Evaldo Mocarzel em retrospectiva

A partir do dia 4 e durante todas as terças do mês de maio, sempre às 20h, o Sesc Santana realiza em São Paulo a primeira retrospectiva da carreira do diretor Evaldo Mocarzel, o mais prolífico documentarista brasileiro da atualidade. A Mostra Evaldo Mocarzel irá exibir quatro filmes que registram questões sociais, políticas e econômicas, temas básicos de sua filmografia, todos seguidos por um debate com o diretor.

A mostra começa com o documentário “À Margem do Lixo”, no dia 4, seguido por “À Margem da Imagem”, no dia 11, “À Margem do Concreto”, no dia 18, e “Jardim Ângela”, na última terça-feira do mês, dia 25.

O cineasta, que iniciou sua carreira como jornalista e foi editor do Caderno 2, no jornal O Estado de S. Paulo, é um cineasta diferenciado. Quem espiar seu currículo pode se surpreender. De 2005 até hoje, ele tem prontos e exibidos 13 longas-metragens. Em processo de finalização ou montagem, prepara outros dez (um deles, vai tentar apresentar este ano no Festival de Brasília). No meio do caminho, Evaldo ainda se envolve com montagens cênicas – recentemente, assinou texto e dramaturgia da elogiada peça “Kastelo”, do Teatro da Vertigem, em São Paulo.

“Fiquei 25 anos coagulado com a vontade de fazer cinema”, ele conta, em entrevista realizada durante o 14º Cine PE, festival em que exibiu seu mais recente trabalho, “Cinema de Guerrilha”. “Quando veio à tona, virou uma coisa muito explosiva. E aconteceu tudo ao mesmo tempo, junto com a carreira de dramaturgo”, diz Evaldo. Os 25 anos aos quais ele se refere estão entre o final dos anos 70 e início dos 2000. Nascido em Niterói (RJ), Evaldo estudou cinema na Universidade Federal Fluminense entre 1979 e 1983 – na época, somente a UFF e a USP tinham cursos na área.

“Quando me formei, tinha bagagem teórica, mas sem filmar nada. Não havia acumulado a prática”, lamenta o cineasta. Na sede do fazer, inscreveu-se em diversos outros cursos: roteiro com José Louzeiro, vídeo com Joaquim Pedro de Andrade e Domingos Oliveira, dramaturgia com Luís de Lima. “Sempre quis escrever peças de teatro e fazer filme de ficção. Tudo que me aconteceu depois foi acidente de percurso”.

O “depois” se configurou inicialmente numa coluna diária sobre filmes no jornal “O Fluminense”, o mais antigo do Estado do Rio de Janeiro, editado em Niterói. Porém, Evaldo não se sentiu à vontade no papel de crítico. “Renego essa fase. Amo a crítica, mas eu era muito passional e descompensado na hora de escrever”. E confessa: “Quando detestava algum filme, eu sentia que estava sublimando a minha própria vontade de realizar cinema nas costas de quem tinha a coragem de fazer”.

Quando Evaldo se sentiu mais fortalecido a assumir sua faceta audiovisual, veio Fernando Collor de Mello em 1990 e pôs fim à Embrafilme (que financiava boa parte da produção nacional) e a toda e qualquer política audiovisual brasileira. “Foi o pior ano do mundo”, lamenta. Sem saída e, depois de uma malfadada tentativa de fazer cinema no Canadá, ele acabou sendo levado pelas circunstâncias a voltar ao jornalismo, desta vez no caderno de cultura de “O Estado de S. Paulo”. Lá, trabalhou ao longo de 13 anos – oito deles como editor de suplemento.

Ironicamente, foi nesse período de “exílio audiovisual” que Evaldo efetivamente iniciou a carreira de cineasta. O próprio jornal lhe patrocinou um curso de cinema em Nova York, onde o repórter/editor acidental voltou a dar gás ao cineasta vocacional. “Durante um exercício de aula, tive a ideia de um filme sobre moradores de rua que têm suas imagens ‘roubadas’ pelo olhar dos outros”, relembra. Daí surgiu “À Margem da Imagem”, curta-metragem sobre moradores de rua de São Paulo, exibido pela primeira vez em 2001 e campeão de prêmios em festivais.

Mesmo assim, Evaldo não estava satisfeito. Queria um longa-metragem. Do próprio curta e, mantendo o mesmo título, extraiu o que se tornaria a sua estreia – e, até hoje, o filme de maior repercussão em sua carreira. O impacto de “À Margem da Imagem”, versão longa, foi tanto que gerou outros olhares semelhantes de Evaldo para camadas mais pobres da sociedade brasileira: “À Margem do Concreto”, sobre ocupações urbanas, vencedor do prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival de Brasília; “À Margem do Lixo”, falando de catadores de papel; e “À Margem do Consumo”, focando o universo das favelas.

Completa esse olhar sobre a vida na marginalidade um mergulho no que já foi considerado o bairro mais violento de São Paulo, “Jardim Ângela”, tema de inúmeros raps dos Racionais. “Jardim Ângela” trata de uma região conhecida pelo tráfico de drogas, mas tenta focar o lado positivo da periferia de São Paulo, contrapondo jovens divididos entre suas aspirações para o bem e a representação que a sociedade, o cinema, faz do morador da favela.

Para Evaldo, a visão “estereotipada” do que seja a representação mais básica das classes baixas (violência, drogas, pobreza) pode impregnar o olhar do público e colaborar para a perpetuação de preconceitos. “Tem que ir até o lugar para entender o que se passa lá. Uns 2% ou 5% são envolvidos com atividades ilegais”, apontou ele. “O restante das pessoas é formado por trabalhadores e por muita gente interessada em cultura, em arte, em cinema. Por que não?”.

Premiado como Melhor Diretor por seu filme anterior, “Quebradeiras”, no Festival de Brasília do ano passado, em que se aventurou por cenários rurais, Evaldo retomou os signos do caos urbano em seu mais recente trabalho, “Cinema de Guerrilha”. O novo documentário, que até agora só foi exibido no 14º Cine PE, acompanha o cotidiano de um grupo de jovens da periferia paulistana, que realiza uma oficina audiovisual para aprender as práticas da produção de cinema e é uma espécie de desdobramento e continuação de “Jardim Ângela”.

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Mostra Evaldo Mocarzel

Onde: Teatro Sesc Santana (Av. Luiz Dumont Villares, 579, 11-2971-8700)
Quando: Dias 4, 11, 18 e 25, às 20h
Quanto: Gratuito
Restrição: Não recomendado para menores de 16 anos

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+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

1 Comentário

  • Romildo BomfimNo Gravatar
    14 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Como adquirir os documentários do cineasta Evaldo Mocarzel?

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