Principalmente porque se concentra no retrato de um protagonista ao mesmo próximo e distante do mundo real.

Zizo (Irandhir Santos – “Tropa de Elite”) é um poeta alucinado e anárquico de Recife que publica um tablóide de crítica e poesia chamado Febre do Rato – título que é também uma referência à leptospirose que assombra os habitantes dos mocambos e favelas instaladas nos mangues próximos aos rios Capibaribe, Beberibe e à cidade.

Ainda que muito mais complexo, o personagem tem algo do histórico Cuíca de Santo Amaro (José Gomes), falecido em 1964, que lançava em cordel seus versos críticos e satíricos, na Salvador dos anos de 1940 e 50.

Ao dar vida a esse poeta e contestador militante, Claudio Assis e seu roteirista Hilton Lacerda tiveram o cuidado de construir o ambiente que o cerca com riqueza de pormenores: a vizinhança onde se movimenta, o grupo de amigos formando uma espécie de tribo de seguidores e até a sua sustentação econômica – ou seja, a mãe amorosa e compreensiva com quem vive e que lhe paga as despesas.

As conexões entre os integrantes desse arremedo de família se mostram bem vivas e costuradas, numa trama que acaba atribuindo credibilidade e concretude àquela figura central, tão pouco provável.

Por exemplo, com o amigo Pazinho, vivido por Matheus Nachtergaele (“O Bem Amado”), ele desenvolve uma relação paternal, enquanto Eneida, a colegial interpretada por Nanda Costa (“Sonhos Roubados”) representa a sua Dulcinéia: a amada inacessível que atende à sua necessidade de romantismo.

Apesar da aparente crueza e da improvisação de boa parte das cenas, a incansável verborragia poética do herói adquire solidez e coerência, com tiradas como “até a anarquia precisa de tradição”, ou “enquanto o subúrbio grita de alegria, o planeta chora de medo”.

Especialmente na voz de Irandhir Santos – tão expressiva que lhe permitiu apenas com ela, e sempre em off, protagonizar “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” (2009).

Irandhir e também Nachtergaele – no papel de um coveiro apaixonado por um travesti – provam mais uma vez que se situam na vanguarda da arte dramática abrigada pelo cinema feito por aqui.

Todas as hipérboles, ou excessos da encenação são, por sua vez, harmonicamente integrados ao visual do filme, pela fotografia em branco e preto de Walter Carvalho.

Como sempre irretocável, desta vez ele supera o que ofereceu em “Amarelo Manga”, operando travellings memoráveis com a câmara presa ao teto do cenário, ou inserindo os personagens num desfile militar.

É justamente esse arranjo entre lucidez e desvario o que dá combustível a esta fábula audiovisual.

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Febre do Rato

Imagem de Amostra do You Tube

(Brasil, 2011)

 ★★★★☆ 

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+ Luciano Ramos

Luciano Ramos é escritor, crítico de cinema e professor dos cursos de pós-graduação da FAAP. Escreveu as minisséries "Avenida Paulista" e "Moinhos de Vento", além da novela "Champanhe" da Rede Globo, dirigiu o Departamento de cinema da Rede Bandeirantes, editou o “Guia de Filmes e Vídeo" da Editora Nova Cultural, é autor do livro “Os Melhores Filmes Novos” (Editora Contexto, 2009) e apresenta o programa Cinema Falado na Rádio USP.

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