Diretor de O Artista deixa o cinema mudo

“Quando eu disse às pessoas – amigos, atores, produtores – sobre a minha ideia para este filme, eles simplesmente riram de mim”, relembra Michel Hazanavicius, agora também aos risos, em entrevista coletiva para a imprensa internacional em Los Angeles. Mas não é para menos: quem apostaria que, em plena era do 3D, o filme mais elogiado entre 2011 e 2012 seria “O Artista”, uma obra em preto e branco e sem diálogos? Bem, o cineasta Hazanavicius e o produtor Thomas Langmann apostaram e agora recolhem os louros.

O longa-metragem mudo tem feito muito barulho nos festivais por onde passou e já rendeu mais de 50 prêmios para seus realizadores. O burburinho começou no Festival de Cannes, que concedeu a Jean Dujardin o prêmio de Melhor Ator. A festa francesa serve como vitrine para o mundo e o efeito cascata foi inevitável, arrancando sonoros aplausos nos festivais pelo globo. A produção chamou a atenção do magnata Harvey Weinstein, que rapidamente levou o filme para os EUA e não deu outra: “O Artista” se consagrou em Hollywood. Foi o longa com mais indicações ao Globo de Ouro, levando três prêmios – Melhor Filme de Comédia, Melhor Ator e Melhor Trilha.

A obra de Hazanavicius também foi considerada o Melhor Filme pelo Sindicado dos Produtores da América, e o francês conquistou um feito incrível: foi eleito o Melhor Diretor do ano pelo Sindicado de Diretores de Hollywood (PGA), superando cineastas do calibre de Woody Allen (“Meia-Noite em Paris”), Martin Scorsese (“A Invenção de Hugo Cabret”), Alexander Payne (“Os Descendentes”) e David Fincher (“Millenium: Os Homens que Não Amavam As Mulheres”). E olha que ele nem é de Hollywood, muito menos americano. “Talvez seja o maior reconhecimento pelo qual eu podia esperar. Amo e tenho muito respeito pelos diretores indicados”, agradeceu durante o discurso.

Pois é melhor Hazanavicius preparar um novo discurso, já que, nos últimos quatro anos, todos os vencedores do PGA também conquistaram o Oscar – os integrantes do sindicato fazem parte dos eleitores do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. E “O Artista” concorre a 10 estatuetas do Oscar, uma a menos do que o filme com mais indicações, “A Invenção de Hugo Cabret” (por sinal, uma produção filmada em 3D). Caso o longa francês vença como Melhor Filme (vale lembrar que ele concorre na categoria principal, não na de produções estrangeiras), será o primeiro longa-metragem mudo a receber o prêmio em 83 anos – nem o cometa Halley leva tanto tempo para passar…

Mas falar de prêmios depois que o trabalho já está feito é fácil. Hazanavicius não se esquece dos desafios que enfrentou para convencer os produtores europeus a financiar um filme cuja história se passava nos Estados Unidos dos anos 1920, sem cores e, pior, sem falas – enquanto o cinema mundial investe cada vez mais no formato digital e no 3D (até cineastas consagrados estão flertando com a linguagem, como Wim Wenders, em “Pina”, e Werner Herzog, em “A Caverna dos Sonhos Perdidos”). “Estávamos bem no meio da mania ‘Avatar’, da mania do 3D. Era como se eu estivesse num automóvel 2 CV (modelo da Citroën pré-2ª Guerra Mundial) com carros de Fórmula Um rugindo atrás de mim”, comentou o diretor, orgulhoso, na época da première no Festival de Cannes.

Seu sonho de realizar um filme como “O Artista” rondava sua cabeça há cerca de uma década, inspirado nos cineastas lendários como Alfred Hitchcock, Fritz Lang, John Ford, Ernst Lubitsch e F.W. Murnau. Mas foi por meio do produtor Thomas Langmann que o longa começou a se tornar realidade. “Thomas foi louco o suficiente para me seguir, confiar em mim, e usar seu próprio dinheiro, o que é muito incomum”, reconheceu Hazanavicius. “É graças a ele que este filme deixou de ser uma fantasia para virar um projeto.”

Acontece que se tratava de um projeto sem roteiro. O francês ainda não tinha uma história em mente nem qual seria o tom ideal. Uma opção seria fazer uma comédia escrachada – um terreno já frequentado pelo diretor em “Agente 117” (2006) e sua sequência, “Agente 117 – Rio Não Responde Mais” (2009), ambos com Dujardin no papel principal. Ele estava mais propenso, no entanto, a abordar um drama, principalmente relacionado ao cinema, podendo, desta forma, brincar com a metalinguagem.

Hazanavicius começou a desenvolver uma trama que se passaria em Berlim durante a 2ª Guerra Mundial e evocaria o influente expressionismo alemão. Mas, ao listar a quantidade de elementos do filme (o movimento cinematográfico, nazistas, guerra, com elenco francês, num filme preto e branco e mudo), viu que o projeto seria inviável.

A solução viria logo em seguida, quando se lembrou de uma conversa que teve com o roteirista e dramaturgo Jean-Claude Grumberg, que havia comentado certa vez sobre o declínio de um ator do cinema mudo que não se adaptou à chegada do som às salas. “Eu me lembrei dessa história e comecei a trabalhar nessa direção, olhando para aquele episódio da chegada do cinema falado”, comentou Hazanavicius.

O ambiente era perfeito, já que permitia ao cineasta justificar a escolha pelo formato silencioso utilizando-se da história de George Valentin (Dujardin), um vaidoso astro do cinema mudo do final da década de 1920, que vê o fim de sua carreira quando os estúdios começam a investir nos filmes com som. Para piorar sua moral, o galã decadente passa a manter um romance com a estrela em ascensão Peppy Miller (Bérénice Bejo, esposa do diretor), que vem fazendo cada vez mais sucesso por conta de suas habilidades artísticas.

