Espelho, Espelho Meu assume cor e exageros de fábula infantil

Os contos de fadas voltaram com tanta força em Hollywood que o público irá conferir este ano duas versões da clássica história da garota “com a pele tão branca quanto a neve e o cabelo tão escuro quanto a noite”. A primeiro versão a chegar aos cinemas, “Espelho, Espelho Meu”, aposta no público do conto de fadas original, investindo no colorido, piadas visuais e elementos quase infantis, trazendo até referências à ubíqua animação da Disney de 1937.

Dirigido por Tarsem Singh (“Imortais”), “Espelho, Espelho Meu” funciona tanto como uma comédia leve, sem qualquer pretensão, quanto um filme infantil bem caprichado, e que deve agradar também ao público adulto. A constatação é uma surpresa, já que os trailers da produção não inspiravam muita confiança, com piadas isoladas e um aparente exagero da interpretação de Julia Roberts (“Larry Crowne”) como a Rainha Má, além de apostar na quase estreante Lily Collins (“Sem Saída”) no papel principal – sim, porque apesar do título, Branca de Neve continua no centro da história.

O grande acerto dos roteiristas Melissa Wallack e Jason Keller foi estabelecer o clima leve já na introdução, com um monólogo bem-humorado de Julia Roberts apresentando o universo mágico (ilustrado por uma bela animação). A dupla também acertou ao não ficar presa às adaptações anteriores, apenas emprestando o visual colorido da animação clássica e a premissa do texto dos irmãos Grimm. Com isso, “Espelho, Espelho Meu” respeitou o material original e manteve sua magia, mas aproveitou para subverter alguns valores, adaptar-se ao público moderno e entrar na onda recente das obras que trazem uma personagem jovem e feminina como heroína.

Desta vez, Branca de Neve não é um princesinha em perigo, que espera passiva por seu salvador. Ao contrário, é ela quem deve beijar o Príncipe (Armie Hammer, de “A Rede Social”) para quebrar um encanto.

As mudanças do roteiro dão oxigênio à conhecidíssima história, que é contada por meio de um ótimo elenco. Julia Roberts está divertida e claramente se divertindo no papel de vilã, e caçoa da própria imagem de ex-sexy simbol ao interpretar uma bruxa que detesta a beleza de uma garota mais jovem. Hammer também encara numa boa o papel de um príncipe mais bobalhão do que encantador, não se acanha quando é enfeitiçado e precisa imitar um cachorro carente e tem carisma suficiente para impedir que sua constante aparição sem camisa se torne gratuita.

Mas os maiores louros devem ser dados a Lily, filha do músico Phil Collins. Apesar de ainda precisar lapidar a interpretação, a garota não faz feio como protagonista e não permite que Julia Roberts roube o filme para si. Em grande parte, isso se deve à incrível graciosidade da menina, que faz uso de caras e bocas para conquistar o espectador – e conquista mesmo.

A jovem Lily Collins possui o ar virginal necessário da personagem, mas também se sai bem nos momentos de humor e de flerte. E não será uma surpresa se as adolescentes entrarem na moda de suas sobrancelhas grossas.

A interação entre todo o elenco é tão boa que até no núcleo dos anões está bem resolvido. Dunga e Cia. ganharam novas e interessantes personalidades e identidades. Agora os sete anões são Açougueiro (Martin Klebba), Grim (Danny Woodburn), Tampinha (Mark Povinelli), Napoleão (Jordan Prentice), Lobo (Sebastian Saraceno), Riso (Ronald Lee Clark) e Rango (Joe Gnoffo). Os pequenos foram expulsos da cidade por suas características físicas e passaram a viver na floresta, sobrevivendo de pequenos roubos. Caberá a eles transformar Branca de Neve numa garota forte o suficiente para lutar contra a rainha e resgatar o reino.

Apesar de se passar num mundo de fantasia, não há tantos elementos fantásticos – qualquer “Harry Potter” explora muito mais a magia do que “Espelho, Espelho Meu”. Mas aqui isso é uma vantagem, que fica evidente pela irregularidade dos efeitos visuais. A cena das marionetes gigantes, por exemplo, é bem filmada e o CGI é eficiente devido à simplicidade do design do objeto, mas as tomadas de paisagens não conseguem esconder os pixels, denotando que aquele mundo só existe no computador.

Os figurinos e cenários também variam entre o belo e o cafona, uma característica recorrente dos filmes de Singh. De certa forma, o diretor encontrou no conto de fadas o ambiente perfeito para suas obsessões coloridas, que não funcionam em todo contexto, vide “Imortais”. O indiano ficou tão à vontade e ganhou tanto a confiança dos produtores que até inseriu um número de dança bollywoodiano nos créditos finais.

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Espelho, Espelho Meu

Imagem de Amostra do You Tube
(Mirror Mirror, EUA, 2012)

 ★★★☆☆ 

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Leia também a entrevista:

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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