Fausto ganha leitura artística de grande impacto visual

“Fausto”, de Johann Wolfgang von Göethe (1749-1832), é uma incontestada obra-prima da literatura mundial. Poema filosófico e drama em duas partes, do qual o autor se ocupou de 1770 a 1831, conta a lenda do homem, supostamente inspirado em um personagem real, que se dedicou aos saberes do mundo, mas, desiludido, fez um pacto e vendeu sua alma ao demônio.

O personagem já existia na literatura, desde um escrito anônimo de 1587, mas foi Göethe quem lhe deu forma definitiva e o consagrou como um mito universal.

Inspirado em Göethe, o grande cineasta russo Alexander Sokurov (“O Sol”) realiza seu “Fausto”, procurando reconstruir, por meio da fotografia de Bruno Delbonnel (o mesmo cinematógrafo de “Sombras da Noite”), um mundo e um mito daquela época, situado historicamente e com detalhes impressionantes.

Os planos e os enquadramentos formam verdadeiros quadros. O filme é de grande riqueza visual. Segundo o diretor, inspirado em pintores alemães, como Albrecht Altdorfer e Carl Spitzweg, captando suas cores acinzentadas e esmaecidas, seus climas e o caráter claustrofóbico da vida do personagem. Os espaços se encurtam, os tetos são baixos, as ruas de circulação, estreitíssimas. E assim se mergulha num universo visual estranho e belo.

Lá estão retratados saberes da época, como na cena inicial da dissecação de um cadáver, as inexistentes noções de higiene, as moradias, os animais, a falta de dinheiro e a fome e as doenças endêmicas. Até os cheiros são incessantemente descritos, já que os recursos do cinema não nos permitem senti-los. Tudo para revelar um personagem e seu mundo.

Fausto vagueia por esse mundo com Mefistófeles, uma figura repulsiva, mas sedutora, como convém ao diabo. Dessas andanças e desse relacionamento vai-se compondo uma narrativa cinematográfica de rara beleza – apesar de tudo – e que, segundo Sokurov, tem como um de seus objetivos estimular as pessoas a se interessarem por ler o “Fausto” de Göethe.

O filme tem uma dimensão artística que realmente põe em relevo a importância da obra literária. E recria cinematograficamente o mito, dialogando com obra análoga de F. W. Murnau (1888-1931), grande diretor do expressionismo alemão da época do cinema mudo: o “Fausto” de 1926.

A grande parábola do poder que “Fausto” representa está muito bem apresentada neste filme, que é uma produção russa, falada em alemão e filmada em meio às paisagens infernais da Islândia, que levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2011.

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Fausto

Imagem de Amostra do You Tube

(Faust, Rússia, 2011)

 ★★★★☆ 

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Leia também a entrevista:

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+ Antonio Carlos Egypto

Psicólogo educacional e clínico,sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de “Sexo, Prazeres e Riscos, “Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão” e “Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante”, entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Tem críticas publicadas habitualmente no Cinema com Recheio e nos sites GTPOS.org, Pipoca Moderna e na Confraria Lumière, um e-group que reúne críticos e cinéfilos. Associado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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