Com a idéia pronta, Hazanavicius começou a suar para transformar a história num roteiro… sem diálogos. “A parte mais desafiadora foi escrever o filme”, lembra-se o diretor e roteirista “Por várias vezes, enquanto eu estava escrevendo, me pegava deprimido e pensando: ‘Ninguém vai gostar disso!’”. A solução foi apelar para os mestres Murnau, reassistindo a “Aurora” (1927) e “City Girl” (1930), e a Charles Chaplin, com “Luzes da Cidade” (1931). “Eu adoraria me aproximar daquela forma de expressão”, confessou Hazanavicius sobre o clássico de Chaplin. “Esse filme me deu a coragem para continuar. Eu posso vê-lo 100 vezes e eu sempre vou chorar depois.”

Após pesquisar em inúmeros filmes e livros, Hazanavicius sentiu-se confiante para brincar com as imagens e transmitir aos atores e equipe técnica qual a linguagem a ser utilizada. Para o diretor de fotografia Guillaume Schiffman, a orientação era para explorar as luzes e sombras, principalmente nos momentos de conflito – na cena em que Valentin presencia o teste de som, tanto a iluminação quanto as sombras foram acentuadas, simbolizando o estado de espírito e a recusa do personagem ao cinema sonoro.

Já o figurinista Mark Bridges – parceiro de Paul Thomas Anderson (“Sangue Negro”, 2007) – criou roupas com alguns números maiores para Dujardin, para dar a impressão de que o personagem estaria “encolhendo” durante seu declínio. O uso de cores também teve nuances: durante o auge, o preto e o branco dos figurinos do astro eram predominantes, enquanto o cinza passou a dominar os trajes de Valentin após sua queda. O simbolismo sobre a carreira do personagem também foi explorado pelo designer de produção Laurence Bennett. Ele ficou responsável por encontrar e desenvolver diversas escadas para o cenário, para que Valentin subisse durante seu apogeu e descesse durante seu declínio.

O diretor lembra que, quem mais sofreu com a linguagem “obsoleta” foi o elenco. “Para a maioria dos atores, a voz é um grande trunfo. De repente, eles tinham que se virar sem ele”, comentou Hazanavicius. Sem os diálogos, os intérpretes precisaram se adaptar à silenciosa forma de expressão. “O texto é uma ajuda essencial para transmitir sentimentos, mas aqui, tudo tinha de ser transmitido visualmente, sem a ajuda de palavras, respiração, pausas, tom, todos esses elementos normalmente utilizados”.

Para ajudar a inspirá-los, o cineasta tocou nos sets compositores clássicos da Hollywood de 1940 e 50, como Bernard Herrmann, Max Steiner, Frank Waxman, George Gershwin e Cole Porter.

Como já ficou claro, Hazanavicius é apaixonado pelo cinema americano e não tem vergonha de assumir isso – um costume diferente de seus compatriotas. “Eu sou um francês incomum”, brincou o diretor durante a coletiva de imprensa. Ele citou a estranha relação entre as cinematografias americana e francesa e a eterna discussão entre arte e indústria. “Mesmo os caras da Nouvelle Vague como Jean-Luc Godard admiravam John Ford, Alfred Hitchcock e Howard Hawks – vários diretores de Hollywood foram considerados autores. Acho que há muita contradição”, refletiu sobre a polêmica.

Para retribuir seu amor pelo cinema americano – e mudo –, Hazanavicius fez questão de filmar em Los Angeles, alugando alguns estúdios hollywoodianos e passando por locais históricos do famoso bairro – elementos que podem ser observados pelos mais atentos. Além disso, apesar de ser uma produção franco-belga, o diretor deu papéis de destaque a alguns atores norte-americanos queridos, como John Goodman (“Tão Forte e Tão Perto”) e James Cromwell (“Babe – O Porquinho Atrapalhado”) – até o inglês Malcolm McDowell (“Laranja Mecânica”) ganhou uma pontinha.

Agora, com um caminhão de prêmios e seu nome entre os mais prestigiados do cinema mundial, Hazanavicius fala com convicção sobre a força do silêncio. “As coisas mais importantes entre um casal não são ditas por meio de palavras, mas com os olhos, com as mãos, apenas com a atenção que você presta. Eu queria levar esse sentimento, essa emoção ao filme”, ele refletiu, agora sem ouvir risos irônicos. “Há algo de muito sensual sobre o silêncio, que pode dizer um monte de coisas”.

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Leia também a entrevista com Jean Dujardin:

E confira a crítica:

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

5 Comentários

  • th Identicon Icon th
    13 de fevereiro de 2012 | Permalink | Responder

    pense assim.. o cliente só volta pro restaurante de boa comida! :)) (tipo eu, rs)

  • th Identicon Icon th
    12 de fevereiro de 2012 | Permalink | Responder

    A vigilância sanitária só é chamada quando existem dúvida sobre o trabalho do chef, mas acho que não é o caso. Certo? rsrs

    • Pipoca Moderna Identicon Icon Pipoca Moderna
      12 de fevereiro de 2012 | Permalink | Responder

      A gente se esforça para agradar, mas nem gorjeta!

  • th Identicon Icon th
    10 de fevereiro de 2012 | Permalink | Responder

    nossa, fico impressionado com as coberturas do pessoal do pipocamoderna. como voces fazem? voces entrevistam os diretores? como é? rsrs

    • Pipoca Moderna Identicon Icon Pipoca Moderna
      10 de fevereiro de 2012 | Permalink | Responder

      Caro fiscal sanitário, a nossa cozinha não está de acordo com as suas exigências?

2 Trackbacks

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