Corações Sujos dramatiza capítulo sangrento da imigração japonesa

Como os outros livros de Fernando Morais, além da trama básica e essencial da narrativa, “Corações Sujos” traz uma imensa carga de informações históricas que aprofundam ao máximo o relato do que acontece. Elaborar um espetáculo de cinema com 90 minutos a partir dessa complexa galáxia factual era o desafio do diretor Vicente Amorim (“Um Homem Bom”).

No final da 2ª Guerra, muitos dos imigrantes japoneses no Brasil não acreditaram que seu país tivesse sido derrotado. A barreira da língua os mantinha afastados dos meios de comunicação e dos demais cidadãos, permitindo que desenvolvessem uma atitude hostil em relação aos patrícios que se adequavam à realidade. Muitas vidas foram destruídas e alguns integrantes do movimento se aproveitaram da situação.

A maneira como o diretor nos insere nesse torvelinho é exemplar e algumas passagens, como as execuções dos supostos traidores, são recriadas com intensa dramaticidade, contrastando com a delicadeza dos gestos mais comuns da vida cotidiana dos imigrantes. Mais preocupado com a construção de imagens do que com a explicação dos acontecimentos, Amorim evita localizá-los nesta ou naquela cidade, mas chega a reconstituir uma colônia nipônica de São Paulo e uma locomotiva da época numa estação do interior do estado.

Boa parte dos intérpretes são profissionais consagrados no Japão, como Tsuyoshi Ihara que faz o papel do fotógrafo, um dos protagonistas em “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood. Curiosamente, o filme fez muito sucesso no Japão, mesmo com cenas em que o sangue dos assassinados remete à própria bandeira do país.

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Corações Sujos

Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2011)

 ★★★☆☆ 

+ Luciano Ramos

Luciano Ramos é escritor, crítico de cinema e professor dos cursos de pós-graduação da FAAP. Escreveu as minisséries "Avenida Paulista" e "Moinhos de Vento", além da novela "Champanhe" da Rede Globo, dirigiu o Departamento de cinema da Rede Bandeirantes, editou o “Guia de Filmes e Vídeo" da Editora Nova Cultural, é autor do livro “Os Melhores Filmes Novos” (Editora Contexto, 2009) e apresenta o programa Cinema Falado na Rádio USP.

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