Todos elogiam os Lindos Lábios de Camila Pitanga

Sexo e nudez sempre fizeram parte do modo como o diretor Beto Brant (“O Invasor” e “Cão Sem Dono”) constrói seus personagens, revelando a partir da intimidade suas relações e personalidades. Em seu novo filme, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, o artifício permanece, mas desta vez com uma intensidade nova. Isso se deve a uma atuação memorável da atriz Camila Pitanga, que ao incorporar a personagem Lavínia se entrega sem freios ao instável temperamento e à arrebatada paixão da personagem.

Dividindo a direção com Renato Ciasca, o filme marca a sétima parceria entre Beto Brant e seu amigo de longa data, o escritor Marçal Aquino, que assina o roteiro junto com os diretores. “Quando está escrevendo um livro, até pelo entusiasmo da nossa longa parceria, o Marçal sempre me lê uns trechos”, revelou o diretor Beto Brant em entrevista realizada na manhã de segunda (9/4) em São Paulo. Ele e parte do elenco, junto com o escritor Marçal Aquino, responderam a perguntas dos jornalistas após exibição do filme para a imprensa.

A atriz Camila Pitanga perdeu a coletiva, por problemas com seu voo do Rio, mas participou de mesas redondas, para deixar registrado seu comentário sobre o trabalho, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio do ano passado. “É uma personagem muito complexa e foi um trabalho que me permitiu ir para outras fronteiras, trilhar um outro caminho. Acho que adquiri gosto pelo risco”, ela avaliou.

O diretor Beto Brant conta que a atriz mergulhou fundo no projeto e que sua participação a fez até repensar algumas escolhas futuras na carreira. O entusiasmo da atriz e o desafio de sua personagem é reconhecido por todo o elenco, como revelou o ator Zécarlos Machado: “Com todas suas contradições, Lavínia é a alma do filme. Ela é a representação da dor e da delícia de ser o que é. E a interpretação da Camila é a grande beleza desse filme”.

O escritor Marçal Aquino também falou sobre sua personagem e a materialização dessa personagem no corpo e na interpretação da atriz. “A Lavínia não existe, ela é uma personagem literária, está na cabeça de quem lê. Eu mesmo não tenho uma Lavínia. Mas o Beto, ao escolher a Camila, define muito bem essa mulher”. Acostumado a adaptar para o cinema os livros do amigo escritor, Brant contou porque elegeu Pitanga para interpretar a intensa personagem do livro homônimo no qual o filme é baseado: “É um papel que interessa a qualquer atriz, porque é a possibilidade de ser muitas. Para nós, a Camila era como um mito, uma atriz no auge de sua carreira, no auge de sua beleza e inteligência e que se entregou de peito aberto para o papel”.

Não são poucas as cenas em que Camila aparece nua. O que não incomodou a atriz nenhum pouco. Ela disse não ter dificuldades para fazer intensas cenas de sexo. “Sou filha de ator. Não tenho essa coisa da mitificação do corpo. Sou muito tranquila quanto a isso”, explicou.

Já para fazer o papel de Cauby, Gustavo Machado precisou de uma preparação especial. Ele conta que teve aulas de fotografia, pois não tinha qualquer intimidade com uma câmera fotográfica. “Até mesmo em viagens que faço não costumo tirar muitas fotos”, confessa o ator. Ele revela que um dos desafios propostos a ele é que as fotos da Lavínia que aparecem no filme fossem realmente fotos feitas por ele.

Ambientado em uma cidade fictícia no interior do Pará, o filme narra o intenso romance entre Lavínia (Camila Pitanga) e Cauby (Gustavo Machado). Ela é a esposa do líder religioso local, Ernani (Zécarlos Machado). Já Cauby é um fotógrafo forasteiro que está passando um tempo na cidade. Ancorado em algumas questões locais, como a predatória extração de madeira na região, o filme mostra o conturbado desenvolvimento deste romance. “Eu acho que o filme toca em assuntos desesperados e urgentes. Ele coloca o amor no lugar de mistério”, analisa Beto Brant. Por sua vez, Marçal Aquino diz que vê “Eu Receberia…” como um filme feminino. “Já ouvi dizerem que nós não sabíamos fazer filmes para mulher, que só fazíamos filmes para meninos e de certa maneira esse filme também é uma resposta a isso”.

“Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” tem estreia nacional marcada para 20 de abril. No mesmo dia será realizada uma exibição para a comunidade onde foram feitas as filmagens, na cidade de Santarém. E, assim como aconteceu com a equipe do filme “Xingu”, ao filmar na região Centro-Oeste do país, todo elenco e produção do filme se mostraram engajados nas causas locais, como o combate a interesses de poderosos que estão desmatando e poluindo os rios da região.

Rodado nos arredores de Santarém, o filme conta ainda com a participação de membros da comunidade que vivem na região do rio Arapium. “Foi um trabalho que nos possibilitou mostrar essa outra realidade. Acabamos promovendo o encontro de lideranças da comunidade e fortalecendo o movimento deles”, explicou Renato Ciasca. “Nós também tomamos parte nesta luta, porque é uma luta pelo Brasil”, reforçou.

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+ Rogerio de Moraes

Rogério de Moraes é jornalista e crítico de cinema. Tem colaborações na revista Época São Paulo, revista Brasileiros e no jornal Folha de S.Paulo. Escreve regularmente sobre filmes em seu blog Eu, Cinema.

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