A simples menção ao nome Carlos Marighella já causou arrepios durante a ditadura militar, devido às diversas manchetes nos jornais e aos cartazes que estampavam sua foto e uma descrição: “já matou vários pais de família”. Por isso, ainda é comum pessoas o associarem a um grau de violência que faria Zé Pequeno falar baixinho.
Foi justamente para mudar essa imagem que Isa Grispum Ferraz realizou o documentário “Marighella”. Sobrinha do guerrilheiro, a diretora mostra por meio de depoimentos de ex-militantes de esquerda, de intelectuais e de familiares o homem por traz do mito – um sujeito que lutou por um Brasil mais justo, um tio brincalhão, um marido carinhoso e um poeta talentoso.
Por viver quase 40 anos na clandestinidade, existem pouquíssimas registros de Marighella (apenas cerca de 20 fotos e nenhum vídeo), situação que poderia implodir o projeto do filme.
Isa, no entanto, consegue driblar esse percalço com depoimentos ricos em histórias interessantes e belíssimas imagens representativas do espírito da época (como uma cena de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, e trechos de um filme de Jean-Luc Godard).
Além disso, inclui uma animação que se estende por todo o documentário, representando graficamente a resposta de uma prova de Física de Marighella, do tempo em que era aluno do curso de Engenharia da Escola Politécnica da Universidade da Bahia. Detalhe: ele respondeu em versos como a luz reage em um espelho.
Se o exemplo não é suficiente para desmistificar a figura do assassino cruel e frio, criado pela ditadura, os depoimentos mostram que o guerrilheiro, admirado por intelectuais como Jean-Paul Sartre, era muito divertido e adorava uma brincadeira, como criar novelas no gravador pessoal, dublando vozes masculinas e femininas, para apresentar ao filho, e até se vestia de mulher no carnaval.
Essas revelações pessoais e leves, obviamente, servem como contraponto aos difíceis momentos relatados pelos colegas, como a vida na clandestinidade, sua prisão por sete anos, as torturas que sofreu e seu assassinato, após uma emboscada realizada pelo temido delegado Sérgio Fleury.
Depois da campanha midiática negativa no período da ditadura militar e de ser ignorado atualmente pelos grandes veículos de comunicação, o documentário “Marighella” resgata da escuridão com competência e beleza um personagem que pode até ser polêmico devido aos métodos que utilizou para lutar pela democracia, mas que não pode ser esquecido.
Marighella
(Brasil, 2011)


































