Explorar os recônditos do sonho e do inconsciente na arte não é uma novidade. Surrealismo foi vanguarda na década de 1920 e se baseava justamente nessa premissa. O que pouca gente lembra é que o uso da (falta de) lógica onírica para a construção de imagens e narrativas tinha um objetivo político: contestar a causalidade sistemática que, para os surrealistas, constituíam uma realidade imposta pela burguesia. E quem gosta de Buñuel, cineasta surrealista por excelência, deve ter notado isso em seus filmes, especialmente no excelente “O Discreto Charme da Burguesia” (1972).
Quase cem anos depois do movimento surrealista original, Cronenberg ressucita essa verve no tenebroso “Cosmopolis”, recém chegado aos cinemas brasileiros. Exceto que, aqui, o sonho parece dar lugar ao pesadelo.
O filme acompanha um dia na vida de Eric Packer (Robert Pattinson), um empresário/investidor de Nova York que decide, em meio a uma crise de protestos nas ruas, cortar o cabelo num salão do outro lado da cidade. No caminho, Packer encontra uma série de figuras arquetípicas. Personagens interessantes, que dizem mais sobre seu interlocutor do que sobre si mesmos. A natureza desses encontros, como o sonho, é episódica e propositalmente contrária a uma composição de roteiro que exija relações de causa e consequência.
Depois de uma direção quase “invisível” em “Um Método Perigoso” (2011), onde Cronenberg diminuía sua presença para deixar transparecer a história (tal como um psicanalista), aqui o diretor retoma seu ar introspectivo, quase dark, dos tempos de “Videodrome” (1983) e, por afinidade temática, “Crash” (2004). A claustrofobia imposta pela câmera, que passa metade do filme dentro de uma limusine num trânsito de engarramento eterno, não se perde nos ambientes externos ao carro, graças às grades, vidros, balcões, sofás esfarrapados.
Nada disso é por acaso. Sequer a escolha de Pattinson como protagonista. Num filme que se propõe a contestar os valores capitalistas e o rumo a que esse sistema estaria conduzindo o mundo, dar ao protagonista da “Saga Crepúsculo” o papel principal é de uma esperteza ímpar. A ponto de inserir o próprio fazer cinematográfico no escopo do que se questiona. E independente do que se pense sobre a performance de Pattinson, um fato é incontestável: o cara na tela, representante máximo do sistema criticado, é um idiota. As consequências disso, como se pode imaginar, são deliciosamente irônicas.
Os outros personagens, representados por gente como Juliette Binoche (“Cópia Fiel”), Mathieu Amalric (“O Escafandro e a Borboleta”) e Paul Giamatti (“Tudo pelo Poder”) e companhia, compõe uma sucessão de situações que questionam desde a entrada da tal “Geração Y” no mundo corporativo (e seu impacto na selva do mercado financeiro) até o papel do amor neste ambiente.
Como num sonho, nenhuma situação jamais é levada a cabo: sempre somos levados a crer que entendemos algo ou que algo está perto do fim, apenas para que o tapete seja puxado e um novo episódio se desenrole dali pra frente. Nesse sentido, é especialmente interessante notar como Packer transa com diversas mulheres, menos com aquela que, teoricamente, é sua namorada – e com quem a conversa nunca termina (o falo versus a fala).
Do desejo mimado e fútil de cortar o cabelo numa situação praticamente impossível, nasce uma antitrama (apenas pra citar Robert McKee, estudioso de roteiros) que ganha nuances afetivas, políticas, humanas e, em determinados momentos, quase apocalípticas. E Cronenberg triunfa ao deixar nas mãos do espectador uma indigesta bomba-relógio, cujo tic-tac continua muito depois do filme terminar.
Cosmópolis
(Cosmopolis, Canadá, 2012)



































3 Comentários
Você quis dizer ROBERT Mckee? ;)
preciso dizer que a crítica foi bem construída? haha
verei o filme.. com certeza! :D
parabéns.
Eis uma critica criativa e inteligente!!!!! Nao rasgou elogios, e respeitou aqueles q como eu, amaram o filme, e o acharam inteligente e bem dirigido!!! Sao de criticos assim q precisamos, q nao precisam destruir para se afirmarem como bons observadores e criveis nas suas opinioes!!! Pronto, virei sua fa!!!! Crona e realmente danado de bom!!!!!