Em busca do Sherlock Holmes elementar

Ao longo de gerações, Sherlock Holmes incorporou o dom de enxergar além do óbvio, de discernir a verdade dentro de um ambiente marcado por farsas e tramóias. Criado no final do século 19, em uma série de livros assinados por Sir Arthur Conan Doyle, o brilhante detetive tornou-se uma das figuras mais icônicas da cultura popular, cujas aventuras estão entre as mais lidas na história da literatura de língua inglesa.

“Ele foi possivelmente o primeiro super-herói, um super-herói intelectual”, declara Robert Downey Jr., que agora vive o personagem-título em filme do diretor Guy Ritchie. “Ele foi, e talvez ainda seja, um dos ícones mais populares no mundo, tanto que muita gente acredita que chegou a existir de verdade.

E para conhecer o “verdadeiro” Sherlock Holmes, o elenco e os realizadores do novo filme mergulharam fundo nos quatro romances e 56 contos de Conan Doyle para descobrirem as inúmeras camadas da personalidade do detetive. “Tentamos levá-lo de volta ao que acreditávamos serem suas origens, o que basicamente significa um personagem mais visceral”, diz o diretor Guy Ritchie. “E, ao mesmo tempo em que nossa história é ancorada na Londres da década de 1890, tentamos torná-la o mais contemporânea possível”.

“É certamente uma aventura, assim como as histórias pareceram para mim quando eu as li pela primeira vez”, acrescenta Jude Law, que dá vida a John Watson. “Ainda estão lá a intriga intelectual e os aspectos científicos, bem como o suspense das histórias originais, mas também há as lutas e o caos que foram extraídos com muita fidelidade dos romances. Espero sinceramente que os fãs de Conan Doyle gostem mesmo do filme, porque eu próprio sou um grande fã e tenho muito respeito pelo legado dele. Acho que fomos bastante fiéis, mas também colocamos nossos personagens de maneiras que nunca foram vistas anteriormente. Guy Ritchie é brilhante para construir um drama físico e é incrivelmente habilidoso para manter aquela energia toda”.

Lionel Wigram, um dos produtores e roteirista do filme, revela: “Quando me tornei produtor, reli todas as histórias e percebi que havia uma nova maneira de fazer Sherlock Holmes; ele é um personagem tão moderno hoje quanto era na época em que foi criado”.

“Quanto mais lemos as obras de Arthur Conan Doyle, mais vemos como é rico o personagem de Sherlock Holmes”, compara Downey, mencionando a diferença de abordagem da produção. “Ele tem muitos talentos: toca violino, luta artes marciais e boxe, é especialista em lutas com bastão e espada. Ele tem um código moral muito forte, daquele que contribui para que mocinhos prendam os bandidos, então dedicou toda sua vida a se tornar um detetive. Ele não mostra para todo mundo como é inteligente, nem que descobriu tudo antes de todo mundo”.

Em contrapartida, a produtora Susan Downey pondera que as novas gerações não sabem realmente quem é o personagem. “Existe toda uma geração que não sabe muita coisa sobre Sherlock Holmes, apenas o conhece de nome. E existem fãs de longa data que têm afeição por aquele chapéu e pelo ‘Elementar, meu caro Watson’, elementos que não estão neste filme. Mas esperamos ser mais fiéis à obra original ao levar para as telas a ação da história”.

O também produtor Joel Silver pondera que o filme “acentua as qualidades de Holmes que são relativamente desconhecidas, mas que fazem sentido no contexto e são bastante pertinentes ao personagem e às aventuras criadas por Conan Doyle”. Ele destaca: “Outras adaptações de Sherlock Holmes para o cinema seguiram uma linha de detetive noir, mas, na essência, as histórias são de ação.”

“Sherlock Holmes”, portanto, é fiel aos livros, mas não à imagem que se tem do personagem, que foi filtrada por vários filmes antigos, especialmente das décadas de 30 e 40, que o idealizaram como um gentleman, que conduzia apenas investigações intelectuais e se vestia com um guarda-roupa refinado.

No filme, assim como nos livros, tanto Holmes quanto Watson são bons de luta e suas habilidades são testadas frequentemente. “Doyle chama isso de Baritsu nos romances, uma luta do século 19 que é um tipo de jiu-jítsu chamado na verdade de Barititsu, criado por Edward William Barton-Wright”, explica Downey.

Além de eficiente para neutralizar o inimigo quando está trabalhando, Holmes também é conhecido por aliviar as tensões no ringue de boxe. Downey observa: “O ringue de luta livre é o único lugar em que Holmes para de pensar. Mas até lá ele fica pensando: ele pensa em como ganhar a luta, mas se desliga do restante dos acontecimentos da vida. As relações interpessoais ficam fora do ringue. Lá é só ele e seu oponente”.

