Embarque com o elenco a bordo de Prometheus

Faltando cinco minutos para Charlize Theron entrar em cena num momento dramático, Michael Fassbender abre seu notebook com um vídeo engraçado e diz: “Olha isso aqui!” A atriz morre de rir, mas então cai a ficha: “Mas que droga, eu tenho uma cena agora, seu babaca!”

Pode até parecer os bastidores de uma comédia, mas foi assim durante todas as filmagens de “Prometheus”, que marca o retorno de Ridley Scott à ficção-científica 30 anos após “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (1982). O projeto, na verdade, vai além: “Prometheus” é uma espécie de prólogo de “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), outra cultuada obra do consagrado cineasta e que também se tornou referência tanto em sci-fi quanto no horror.

Havia motivos suficientes, portanto, para que o elenco suasse frio, mas não foi o que aconteceu com os três principais atores do longa: Charlize Theron, Michael Fassbender e Noomi Rapace. Cada um encontra-se num momento diferente de sua carreira, porém todos estão em ótimas fases.

Charlize não sofreu da “maldição do Oscar” e manteve a carreira regularmente boa após “Monster – Desejo Assassino” (2003); Fassbender simplesmente parece não errar nas escolhas profissionais e vem emendando grandes filmes tanto comercial quanto artisticamente; e Noomi prepara sua invasão à Hollywood após ganhar o mundo como Lisbeth Salander em “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” (2009).

Na verdade, a sueca é quem mais poderia sentir a pressão do blockbuster, afinal de certa forma ficou sobre seus ombros a responsabilidade de preencher o espaço criado por Sigourney Weaver no filme de 1979. Em “Prometheus”, Elizabeth Shaw (Noomi) é uma cientista, não uma militar, que chega na lua LV-223 um ano antes do nascimento da icônica Tentente Ripley, mas será sob o seu ponto de vista que o espectador acompanhará a história.

“Há uma semelhança entre elas”, concordou a atriz durante entrevista coletiva realizada em Londres. Noomi afirmou que a comparação seria inevitável, por isso preferiu inspirar-se, em vez de ignorar o assunto. E na hora do treinamento físico, meses antes da filmagem, exigiu de seu preparador um condicionamento exaustivo, mas completo. “Eu queria que meu corpo ficasse parecido com o de um gato, no sentido de me tornar capaz de fazer o necessário para sobreviver”, ela explicou, animada.

A teoria era simples: muito provavelmente sua personagem, a cientista Elizabeth, precisaria ser aprovada em centenas de testes físicos para poder participar da missão Prometheus e Noomi queria deixar na tela que ela realmente estava preparada. Até porque a tenente Ellen Ripley do filme original enfrentava o Alien praticamente no mano a mano e sobrevivia, e a atriz sabia que os fãs da franquia esperavam um desempenho no mínimo à altura. “Me lembro que assisti a ‘Alien’ pela primeira vez quando tinha 13 anos e, pela primeira vez, vi uma mulher lutar daquele jeito, sem poses, nem tentando ser sexy ou parecer bonita. Era apenas um ser humano levado ao extremo, num ambiente agressivo”, contou.

Noomi sabia, no entanto, que seu maior desafio não era físico: embora trabalhe como atriz desde os 16, a sueca de 32 anos só ganhou fama mundial em 2009, com o sucesso da trilogia cinematográfica “Millennium”, que adaptou os livros de Stieg Larsson. E nessa época o inglês de Noomi não era lá essas coisas, a ponto de deixá-la constrangida durante as entrevistas.

Quando “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” estreou, seu desempenho como Lisbeth chamou tanto a atenção que os produtores se viram obrigados a organizar uma entrevista coletiva para atender à imprensa do mundo todo, interessada em conhecer a atriz. “Foi um pesadelo, porque eu não conseguia me expressar”, ela se lembra, agora aos risos.

Pouco depois disso, o próprio Ridley Scott foi conversar com a atriz, provavelmente já fazendo uma sondagem para sua produção, e deu a dica à sueca: “Trabalhe seu sotaque, porque você é capaz de fazer qualquer papel, ser quem quiser e ninguém vai conseguir te parar, mas para isso você precisa dominar completamente o inglês”.

Noomi levou a orientação muito a sério e seu primeiro teste de fogo foi em “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” (2011), sua estreia em Hollywood. Ela ficou apavorada, afinal iria contracenar com Robert Downey Jr. (“Homem de Ferro”), conhecido por improvisar e inventar novos diálogos no meio das filmagens. “Tinha medo de não conseguir acompanhá-lo e ter de dizer: ‘Ei, espere aí, isso não está no roteiro. Robert, você poderia por favor voltar para as suas falas originais?’”, ela brincou. Agora, morando em Los Angeles, seu inglês está muito mais afiado.

Além de Noomi, “Prometheus” tem outra personagem feminina forte, Meredith Vickers, interpretada por Charlize Theron, e isso fica claro já na primeira cena em que ela aparece: enquanto todos os outros tripulantes passam mal e vomitam ao acordar após dormirem por dois anos, Meredith está fazendo flexões.

“Ela tem essa fome pelo poder, ela tem uma necessidade constante de querer estar no controle o tempo todo”, tentou definir a atriz sul-africana com a menor quantidade de palavras possível, pois os propósitos e intenções de Meredith precisam ser descobertos pelo público ao longo da projeção.

