Em 1945, quando o Japão capitulou diante das potências ocidentais e assumiu a derrota na 2ª Guerra Mundial, um grupo de imigrantes que havia se instalado no Brasil, sem acesso a informações do exterior devido a um embargo do governo local, não acreditou que isso tivesse realmente acontecido. Como podia, em milênios de história marcados por vitórias em todos os conflitos nos quais entraram, os nipônicos terem se entregado ao inimigo?
Dessa descrença, teria nascido a Shindo Renmei (Liga do Caminho dos Súditos, traduzido ao português), organização de “vitoristas”, cujo objetivo era eliminar qualquer japonês “derrotista” que desonrasse o imperador ao acreditar na queda do Japão. Segundo relatos, 23 imigrantes japoneses foram assassinados no Brasil entre 1946 e 1947, devido ao desentendimento entre quem ganhara a guerra.
Da investigação de acontecimentos desse período, tão pouco conhecidos e divulgados, nasceu o livro “Corações Sujos” (2000), escrito por Fernando Morais e levado aos cinemas por Vicente Amorim. A superprodução de R$ 7,5 milhões teve sua première no ano passado, abrindo a 4ª edição do Festival Paulínia de Cinema, e só agora chega aos circuito de cinema comercial.
Na tela, o relato jornalístico e profundamente detalhado de Morais se transformou num dramalhão de enredo mais recortado, focando num personagem central (Takahashi, vivido pelo ator japonês Tsuyoshi Ihara, de “Cartas de Iwo Jima”), jovem fotógrafo feliz e bem casado que é recrutado para matar “traidores” em nome de sua nação.
Intercalando diversas outras figuras locais, com ênfase na briga entre “derrotistas” e “vitoristas”, e na repressão sofrida pelos japoneses por parte do governo brasileiro – que, naquele período, proibia quaisquer manifestações de nacionalismo por parte de imigrantes dos países do Eixo (Japão, Itália e Alemanha) – , Amorim mistura um clima de “thriller” de suspense à caminhada trágica e frustrada de Takahashi dentro de suas próprias crenças.
É um trajeto bastante similar ao que o mesmo Amorim narrou em “Um Homem Bom” (2008), seu filme anterior. A coprodução entre Alemanha e Inglaterra mostrava o envolvimento de um professor universitário (Viggo Mortensen) com a sedução perpetrada pelos nazistas para acolhê-lo – e logo ele percebia que estava envolvido em algo bem maior do que apenas um partido político.
“Pode parecer simplista, mas me interessa essa questão da luta entre o bem e o mal dentro de um mesmo indivíduo”, disse Vicente Amorim, em conversa com os jornalistas em Paulínia. Ele revelou, inclusive, que fazer “Um Homem Bom” lhe serviu de preparação para a experiência de filmar “Corações Sujos”. “Compramos os direitos do livro do Fernando (Morais) em 2003 e, enquanto ainda estudávamos como realizar o filme, apareceu o projeto de ‘Um Homem Bom’”, explicou. “Aceitei o outro projeto justamente porque o enredo lidava com aquilo que eu estava tentando encontrar para ‘Corações Sujos’”.
Se o livro de Morais é uma grande reportagem sobre a Shindo Renmei, o filme cria uma trama fictícia a partir do relato jornalístico e a ambienta no universo relatado pelo autor. “Não quisemos fazer um filme sobre a Shindo Renmei, mas narrar a trajetória de um homem dentro de uma situação que dizia respeito a toda a comunidade na qual ele vivia”, comentou Amorim.
A desvinculação do filme à ideia de que a Shindo Renmei era um grupo supostamente articulado está ainda mais evidenciada devido à omissão do próprio nome da facção, nunca citado durante a projeção. “Existem dúvidas se a Shindo Renmei realmente foi responsável por todas aquelas mortes”, frisa Amorim. “Inclusive, existe um livro no Japão que gasta cinco capítulos só para desconstruir o relato do Fernando Morais”.
O roteirista David França Mendes reforça as intenções da produção: “A gente temia dar um falso ar de filme de gângster, quando queríamos, de fato, falar da tragédia de um personagem”.
Também em Paulínia, o autor de “Corações Sujos” mostrou-se profundamente satisfeito com o resultado do filme. Ao lado de Vicente Amorim durante coletiva de imprensa, o mineiro Fernando Morais disse ter gostado especialmente da inserção de uma mulher na trama principal.
No livro, não há menção às figuras femininas que transitavam na guerra civil que tomou conta das comunidades japonesas da época. Segundo o roteirista David França Mendes, mostrar o olhar da esposa de Takahashi (interpretada por Takako Tokiwa) foi uma escolha surgida a partir de pesquisas feitas para além do relato de Morais. Em sua própria pesquisa, ele conheceu senhoras japonesas que, quando crianças, viram os pais serem assassinados por “vitoristas”.

