Mais por necessidade do que por escolha, Watson também é dotado de habilidades nas lutas, apesar de ele ser mais espalhafatoso do que Holmes, que tem um estilo mais fluido. “Watson é adepto da luta próxima, do tipo ‘salve-se quem puder’”, confirma Downey. “Ele tem um estilo muito mais acessível, embora não menos efetivo, do que Holmes. Inclusive, em alguns momentos, Holmes medita por um instante para ver qual seria o melhor golpe, enquanto Watson desfere um golpe com a primeira coisa que estiver a seu alcance”.

Os livros também ensinam que Holmes pode passar “semanas seguidas enfurnado em seu quarto, deitado no sofá, fazendo nada”, comenta Wigram. “Se ele fica assim, aumentam as chances de ficar todo bagunçado. Ele é um tanto boêmio, então fomos na direção de um guarda-roupa pouco convencional, mais romântico. Pensamos que ele poderia se vestir mais como um artista, um poeta, do que como um executivo ou um senhor daquela época – eu pensei muito nos Rolling Stones da época vitoriana”, ele diz, sorrindo.

Em “Sherlock Holmes”, a produção volta à Londres de 1890, quando a cidade parecia o centro do mundo, com a tecnologia ampliando o alcance dos homens e todas as coisas novas correndo para substituir as antigas. “Como centro da Revolução Industrial, Londres estava pulsando de entusiasmo e energia criativa”, observa Ritchie. “Há no filme uma perspectiva por tecnologias de um futuro próximo, e o sentimento de fascínio que isso provoca”, observa Robert Downey Jr.

Contudo, apesar de todo refinamento, a Londres de 1890 também era um esgoto para onde todos os criminosos da sociedade daquela época escorriam – o que torna a cidade ideal para um homem como Sherlock Holmes. Downey continua: “É uma cidade incrivelmente fascinante, mas, ao mesmo tempo, perigosa, e Holmes conhece cada centímetro dela. Ele sente que aquela é a cidade em que deve lutar contra o inimigo. E ele sabe muito bem com o que está lidando”.

Para Guy Ritchie, ter Downey no papel-título foi a chave para a nova interpretação de Sherlock Holmes. “Em minha opinião, Robert é o Holmes perfeito”, afirma o diretor. E completa: “Apesar de ser americano, seu sotaque britânico é impecável. À sua maneira, Robert também é uma espécie de gênio. Ele é incrivelmente inteligente e rápido, e parece muito confortável interpretando um personagem como Holmes, já que não usa nenhum artifício”.

As particularidades não convencionais de Holmes, bem como seu idealismo, combinaram com o ator. Robert Downey Jr. atesta: “Ele é um arquétipo, tem algo de monástico – as intenções dele são puras, seu código moral é reforçado pela determinação forte e por suas ações. Quando ele sente que não está inspirado nem motivado por um desafio criativo, entra em um estado em que mal diz uma palavra durante três dias. Porém, quando está engajado, ele tem uma energia incrível, sobre-humana. Ele diz, ‘Não há nada mais estimulante do que um caso em que nada acontece do seu jeito’. E, no final das contas, a curiosidade passional e a habilidade de Holmes de não apenas ver, mas também interpretar esses detalhes, são o que o torna tão singular”.

Holmes não seria quem é sem Watson, seu parceiro, colaborador e amigo. Assim como com Holmes, os realizadores sentiam que o Dr. Watson dos livros é um personagem muito mais dinâmico do que o velho gordinho apresentado em filmes anteriores e nas séries de televisão. “Às vezes, perto do genial Holmes, Watson parecia um tolo que mal dizia algumas palavras, mas isso não é verdade. Watson é um indivíduo muito mais importante do que isso. Eles formam uma equipe mesmo”, enfatiza Ritchie.

No “Sherlock Holmes” do diretor britânico, Watson é um personagem durão. “Ele é um veterano de Guerra, que acaba de voltar do Afeganistão; foi ferido e passou por maus momentos”, descreve Wigram. “Ele é um homem forte, com o físico bem preparado e que sabe se virar. Apesar de não ser tão genial quanto Holmes, é também bastante inteligente”.

De inúmeras maneiras, a escolha de Jude Law para viver Watson foi tão crucial quanto a de Downey como Holmes. “Parece impossível imaginar qualquer outra pessoa interpretando Watson depois que chamamos Jude”, diz Ritchie. “Eu queria um Watson bonitão. Não queria que ele fosse subserviente nem inferior, e sim que também fosse um herói com uma participação tão significativa quanto Holmes. Acredito que, de certa forma, era isso que Conan Doyle imaginava também”.

