Cópia Fiel filma um único diálogo e o projeta por 1h40

Permanece em cartaz “Cópia Fiel”, um filme que foi avaliado com 4 e 5 estrelas por alguns jornais de grande circulação. Com todo o respeito pela opinião dos colegas, alerto os leitores para determinadas características deste trabalho do iraniano Abbas Kiarostami (“Através das Oliveiras”) estrelado por Juliette Binoche (“A Liberdade É Azul”).

Graças ao filme, a atriz foi merecidamente premiada no Festival Cannes no ano passado, provavelmente por seu sobrehumano esforço para atribuir vida a uma figura irrevogavelmente literária. Mas o que foi ótimo para a atriz, não é para o espectador que precisa suportar uma 1h40 desse palavrório sem o menor interesse para qualquer pessoa, além da dupla posicionada diante da câmara. Ou seja, um efeito bem diferente do que Ingmar Bergman brilhantemente obteve em 1973 com “Cenas de um Casamento”.

O projeto parece uma espécie de confraria internacional de artistas reunida em torno de Kiarostami, em função de sua importância política, que cresceu muito após a condenação de Jafar Panahi (“Fora doJogo”) pelo regime do Irã. Mas apesar de a ficha técnica enumerar nove personagens, eles são meros figurantes – ironicamente, o exímio roteirista Jean-Claude Carriére é um deles – , porque o roteiro se resume a um único diálogo – interminável – entre Juliette e o coadjuvante, interpretado pelo barítono inglês William Shimell.

A quantidade de atores em cena não é critério para dimensionar a qualidade de uma peça dramática. No entanto, o texto foi construído para um filme em que as divagações filosóficas se misturam penosamente com frases banais e confissões íntimas. Não há intensificação dramática e as falas se sucedem meio que trafegando em círculos, à espera da surpresa final.

Esse diálogo é filmado num trajeto entre duas cidades na Toscana, mas poderia perfeitamente acontecer num único cômodo, que o significado permaneceria inalterado: uma tediosa discussão acerca da frase “uma boa cópia pode ser melhor que o original”.

O principal tema desse bate-papo é a já superada questão estética da dicotomia cópia versus original que, aliás, já foi abordada muito mais profundamente em 1989 por Wim Wenders na abertura de “A Identidade e Nós mesmos”. Juliete viaja quilômetros para mostrar a William a reprodução de uma pintura renascentista exposta num museu. Bastaria, porém, mostrar-lhe uma cópia Xerox dessa imitação.

Ou seja, a gracinha final que remete ao universo de Eugene Ionesco e à comicidade de “A Cantora Careca” apenas amplifica a inutilidade do esforço cinematográfico de colocar o casal em movimento físico, provando que chegaria aos mesmos resultados, se os dois personagens ficassem sentados num banquinho, em frente a um fundo neutro. Mas nesse caso não haveria filme, e nem premiação no Festival de Cannes.

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Cópia Fiel

Imagem de Amostra do You Tube
(Copie Conforme, França/Itália/Irã, 2011)

 ★☆☆☆☆ 

+ Luciano Ramos

Luciano Ramos é escritor, crítico de cinema e professor dos cursos de pós-graduação da FAAP. Escreveu as minisséries "Avenida Paulista" e "Moinhos de Vento", além da novela "Champanhe" da Rede Globo, dirigiu o Departamento de cinema da Rede Bandeirantes, editou o “Guia de Filmes e Vídeo" da Editora Nova Cultural, é autor do livro “Os Melhores Filmes Novos” (Editora Contexto, 2009) e apresenta o programa Cinema Falado na Rádio USP.

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