Charlize não considera a personagem uma heroína, nem uma vilã, mas definitivamente não se inspirou na Ripley de Sigourney Weaver durante a preparação. Sua referência foi a advogada fria de “Conduta de Risco” (2007), papel que rendeu um Oscar a Tilda Swinton. “Ela não fala nada no início do filme, quando você a vê pela primeira vez, e muito é dito ali sem qualquer palavra”, elogiou.

Grande parte de “Prometheus” foi filmado no principal set de Pinewood, um dos maiores da Inglaterra, e a grandiosidade dos cenários provocou êxtase nas duas atrizes. “Eu me senti como uma criança entrando em Nárnia”, definiu Noomi. A quantidade de cenários realmente construídos, já que o filme utiliza apenas como último recurso a tela verde do cromaqui, também impressionou Charlize. “Eu disse: ‘Ridley, agora você realmente cruzou a linha’”.

Todo o veículo espacial que dá nome ao filme foi fabricado, assim como a maior parte do ambiente onde os personagens encontram o Space Jockey, que carregava os ovos dos aliens no longa de 1979. E os atores sempre preferem interagir e realmente olhar para os cenários de verdade do que ter que imaginar algo que não está lá. “Isso ajuda muito e valoriza as performances, tornando o filme melhor”, comentou a sul-americana. “Nosso trabalho como atores não teria sido o mesmo se tivéssemos que interpretar diante de telas verdes ao nosso redor”.

Charlize ainda brincou com a situação. “Foi incrível porque eu também pude massagear meu ego. Eu caminhava dizendo ‘Minha nave, minha nave’”. A atriz não escondia a felicidade, afinal a fase é boa: ela está em cartaz no mundo todo com dois blockbusters ao mesmo tempo: além de “Prometheus”, também estrela “Branca de Neve e o Caçador”, onde rouba a cena de Kristen Stewart (“Crepúsculo”) como a vilã do clássico conto de fadas.

E o clima de bom humor nas entrevistas só reflete o ambiente das gravações. “Nós somos um bando de crianças que nunca cresceram, e estávamos brincando numa nave espacial. Como não gostar disso?”, ela questionou. Um dos maiores responsáveis pelas brincadeiras no set era Michael Fassbender, nome em plena ascensão em Hollywood.

Desde 2006, com um papel em “300”, o alemão vem caminhando calmamente para o estrelato, escolhendo produções e entregando performances cada vez mais fortes. De lá para cá, ele passou por “Bastardos Inglórios” (2009), surpreendeu como Magneto em “X-Men: Primeira Classe” (2011), brincou de Carl Jung em “Um Método Perigoso” (2011), despiu-se completamente em “Shame” (2011) e bateu muito (e apanhou ainda mais) em “A Toda Prova” (2011).

Trata-se de uma lista invejável de projetos sob o comando de nomes como Quentin Tarantino, David Cronenberg e Steven Soderbergh – além de Ridley Scott, agora –, cineastas que fazem estrelas do time A de Hollywood sair aos tapas para conseguir um papel. “Tem sido uma loucura, né?”, Fassbender diz, sem esconder o enorme sorriso. “Tenho trabalhado com os melhores, é o auge absoluto do sonho, desde que comecei. Eu só queria trabalhar e agora percebo o quão sortudo eu sou, a ponto de me beliscar para me certificar”, contou.

Em “Prometheus”, Fassbender interpreta um androide, figura frequente na série “Alien”. Mas, diferente dos outros filmes, desde o começo fica claro que David é um ser artificial, motivo pelo qual o alemão optou por não assistir aos filmes anteriores para basear-se nas performances de Ian Holm (“Alien”) ou Lance Henrikson (“Aliens”).

No entanto, Fassbender escolheu outro clássico da ficção-científica e de Ridley Scott. “Sean Young interpreta uma replicante em ‘Blade Runner’ e há uma leve tristeza lá, um anseio por algo, talvez um tipo de alma”, sugeriu o ator. De fato, David demonstra uma série de sentimentos humanos, como inveja, sarcasmo e até vaidade – ele tenta manter o visual de Peter O’Toole em “Lawrence da Arábia” (1962), filme que adora. “Eu queria fazê-lo muito robótico externamente, mas cheio de traços humanos e personalidade internamente”, explicou.

O alemão também sugeriu a ideia de que David, muitas vezes, finge ser mais robótico do que realmente é, o que aumentaria a dúvida dos espectadores sobre suas reais intenções. “Ele é um grande ponto de interrogação”, instigou o ator, claramente apaixonado pelo personagem. “David é como uma criança, descobrindo coisas novas o tempo todo, processando informações o tempo todo.”

De certa forma, é o que Fassbender também está fazendo com sua vida, afinal ele aproveitou toda a experiência vivida nos últimos seis anos em Hollywood e está montando sua própria produtora e atraindo roteiros ignorados pelos grandes estúdios. Sua ideia é continuar arriscando-se como ator e alternar grandes vendedores de pipoca como “X-Men: Primeira Classe” com trabalhos mais ousados como “Shame”. Mas sem tanto planejamento, ele avisa. “Eu sempre quis tocar numa banda de rock, então não tento planejar muito à frente, para ser honesto, porque parece que não funciona de qualquer jeito”, brincou, sobre a “decepção” de não realizar seu sonho adolescente.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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