Jude Law já estava familiarizado com Holmes e Watson desde que leu suas histórias na infância, e ficava impressionado como Watson sempre fora mal explorado até agora. “Ele participou de uma guerra brutal e experimentou o horror e a dor física”, ressalta o ator. “Com esse conhecimento militar na cabeça, eu queria que ele representasse um pouco o profissional mais moderno e sofisticado, enquanto Holmes seria ligeiramente mais teimoso, o excêntrico dilettante,. Porém Watson está longe de ser aquele coadjuvante que mal balbucia algumas palavras; ele está no meio da ação, às vezes, abrindo caminho até para Holmes”.

Além de se juntar a Holmes em suas investigações, Watson também é o narrador nos escritos de Sherlock Holmes. “Se não houvesse Watson, não haveria Holmes, porque Holmes nunca fala sobre as coisas que ele faz, mas Watson está ao lado dele a cada passo do caminho”, diz Downey.

“Watson sempre foi, e continua sendo, os olhos dos espectadores que veem esse homem incrível desatar os nós extraordinários das pistas”, explica Jude Law. “Definitivamente, ele coloca a mão na massa nos casos de Holmes, mas também fica admirado quando o amigo consegue contar com sua incrível memória fotográfica ou com sua habilidade de decifrar exatamente o que aconteceu e como”.

A amizade dos dois desempenha um papel importante, tanto no trabalho como em suas vidas privadas. “Eles são muito próximos e mostramos como isso se manifesta”, observa Ritchie. “Há muito humor, algum ciúme, mas um carinho e uma sinceridade reais na parceria dos dois. Eles precisam um do outro para manter o equilíbrio; Holmes é o gênio criativo, e Watson é o mais calmo e disciplinado dos dois”.

Desde que Downey e Law se conheceram, iniciaram uma parceira muito rica, o que refletiu nas atuações. Silver conta: “Robert e Jude se tornaram grandes amigos. A química que demonstraram no filme é realmente poderosa. Eles têm uma habilidade quase telepática para entrar em sincronia e criar essa dinâmica incrível que guia a parceria”.

“Jude é muito inteligente e adora o que faz”, acrescenta Downey. “Logo quando nos conhecemos, começamos a conversar sobre uma porção de ideias. Estávamos em busca da mesma coisa, basicamente, da mesma coisa excêntrica. Ele sabe o que está fazendo e, ao mesmo tempo, está aberto a improvisações. Trabalhamos mesmo como uma dupla para fazermos jus a esses personagens e à amizade entre eles”.

“Acho que o principal aspecto que eu queria mostrar – e o que eu sei que Guy e Robert queriam de mim – era ser o yin de Holmes, que seria o yang”, comenta Law. “Robert e eu falamos muito sobre como poderíamos contrabalançar nossos personagens para que juntos eles fossem um todo completo, e muitas das descrições dos dois nos livros mostram que eles eram incrivelmente poderosos juntos, porque apóiam um ao outro, e a amizade dos dois está profundamente enraizada. Às vezes também levávamos para o lado do humor, pois há uma parcela de Holmes que deixa Watson enfurecido e vice-versa”.

De qualquer forma, a maestria de Holmes para desvendar os casos o torna ao mesmo tempo um aliado e um espelho para a Scotland Yard e seu principal inspetor, Lestrade, interpretado por Eddie Marsan. “Lestrade é um funcionário público que segue as regras, portanto o oposto de Holmes”, pontua Marsan. “Eles trabalham lado a lado, o que nem sempre é bom. Mas os criminosos de Londres não dão trégua para Lestrade e, mesmo não aprovando os métodos de Holmes, ele quer ver os crimes resolvidos e os bandidos presos, e Holmes costuma dar conta desse recado”.

“Holmes sabe que ninguém tem metodologia menos convencional que ele, então é muito pouco provável que qualquer um consiga obter os resultados que ele consegue”, observa Downey. “E acho que ele se orgulha disso. Essa é a raiz da auto-estima dele – os aborrecimentos são imensos. Ele quer mesmo ajudar”.

Ocorre que a bem-sucedida parceria de Holmes e Watson toma um caminho diferente quando Watson se apaixona e faz planos de casamento com Mary Morstan, interpretada por Kelly Reilly. “Mary ama muito Watson, e ela também admira Holmes, que a enxerga como uma possível ameaça”, diz Reilly. “Ele acredita que Watson se casar e se mudar, colocará em risco a parceria dos dois”.

Holmes fica preocupado com a determinação de Watson de ter uma vida nova com Mary. “Holmes não consegue entender por que Watson poderia querer qualquer outra coisa além do que eles já têm”, diz Susan Downey. “Ao longo do filme, começamos a entender do que eles precisam um do outro. Watson é o equilíbrio para Holmes. De certa maneira, ele é o que liga Holmes ao mundo real”.

