E se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau? Livremente baseado em “Catatau”, prosa experimental de Paulo Leminski, o filme “Ex Isto”, de Cao Guimarães, tenta dar imagens às palavras do poeta curitibano a partir dessa ideia. Mas em vez de uma adaptação mais convencional, o filme metamorfoseia-se em uma atmosfera diletante, onde resplandece a sede da descoberta, do saber, do conhecer, do experimentar, do medo, da dúvida, da apreensão, da razão, da moral, da ética, da criação, da insanidade.
Não se trata de exprimir, mas de explorar. Mas para além do filme de belas imagens e de lindos planos, acima desse jogo visual melindroso que aos olhos de um cineasta menos habilidoso pode soar presunçoso, “Ex Isto” assume logo cedo que mergulhar nessa viagem é estar ciente de quão distante é o infinito de possibilidades ao qual a imaginação poderá nos conduzir. Estamos falando de um filme certamente consciente de que o limite criativo não existe. Resta-nos embarcar.
Ao longo de “Ex Isto” vemos um homem ao mesmo tempo intrépido e assustado com as imagens que vê, com a civilidade que confere com seus próprios olhos, mas também com seu corpo, pois Descartes embrenha-se junto às pessoas, caminha com elas, dança com elas, tropeça nelas. Ele literalmente abraça esse mundo para descobri-lo.
As imagens estão impregnadas por essa noção de busca, de procura e de descoberta (de nossa própria História), mas também de perda. O plano-sequência na estação dá uma ideia: a câmera, também um personagem, persegue os passos de Descartes, num vai e vem constante. Em certo momento, ela o perde em meio à multidão de corpos que os separam. Logo depois, estamos na praia, onde Descartes, nu, transita e refestela seu corpo na areia, enquanto mantém conversas alucinógenas consigo mesmo.
Eis que surge uma personagem aparentemente sem relação com aquele momento e o toma em seus braços. Para o diretor, colocar Pietà em cena faz todo sentido. Logo essa imagem, símbolo de todo um misticismo cristão, que empresta sua significação à piedade, ao renascimento.
E o que se descobre dessa relação câmera-personagem também enriquece a narrativa, potencializando as imagens. Toda beleza imagética que surge dali, desse encontro de Descartes com a civilização dos trópicos, vem apoiado na inquietação do ator João Miguel, que interpreta Descartes, e também (e principalmente) de Cao Guimarães.
O filme vai se construindo assim, delineando espaços e os preenchendo senão com o corpo, com a alma. Como se trata de um filme de puro poder de criação, onde sua grande força estética e narrativa está na imagem, no olhar, no gesto, no movimento, na expressão, então temos que lidar com uma presença nem sempre física. O olhar de João Miguel quase sempre direciona o olhar do espectador para o extracampo, pois muita coisa acontece fora de quadro em “Ex Isto”. A bem dizer, todo o movimento das pessoas e do mundo se passa por aí, à sua volta.
Ex Isto
(Brasil)




































