Eduardo Coutinho, um cinéfilo doente

MOSTRA O maior documentarista brasileiro se define como um cinéfilo tão doente que até gosta da crítica. Essas e outras revelações foram feitas por Eduardo Coutinho, que participou do evento “Os Filmes da Minha Vida”, realizado pela Mostra de São Paulo, em que cineastas e profissionais do cinema são convidados para compartilhar suas experiências pessoais com o público.

“Eu experimentei uma cinefilia absoluta, tanto que deveria ter sido internado. Cinéfilo é a pessoa mais doente do mundo”, apresentou-se Coutinho, para começar a conversa. Seu “grau de loucura”, ele conta, incluía assistir cerca de três filmes por dia e, claro, registrar todas as informações sobre eles num caderno, como o elenco e em que cinema conferiu o filme.

Ele também anexava ao seu arquivo reportagens publicadas nos jornais da época e lamentou que, num dia de fúria e crise existencial, tenha jogado tudo fora, já que havia textos de jornalistas extremamente originais, mas que foram esquecidos pelo tempo. Como exemplo, ele citou um crítico que dividia sua coluna em duas partes: em uma, ele escrevia pensando no grande público e, na outra, a análise era direcionada aos cultos. Desta forma, era possível elogiar e xingar Ingmar Bergman na mesma crítica, por exemplo.

Coutinho também citou um outro jornalista que, no lugar de estrelas ou cotações de 0 a 10, ele concluía sua crítica ora com palavras doces, como “Sublime” (caso gostasse do filme), ora com outras bem pesadas, do tipo “Imundo”, “Repelente”, “Leproso”, “Asqueroso”. “Eram no mínimo originalíssimos e nunca vi esses textos publicados na história da crítica”, disse o cineasta.

Foi também por meio do cinema que Coutinho conheceu a geografia de São Paulo, já que ele seguia as indicações jornalísticas de filmes que passavam em salas específicas de alguns bairros paulistanos que ele nunca havia ido antes. “O cinema ocupou um lugar absoluto na minha infância, eu fui educado pelo cinema americano, afinal não havia filmes de outros países por causa da 2ª Guerra Mundial”.

A influência de Hollywood foi tamanha que, durante a adolescência, Coutinho decidiu viver uma aventura com um amigo e pegar a estrada rumo ao desconhecido, no melhor estilo “road movie”. “Mas como a gente era muito covarde, escolhi uma cidade em que tinha parentes, porque se não desse certo, tínhamos um refúgio”, confessou, fazendo o público cair na gargalhada. No final, a experiência se mostrou realmente bem diferente das aventuras hollywoodianas. “Andávamos por horas, fazíamos sinal, mas ninguém dava carona. E não apareceu aquela mulher linda que sempre aparece nos filmes. Não era um filme americano, a vida é trágica”, brincou.

Mas a vida de Eduardo Coutinho também tem elementos que parecem ficção: foi por meio de um prêmio num programa de rádio que ele acabou indo à Europa estudar cinema. Na época, as estações de rádio realizavam concursos de perguntas e respostas e Coutinho passou cinco anos frequentando os estúdios, já que ele ganhava mais dinheiro com esses programas do que com sua mesada. “Eu estudava os temas dos programas, eu decorei o nome de 80 autores de óperas sem nunca ter assistido a uma. Eu ia para as rádios profissionalmente”, confessa.

Após fazer o curso na Europa, Coutinho ainda não imaginava as dificuldades de se viver de cinema no Brasil, principalmente atuando no gênero que o consagrou. “Em toda a história do cinema, o documentário sempre ocupou uma posição marginal, e sempre vai ocupar”, queixou-se, mas também brincou ao dizer que adoraria participar de um documentário que mostrasse como vivem os cineastas. “Eu poderia contar diversas histórias sobre como eu pagava as contas no fim do mês: minha mulher é rica, eu vendo cocaína, eu só como biscoito de água e sal… Por anos, havia dias em que eu pensava: ‘Meu Deus, hoje eu vou ter que voltar a pé para casa”.

Se a ideia fosse realizada, com certeza não seria dirigida por ele. “Não faço filme sobre mim ou sobre assuntos que conheço. Preciso ter distanciamento”. Esse foi um dos motivos que o fez recusar a direção de um documentário sobre seu amigo Leon Cakoff, criador da Mostra de São Paulo, falecido recentemente.

Foi Cakoff, inclusive, quem deu o aval para a exibição, na edição do ano passado, de “Um Dia na Vida”, projeto polêmico do cineasta: simplesmente uma compilação de imagens de diversos programas televisivos brasileiros. O trabalho não pode ser exibido em circuito comercial porque Coutinho não detém os direitos autorais dos vídeos, o que restringe sua passagem a festivais e universidades para fins educativos.

“O vídeo já passou em 8 lugares, já atingiu uns mil expectadores. Daqui a pouco vai ser mais visto do que muitos filmes que passam por aí”, ironizou o cineasta, e explicou que sua proposta está incompleta – sua ideia é exibir “Um Dia na Vida” para plateias formadas exclusivamente por donas de casa e demais pessoas que compõem o público-alvo das televisões.

“O que eu penso sobre a TV não importa, eu quero saber o que pensam as pessoas que gostam desse tipo de conteúdo”, explicou, referindo-se ao excesso de programas de estética, religiosos ou violentos, por exemplo.

Ao ser questionado se ele seguiria regras para conduzir suas produções, Coutinho explicou que, para ele, o importante não é o tema que irá abordar, e sim a forma como ele será tratado. Além disso, ele evita a todo custo usar narrações, pois valoriza as expressões corporais, como o movimento dos braços quando alguém fala. “Faço filmes sobre relações entre corpos humanos. Por isso são filmes ‘eróticos’”.

Coutinho tem dois filmes sendo exibidos na atual edição da Mostra de São Paulo: o clássico de 1984, “Cabra Marcado Para Morrer” (que levou 20 anos para ser concluído devido à censura da ditadura militar) e seu mais recente documentário, “As Canções”, sobre a relação de pessoas comuns com a música popular, premiado no Festival do Rio.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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