“Sherlock Holmes leva uma vida solitária e se dedica à arte da espionagem”, diz Wigram. “Ele não acredita muito no amor, porque isso pode interferir em seu trabalho. E ele não está interessado em se casar ou em ter qualquer tipo de relacionamento com uma mulher. Ele é excêntrico demais para isso”.

A exceção é Irene Adler. Uma americana de Nova Jersey que está de passagem por Londres, uma mulher desafiadora e à frente de seu tempo, que vive no limite da lei. Apesar de não ser uma personagem constante na coleção Sherlock Holmes, Irene foi protagonista de uma passagem memorável no conto de Conan Doyle “A Scandal in Bohemia”, como a única mulher que bateu de frente com Holmes. “Eu a imaginava como uma agente secreta de shorts, que seduz os homens e rouba deles, muito Mata Hari”, comenta Wigram. “Pensei que seria ótimo tê-la na história como alguém que deixa Holmes magoado e o maltrata”.

Para interpretar o grande amor (e calcanhar de Aquiles) de Holmes, os realizadores convocaram Rachel McAdams. “Rachel ficou na minha cabeça como a Irene”, conta Ritchie. “Ela a interpreta com aquele rostinho benigno, debaixo do qual está a serpente da natureza mais selvagem. Não se pode confiar nela de jeito algum. Mesmo quando está com uma faca ameaçando cortar sua garganta, ela sorri. A doçura dela é um recurso que usa para ser tão eficiente quanto os homens nesse mundo machista”.

“Irene é um mistério, foi divertido descobrir essas camadas na personalidade dela”, diz McAdams. “O relacionamento entre Irene e Holmes é muito instável e pouco convencional; eles estão no limite entre se odiar e se amar. Ela teve muitas vidas e vive o momento. Na verdade, ela é uma mulher que leva a vida de um homem, o que era muito raro naquela época, então eu tinha de equilibrar a elegância da feminilidade dela com a natureza implacável e perigosa”.

Mas o verdadeiro vilão da história é Lorde Blackwood atrai seu foco. Apesar de os crimes iniciais de Blackwood – assassinato de jovens mulheres em aparentes rituais de sacrifício – aparentarem ser pouco desafiadores para Holmes, sua aparente “ressurreição” se torna o caso perfeito para o detetive. Fazendo uso de espiritualismo, Blackwood encarna o personagem do lorde poderoso e sombrio que usa as forças do mal para dominar o mundo.

“No final do período vitoriano, havia muito interesse no mundo espiritual”, comenta Wigram. “Naquela época, havia pessoas como Aleister Crowley e Rasputin, que eram adeptos das forças ocultas e eram muito bons em convencer as pessoas de que eles tinham acesso a um poder além do nosso mundo. Holmes é muito atraído pela ideia de desmascarar alguém como Blackwood”.

“Lorde Blackwood é misterioso e enigmático, equivalente a Holmes, porém do mal”, compara Mark Strong, que interpreta o vilão. “Ele trabalha com forças ocultas e faz as pessoas acreditarem que pode voltar das cinzas. Dessa forma, ele aterroriza os habitantes de Londres, fazendo-os crer que é um ser sobrenatural. Ao mesmo tempo, ele também inventa uma infinidade de coisas à frente de seu tempo. Ele cria um dilema interessante para Holmes, que é cientista e pragmático”.

Sherlock Holmes marca a terceira vez em que Ritchie trabalha com Strong: as primeiras foram em “Revólver” e “RocknRolla – a Grande Roubada”. Para Ritchie, o ator trouxe a seriedade necessária para Blackwood e foi um desafio formidável para o detetive. “Mark é um camaleão fantástico, é daqueles poucos atores que conseguem transformar um diálogo de teatro em algo crível, o que era necessário ao personagem de Blackwood, que é bastante dramático e impositivo”, diz o diretor.

Downey explica: “Apesar do refúgio sobrenatural em que Blackwood se esconde em seus rituais, Holmes sempre irá recorrer ao lado lógico, além de crer que quanto mais estranha alguma coisa parece, mais simples será sua explicação. Ele acredita que qualquer coisa que Blackwood esteja fazendo pode ser explicada mais amplamente pelo mundo científico. Ele diz, ‘Nunca teorize antes de ter informações concretas. Invariavelmente, você acabará distorcendo os fatos para que eles caibam nas teorias, em vez de formular teorias para caberem nos fatos’. A pureza de raciocínio é o que distingue Holmes, e o que lhe possibilita ser o único homem na Terra capaz de deter Blackwood”.

Silver conclui: “Nós decidimos fazer um filme que repercutisse com os fãs de Holmes e trouxesse ao estilo de aventura dele uma nova geração de admiradores. E acho que todo mundo trabalhou magnificamente. Foi um trabalho maravilhoso”.

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