Eastwood e DiCaprio encaram J. Edgar

John Edgar Hoover é o exemplo perfeito de um personagem cuja biografia Hollywood adora realizar. Ele fundou o FBI e foi chefe da organização por 48 anos, trabalhou para oito presidentes norte-americanos, ajudou a desenvolver o atual sistema de investigação forense e caçou – na maioria das vezes com sucesso – mafiosos, comunistas e ativistas de movimentos sociais. Seu poder era tamanho que ele tratava alguns presidentes da mesma forma como o Capitão Nascimento conversa com policiais comuns.

Seus métodos de trabalho, no entanto, eram questionáveis: invadiu a privacidade de civis e autoridades, distorcia fatos e chantageava indiscriminadamente. Era misógino e fazia declarações homofóbicas, apesar de existir grandes suspeitas de que ele mantinha um relacionamento amoroso secreto com seu funcionário e colega de longa data Clyde Tolson.

“J. Edgar” não é a primeira cinebiografia de Hoover, mas, sob a direção Clint Eastwood e com Leonardo DiCaprio no papel principal, é a que mais tenta aproximar o personagem da realidade, sem tomar partidos ou suavizar polêmicas. “Minha pesquisa inicial rotulou-o tanto como um herói para o país, a quem devemos tudo em termos de segurança, quanto um vilão que fez as coisas de forma dissimulada e aterrorizou a nação. Tudo era tão extremo que eu pensei que a verdade deveria estar em algum lugar no meio disso tudo”, minimizou o roteirista Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por “Milk – A Voz da Igualdade”).

Clint Eastwood, que chegou a viver a “Era J. Edgar Hoover”, não esconde que guardava uma certa admiração pelo diretor do FBI. “Ele era o grande policial do país”, disse o cineasta durante a divulgação do longa. E, apesar de ter flertado com ideias progressistas em seus filmes – como revelar sua aprovação pela eutanásia, em “Menina de Ouro”, e até investigar a ótica do inimigo japonês durante a 2ª Guerra Mundial em “Cartas de Iwo Jima” –, é importante lembrar que Eastwood é um republicano conservador, cuja imagem nunca se dissociou completamente do personagem Dirty Harry (“Perseguidor Implacável”, 1971), símbolo heróico da direita americana.

Não que o filme apoie ou negue as ações mais à direita de Hoover. Na verdade, o próprio intérprete é o primeiro a mostrar que seus ideais divergem do personagem. “Acho que ele começou com boas intenções, mas discordo completamente de um monte de suas táticas”, disse DiCaprio durante entrevista coletiva.

O ator também aponta que o diretor do FBI era uma contradição ambulante. “Em toda sua vida, Hoover basicamente tentou extrair segredos das outras pessoas e esconder os seus próprios segredos. Ele era tão incrivelmente preocupado com a sua imagem que atacava fervorosamente aqueles que questionavam a sua sexualidade.”

E as opções sexuais de Hoover, de fato, foram um dos grandes desafios do roteiro de Dustin Lance Black, que venceu o Oscar por “Milk – A Voz da Igualdade” (2008), personagem do espectro político oposto. “Para mim, ele parecia exatamente o oposto de (Harvey) Milk: um homem com enorme poder político, mas intensamente enrustido quando se tratava de sua vida pessoal”, assumiu o roteirista.

Nunca foi esclarecido se, de fato, Hoover era homossexual – alguns sugerem, inclusive, que ele era cross-dresser –, até porque ele fazia constantemente declarações homofóbicas, e Eastwood optou por deixar no ar sua relação com seu assessor, Clyde Tolson (Armie Hammer). “Obviamente há uma história de amor aqui”, declarou o diretor, sobre a sugestiva, porém moderada, tensão sexual demonstrada em cena. “Quer se trate de uma história de amor gay ou qualquer outra coisa, o público deve interpretá-la. Minha intenção era mostrar dois homens que realmente se amam. Mais do que isso já não é da minha conta”, disse, pudicamente.

Eastwood acredita que seu filme é uma história sobre relacionamentos, que são mostrados ao longo de 137 minutos. O longa mostra Hoover em 1970, já envelhecido, ditando suas memórias e analisando o próprio passado. De forma não-linear, a produção aborda alguns dos momentos mais importantes de sua vida, de seu combate contra os comunistas em 1919, passando pela criação do FBI, a caça aos assaltantes de bancos nos anos 1930 e sua situação diante da onda de protestos pelos direitos civis nos Estados Unidos a partir dos anos 1960.

E é por meio desses acontecimentos que o cineasta explora os relacionamentos de Hoover, tanto com os presidentes, mas principalmente com as pessoas ao seu redor. J. Edgar, por exemplo, era extremamente submisso à mãe (interpretada por Judi Dench) e morou com ela por anos. Ele também desenvolveu uma grande relação com sua secretária, Helen Gandy (Naomi Watts), uma mulher que dedicou tudo ao trabalho, mesmo que isso custasse sua vida pessoal. “Isso não era comum entre as mulheres da época, ela estava à frente de seu tempo”, comentou Naomi.

Obviamente, quem mais pesquisou seu personagem foi DiCaprio, que chegou a viajar com Black a Washington para conhecer o Departamento de Justiça e conversar com pessoas que trabalharam diretamente com Hoover. “A pesquisa desses papéis é metade da diversão e metade do desafio. É o que o torna (o trabalho) excitante para mim”, revelou o ator.

Ao investigar toda a informação disponível, o astro não estava interessado apenas nas questões sobre o passado de Hoover, mas detalhes como a forma como ele falava e andava, os gestos que fazia com as mãos e quaisquer outras particularidades que pudessem contribuir para sua interpretação. Afinal, DiCaprio precisava interpretar John Edgar Hoover dos 24 aos 77 anos de idade – e sua atuação tinha que demonstrar características próprias de cada fase de sua vida, principalmente durante a velhice. “Era preciso mudar cada movimento e falar de uma forma que o público acreditasse que você tem 50 anos de experiência política – o que é algo que claramente eu não tenho”, brincou o ator de 37 anos.

Para ficar fisicamente semelhante a um septuagenário, DiCaprio contou com próteses faciais, lentes de contato e um objeto enfiado em seu nariz para aumentar suas narinas – um processo de maquiagem que levava até seis horas para ser concluído diariamente. “Era como se eu estivesse todo lambuzado de mel e enrolado por um edredom gigante”, reclamou o astro. Mas ele não nega que, apesar do incômodo, o visual também o ajudava psicologicamente durante a atuação. “Era um processo odioso, mas uma vez que eu olhava no espelho, não precisava fingir ser mais velho. Eu estava velho, então foi bom.”

De certa forma, pareceu não ter sido tão bom assim, afinal Leonardo DiCaprio não concorrerá ao Oscar deste ano como Melhor Ator. Na verdade, o longa de Eastwood foi completamente ignorado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – nem mesmo a maquiagem foi indicada à categoria específica. Teria sido um dos muitos equívocos da série histórica e infame da Academia? Vá ao cinema, confira e debata. Assunto é que não vai faltar, após a sessão de “J. Edgar”.

.

Leia também a crítica:

.

Conteúdo relacionado:

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”. Escreve para alguns sites como o Pipoca Moderna e em seu blog: Cinesteta.blogspot.com

Deixe um comentário

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Seu email nunca aparece. Campos obrigatorios *