Por mais de 20 anos, o cineasta alemão Wim Wenders tentou realizar com a colega conterrânea Pina Bausch um filme sobre sua inovadora técnica de dança. Pina ficou conhecida por desenvolver um estilo visceral de dança, no qual o sentimento do bailarino era mais importante do que a estética de seus movimentos. Mas Wenders não conseguia encontrar uma técnica ou linguagem cinematográfica que fizesse jus à dança de Pina e, a cada ano, ele se desculpava e pedia mais um tempo à amiga. Até que em 2007 o cineasta assistiu ao documentário musical “U2 3D” e aquela lâmpada imaginária se acendeu em sua cabeça.
“Agora eu sei como!”, Wenders disse à colega ao telefone. “Avatar” de James Cameron ainda era um projeto em desenvolvimento e a tecnologia 3D não havia se tornado a nova boia de salvação de Hollywood. Mas o cineasta alemão sabia que tinha encontrado o recurso que faria o público sentir toda a profundidade daquela arte. “De uma forma estranha, a dança de Pina e o 3D foram feitos um para o outro desde o início”, comentou Wenders.
Os dois então começaram a elaborar o conceito do filme, que deveria ter duas regras básicas: sem dados biográficos – Pina queria que o longa fosse sobre seu trabalho, desenvolvido na companhia Tanztheater Wuppertal, não sobre sua pessoa –, e sem entrevistas – nada de cabeças falantes na tela. O documentário não teria uma linguagem convencional: a coreógrafa faria perguntas aos seus bailarinos e eles responderiam por meio de danças.
Mas em 2009, quando quatro peças já haviam sido filmadas, um imprevisto mudou tudo: aos 68, Pina foi diagnosticada com câncer e morreu cinco dias depois. Imediatamente Wenders ligou para a equipe e para os financiadores e abortou o projeto, que foi todo pensado com a dançarina. “Tínhamos um conceito que de uma hora para outra não poderia mais ser desenvolvido. Não sabíamos o que fazer para preencher esse enorme vácuo que ela deixou”, lamentou o diretor durante entrevista coletiva no Festival de Berlim de 2011.
Para Wenders, o filme estava cancelado, mas os bailarinos da equipe Tanztheater sugeriram ao cineasta que ele continuasse o projeto. Então o alemão encontrou uma saída: se ele não poderia fazer um filme com Pina, ele faria um filme para ela. “Percebi que nenhum de seus dançarinos pôde se despedir de Pina, nem mesmo eu, que fui muito próximo dela. Não fomos capazes de expressar nossa gratidão e ficou apenas esse grande buraco em nossas vidas. Fazer o filme seria nossa homenagem a essa grande artista”, explicou.
A solução encontrada pelo cineasta foi adotar a tarefa de Philippine (nome verdadeiro de Pina) e fazer perguntas aos dançarinos, para que estes respondessem por meio de movimentos corporais. Porém, quando estava na sala de edição, com as filmagens acabadas, ele percebeu que seria necessário furar as duas regras principais. Com o filme pré-montado, Wenders notou que o público sentiria falta de informações sobre a relação entre Pina e sua equipe – alguns integravam o time há 30 anos. O diretor, então, inseriu durante as cenas falas dos dançarinos, mas garante que o espírito original foi mantido. “Não são entrevistas, estão mais para monólogos interiores, como se você pudesse ouvir seus pensamentos”, explicou o diretor.
A morte de Pina foi apenas um dos obstáculos enfrentados por Wenders. A própria gravação das imagens foi um longo caminho a ser percorrido e, para entendê-lo, é preciso voltar até 1985, quando o diretor assistiu pela primeira vez a um espetáculo da coreógrafa. Assistiu, na verdade, meio a contragosto, forçado por uma namorada, mas ficou encantado com o que viu – tanto que conferiu cinco peças seguidas e conseguiu marcar um café com a estrela. Durante o bate-papo, sugeriu que, em parceria, os dois fizessem um filme sobre o estilo criado por Pina. “Ela não falou muito, só fumava o cigarro e sorria para mim, e eu pensei: ‘Será que ela ainda está me ouvindo?’”, rememorou o cineasta, durante entrevista para a imprensa internacional.
A bailarina ouviu tudo sim e, cada vez que eles se encontravam, ela cobrava de Wenders a realização do longa-metragem. Só havia um problema: ele não tinha a menor ideia de como fazer um filme que contemplasse toda a magia da arte criada pela dançarina.
O cineasta assistiu a diversos longas sobre dança e estudou vários formatos e técnicas de linguagens cinematográficas, seja por meio de diferentes câmeras, gruas, guindastes, steadicam ou qualquer outro recurso – e nunca ficava satisfeito. “Senti que não tinha as ferramentas adequadas e quanto mais eu pensava nisso, menos eu estava convencido de que, como cineasta, eu poderia fazer justiça à arte de Pina.”
