Como os outros livros de Fernando Morais, além da trama básica e essencial da narrativa, “Corações Sujos” traz uma imensa carga de informações históricas que aprofundam ao máximo o relato do que acontece. Elaborar um espetáculo de cinema com 90 minutos a partir dessa complexa galáxia factual era o desafio do diretor Vicente Amorim (“Um Homem Bom”).
No final da 2ª Guerra, muitos dos imigrantes japoneses no Brasil não acreditaram que seu país tivesse sido derrotado. A barreira da língua os mantinha afastados dos meios de comunicação e dos demais cidadãos, permitindo que desenvolvessem uma atitude hostil em relação aos patrícios que se adequavam à realidade. Muitas vidas foram destruídas e alguns integrantes do movimento se aproveitaram da situação.
A maneira como o diretor nos insere nesse torvelinho é exemplar e algumas passagens, como as execuções dos supostos traidores, são recriadas com intensa dramaticidade, contrastando com a delicadeza dos gestos mais comuns da vida cotidiana dos imigrantes. Mais preocupado com a construção de imagens do que com a explicação dos acontecimentos, Amorim evita localizá-los nesta ou naquela cidade, mas chega a reconstituir uma colônia nipônica de São Paulo e uma locomotiva da época numa estação do interior do estado.
Boa parte dos intérpretes são profissionais consagrados no Japão, como Tsuyoshi Ihara que faz o papel do fotógrafo, um dos protagonistas em “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood. Curiosamente, o filme fez muito sucesso no Japão, mesmo com cenas em que o sangue dos assassinados remete à própria bandeira do país.
Corações Sujos
(Brasil, 2011)
































