Assim como os Coen, o Danny Boyle pós-Oscar ganhou cadeira cativa na Academia. Só isso para explicar a presença deste “127 Horas” entre os 10 indicados a melhor filme deste ano. O filme é bom, sim, mas na filmografia do diretor não pega vaga nem num top 5.
Entre os filmes de jovens destemidos e desgarrados da sociedade em confronto com a natureza, ele perde feio para o existencialista, poético e cult “Na Natureza Selvagem” (2007), permanecendo mais na linha de filmes claustrofóbicos sobre pessoas presas em ambientes hostis (“Enterrado Vivo”, “Pânico na Neve” e similares).
“127 Horas” narra a aflitiva história verídica de Aron Ralston (James Franco), jovem aventureiro solitário, adepto de esportes radicais e que conhece os canyons como a palma da sua mão. Após um acidente besta, ele fica preso em uma vala com uma rocha sobre o braço direito. E é nesse buraco no meio do nada que ele vai passar as tais 127 horas pensando em como sair, repensando sua vida.
Como fazer um filme de uma hora e meia com um cara preso em um buraco? Danny Boyle e seu fiel escudeiro, o co-roteirista Simon Beaufoy, alternam flashbacks, alucinações e sonhos para dar mais consistência ao caldo. Literalmente, Aron vê a vida passar diante de seus olhos. Aqueles breves momentos que marcam uma existência, a família, a garota amada, você sabe. No mais, o filme se beneficia da câmera que o personagem carrega consigo, o que proporciona a James Franco um grande monólogo no qual ele se sai muito bem. Enquanto isso, a ótima trilha de A.R. Rahman praticamente assume o papel de coadjuvante.
Ao contrário de seu co-irmão “Na Natureza Selvagem”, “127 Horas” não é exatamente um filme anti-sociedade. Logotipos de marcas famosas abrem o filme e representam o universo urbano do qual o personagem foge nos finais de semana. Por outro lado, uma garrafa de Gatorade ironicamente aparece em um momento estratégico, no melhor merchandising descarado desde a bola Wilson do “Náufrago”. Na mesa de bar depois da sessão, proponha um debate sobre o poder do capitalismo contra as forças da natureza e passe 127 horas discutindo qual a real intenção do cineasta.
“127 Horas” deve afetar quem sofre de claustrofobia, mas as tais cenas que poderiam fazer pessoas passarem mal nos cinemas não são tão fortes assim. Nelas, Boyle, como sempre, capricha na edição (de imagem e de som) pra dar mais tensão sem necessariamente mostrar imagens chocantes. E ainda compensa qualquer mal estar com muitas belas imagens, montagens artísticas na tela dividida, paisagens de cair o queixo, simbolismos e as cores vibrantes que ele trouxe de “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008), para no final das contas transformar uma tragédia particular em uma produção, que, no fundo, é mais um feel good movie.
127 Horas
(127 Hours, EUA, 2010)
Lançamento em DVD e Blu-ray





































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