O problema, segundo Wenders, era o espaço. Ele não conseguia encontrar a localização correta para pôr a câmera durante os movimentos dos bailarinos. Se fizesse um close-up, o espectador não veria o que acontece em todo o cenário. Se afastasse a câmera, não pegaria as emoções nos rostos. “Acabou virando uma piada entre a gente”, brincou o diretor. Ele disse que, sempre que os dois se encontravam, ela perguntava sobre a viabilidade do filme e ele respondia: “Pina, ainda não descobri como…”
Wenders descobriu a solução por acaso, quando menos esperava. Ele estava em Cannes para se divertir com “U2 3D”, longa-metragem que cobre um show da banda irlandesa por meio de câmeras com captura de imagens tridimensionais. “A partir da primeira cena, eu fiquei hipnotizado”, confessa o diretor. “Eu praticamente não assisti ou ouvi o filme, eu só enxergava as possibilidades. Era a resposta a 20 anos de questionamentos. Pela primeira vez, nós poderíamos entrar no reino da dança”, comemorava Wenders, enquanto Bono Vox cantava.
Para o cineasta, por melhor que seja a obra cinematográfica, de “Cantando na Chuva” (1952) ao mais recente musical, a dança sempre ficava bidimensional nas telas e não provocava imersão no público – um problema que o 3D seria capaz de corrigir. “É uma ferramenta que permite ao público estar com os bailarinos de Pina. Ela permite nadar com os peixes e não apenas olhar do lado de fora do aquário”, comparou.
Ele explicou que a maior característica do trabalho de Pina é a valorização do corpo, uma entonação na fisicalidade do dançarino. E no caso do cinema 3D, o corpo ganha volume. “Todos pensam que a profundidade é o mais importante sobre o 3D, mas para mim é o volume que faz a diferença”.
Wenders encontrou a solução para dúvida que parecia insolúvel, mas ao mesmo tempo descobriu um novo problema: apesar de o 3D não ser exatamente uma novidade (até Alfred Hitchcock utilizou a técnica, no filme “Disque M Para Matar”, de 1954), ainda havia muitos recursos a serem explorados por essa tecnologia. “Avatar”, por exemplo, era só um projeto secreto de James Cameron.
Uma das maiores complicações enfrentadas por Wenders era a questão do movimento: as câmeras 3D da época tinham dificuldade de captar perfeitamente movimentos rápidos e, durante os testes, os dançarinos apareciam com múltiplos braços e pernas no vídeo. Além disso, o maquinário era enorme e pesado, o que limitava sua locomoção nos cenários. Ao mesmo tempo em que o cineasta aprendia a trabalhar com a tecnologia, o 3D explodiu no cenário cinematográfico mainstream e o acesso a novas e melhores câmeras viabilizaram o longa. “Sabíamos as coreografia de cor e, ao longo de um ano, a tecnologia evoluiu tão rapidamente que, no fim das filmagens, conseguíamos entrar na dança”, comemorou.
E para o diretor de obras elogiadas como “Até o Fim do Mundo” (1991), “Asas do Desejo” (1987) e “Paris, Texas” (1984), o 3D é, de fato, uma nova linguagem e revolucionará a indústria. “Nós mal arranhamos a superfície do seu potencial”, disse, fazendo coro a cineastas como o próprio Cameron e Martin Scorsese – que também acaba de ingressar na tridimensionalidade com “A Invenção de Hugo Cabret”. Mas Wenders acredita que o 3D será utilizado com mais eficácia pelos documentários do que pelas ficções. De fato, o gênero começa a explorar a tecnologia também com “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, de seu conterrâneo Werner Herzog.
A experiência tridimensional de Wenders agradou os críticos pelos festivais que passou e vem rendendo frutos: “Pina” concorreu ao prêmio de Melhor Documentário no Oscar 2012. Mas e Pina, teria aprovado o produto final? “Me perguntei isso todos os dias”, comentou o diretor, lembrando que, apesar de ter elaborado todo o projeto em parceria com a amiga, a execução do trabalho foi realizado apenas por ele.
O cineasta explica que, para ter certeza, ele convocou os dançarinos que trabalharam por anos com a coreógrafa para ajudar na montagem do longa e na linguagem adotada. “Foi apenas quando eles realmente apreciaram e afirmaram que o universo de Pina havia sido colocado em um filme que eu senti que ela teria aprovado o resultado”, suspirou aliviado.




































