David Fincher é um cineasta confiante, que não acredita em “pressão” na hora de filmar. “Talvez eu seja um sociopata”, ele brinca, ao divulgar seu novo filme. “Mas só faço o que acho ser o melhor”. Mesmo que sua decisão seja refilmar um longa lançado há pouco tempo nas telas de todo o mundo, “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, baseado no primeiro livro de uma trilogia escrita por Stieg Larsson (1954-2004) e transformado numa trilogia de sucesso do cinema sueco.
O diretor também não tem medo de repisar terrenos. Ele já havia realizado dois longas-metragens que traziam o elemento da caça a um serial killer (“Zodíaco”, de 2007, e “Seven – Os Sete Crimes Capitais”, de 1995). Então por que repetir o assunto, ainda mais num remake? “Eu não sei, mas acho que não penso nesses termos. E se o fizesse, ficaria incapacitado pelo medo”, respondeu, ao ser questionado pela imprensa norte-americana.
Mas a verdade é que Fincher nem sempre foi tão seguro sobre a trama de “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. O filme que concorre em 5 categorias do Oscar 2012 (fotografia, montagem, edição de som, mixagem de som e atriz coadjuvante, para Rooney Mara), foi rejeitado pelo diretor em 2008, quando a produtora kathleen Kennedy lhe apresentou o material pela primeira vez. “Ela contou a história de uma hacker bissexual que vai a Estocolmo ajudar um jornalista desacreditado a descobrir um segredo sombrio sobre uma família no norte da Suécia. E eu disse: ‘Kat, ninguém vai fazer este filme’”, ele lembra, meio envergonhado.
Meses depois, “Millennium” se tornaria um best seller e sua adaptação cinematográfica sueca viraria uma pequena obra cultuada. “Ela estava certa”, Fincher assume, aos risos.
A oportunidade de filmar a obra de Larsson, no entanto, retornaria às suas mãos enquanto ele dava os ajustes finais em “A Rede Social”. Amy Pascal, poderosa executiva da Sony, convidou o cineasta para um café e disse que havia comprado os direitos dos livros – e a proposta era realizar filmes com a classificação R-rated (na qual menores de idade só podem entrar no cinema acompanhados de adultos). “Ela me disse: ‘Certamente esse material não é para quem tem 11 anos de idade e por isso queremos você’”, revelou. “Eu não precisava de outro filme de serial killer, refletiu, “mas gostei da oportunidade de fazer um filme de franquia para adultos.”
A classificação etária é justificada pela trama densa, que envolve violência contra mulheres – com direito a imagens de agressão e estupro. A crueza das cenas foi mantida e o impacto é semelhante ao provocado pelo polêmico “Irreversível” (2002), de Gaspar Noé. “Eu mostrei a sequência para algumas pessoas e elas ficaram horrorizadas e ofendidas, mas esse é o meu ponto. O estupro nos filmes não deve ser excitante, deve ser ofensivo”, diz o diretor, com firmeza. “Esse é o poder de ‘Laranja Mecânica’ (1971), ele é revoltante. Ele precisa deixar um gosto ruim em sua boca.”
A cena em particular é vivida por Lisbeth, heroína que conquistou milhões de fãs após a trilogia cinematográfica sueca, e rendeu fervorosas especulações sobre quem seria sua intérprete hollywoodiana. “Ela é um daqueles personagens como Jesus Cristo, Drácula e Batman, que todos têm suas próprias opiniões sobre quem deveria interpretá-los”, provocou Fincher. Cogitava-se que o papel era sedentamente desejado por estrelas como Natalie Portman, Scarlett Johansson e Carey Mulligan, já que a personagem catapultou a carreira da então desconhecida Noomi Rapace – após estrelar o original sueco, a atriz ingressou em Hollywood e já fez dois grandes blockbusters: “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” e o ainda inédito “Prometheus”, de Ridley Scott.
O papel da punk com uma habilidade de hackear computadores, que expressa uma aversão às pessoas – homens, principalmente – acabou conquistado pela também quase desconhecida (por pouco tempo) Rooney Mara, que encantou Fincher mesmo com uma pequena participação em “A Rede Social”, em que viveu a namorada de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg).
A atriz de 26 anos fez por merecer e apresentou uma Lisbeth ainda mais interessante, fashion e extremamente carismática, apesar de suas atitudes questionáveis. “A personagem é muito interessante”, ressaltou o diretor, que confessou ter propositalmente aumentado sua presença na tela, em relação a seu espaço na trama literária. O resultado foi uma indicação ao Oscar como Melhor Atriz e algumas marcas pelo corpo, já que Rooney Mara encarou sem dublês a cena do estupro. Apesar de ser tudo ensaiado e controlado, as contusões foram inevitáveis.
Daniel Craig também passou por maus bocados. Há uma cena na qual ele é sufocado com um saco plástico em sua cabeça. Caso o ator sentisse falta de ar, ele deveria apertar um botão de emergência, mas a imersão no papel foi tamanha que Craig acabou desmaiando. Fincher mostrou-se muito feliz por ter conseguido escalá-lo, afinal o jornalista Mikael Blomkvist é, de certa forma, o oposto do outro herói interpretado pelo ator, James Bond. “É preciso ser alguém muito seguro para tirar um sarro de sua outra franquia”, comemorou o diretor.
Para se tornar, de fato, uma franquia, Millennium precisa gerar mais filmes. Fincher não se mostra muito preocupado com a bilheteria atual, que não chegou a estourar, e lembra que o roteiro de Steve Zaillian adiantou alguns elementos do segundo livro, “A Menina que Brincava com Fogo”, permitindo que este primeiro longa seja autossuficiente e até dispense uma sequência. “Há um gancho emocional no final, mas a história está completa”, ele diz, revelando ainda que o roteiro da “parte dois”, novamente escrito por Zaillian, já está pronto.
Caso a produção seja aprovada, e Fincher aceite continuar na franquia, ele pretende filmar o segundo e o terceiro volumes de uma só vez, também na Suécia. “Não seria prudente passar um ano lá, voltar aos EUA, lançar o filme, retornar à Suécia, filmar de novo por mais um ano, voltar… Não acho que Rooney iria querer viver como Lisbeth Salander por quatro anos consecutivos”, explicou.



































