Família resgata Marighella da escuridão

Isa Grispum Ferraz tinha dez anos quando seu pai revelou que seu tio Carlos era o Carlos Marighella, sujeito que estampava os milhares de cartazes de “Procurado” espalhados pelos postes da cidade. Considerado um dos maiores inimigos da ditadura militar instalada a partir de 1964, o guerrilheiro foi morto numa emboscada em 1969 e, para muita gente, seu nome é associado à violência e crueldade – uma imagem completamente oposta ao tio carinhoso, brincalhão e poeta conhecido por Isa.

Foi justamente para mostrar essa faceta humana de uma figura tão enigmática que a diretora realizou o documentário “Marighella”, que teve première nacional durante a Mostra de São Paulo, em outubro de 2011. “Você pode até não concordar com seus métodos, mas o que eu quis mostrar no filme foi uma vida inteira dedicada ao Brasil, a uma causa, a uma utopia. Ele abriu mão de todos os confortos e viveu praticamente 40 anos na clandestinidade”, comentou Isa na ocasião, com exclusividade à Pipoca Moderna.

Para realizar o documentário, a diretora registrou mais de 30 depoimentos de ex-militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da Aliança Libertadora Nacional (ALN), além de intelectuais e familiares, como a viúva Clara Charf e o filho Carlos Augusto Marighella.

Isa lembra também que optou por não dar voz aos militares em seu documentário, assumindo uma parcialidade na produção. “Refleti muito sobre isso e achei que era a melhor coisa a fazer. O ‘outro lado’ sempre expôs o que pensava sobre Marighella por meio dos jornais e revistas, acho que era ‘este lado’ que precisava de uma voz. Além disso, sou sobrinha, tenho envolvimento, então precisava assumir a parcialidade ou não seria sincero”.

Durante 1 hora e 40 minutos, o filme aborda desde a origem dos pais do guerrilheiro (uma negra e um imigrante italiano operário), passando pelo surgimento do comunismo em Salvador, sua luta na Era Vargas (1930-1945), a legalização e clandestinidade do PCB, as torturas físicas que Marighella sofreu, suas viagens à URSS, China e Cuba, a decepção com os métodos de Stálin, até o golpe militar de 1964 e sua morte em 1969, orquestrada pelo delegado Sérgio Fleury.

Tia de Isa, Clara Charf viveu com Marighella desde 1947 e não esconde a dificuldade de relembrar o intenso período em que viveu na clandestinidade por conta da luta pelos ideais. “Foi um dos momentos mais dramáticos da história do Brasil, era um regime que não tinha respeito nenhum pelo ser humano, e é duro recordar isso. Mas é muito importante do ponto de vista educativo, para mudar a visão que as pessoas têm sobre ele e sobre toda aquela luta”.

Isa concorda: “Acho que a História precisa digerir o Carlos Marighella”.

A diretora, também responsável pelo roteiro, narra o filme em off, compartilhando momentos íntimos com o tio e revelando histórias surpreendentes, como a paixão do guerrilheiro pela poesia: ele respondeu em versos uma prova de Física do curso de Engenharia da Escola Politécnica da Bahia. Ao longo do documentário, seus poemas e cartas são interpretados pelo ator Lázaro Ramos.

Esse foi, inclusive, um dos grandes problemas enfrentados pela diretora: não há vídeos de Marighella. “Ele assumiu a clandestinidade rigorosa e radicalmente. Tudo o que existe são 20 fotos, e isso não é nada no século 20, o ‘século da imagem’”, lamenta Isa, que, para compensar, enriqueceu o filme com uma pesquisa detalhada, mostrando documentos da CIA, gravações de programas de rádio feitos em Cuba e o apoio de intelectuais internacionais, como o filósofo Jean-Paul Sartre e o cineasta Jean-Luc Godard. E fechou tudo com uma música inédita composta por Mano Brown, dos Racionais MC’s, que não quis cobrar pelo trabalho.

O filme traz revelações e depoimentos que ajudam a humanizar o mito da esquerda brasileira, como a confidência de que ele gostava de se vestir de mulher no carnaval e a situação “Romeu e Julieta” vivida entre Marighella e Clara: além de negro, ele era comunista e gói (não judeu), tudo o que o pai dela não queria para a filha.

Em entrevista, a viúva revela outro segredo sobre o autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, livro lido por milhares de militantes comunistas no mundo todo: o mesmo sujeito que pegava em armas ajudava nas tarefas domésticas. “Ele era a pessoa mais doce que existia, as crianças ficavam apaixonadas por ele. Em casa, nunca deixou de dividir o trabalho comigo: era ele quem encerava o chão.”

“Marighella” entra em circuito limitado nos cinemas nesta sexta, 10 de agosto.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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