Lisbeth Salander, a hacker antissocial da trilogia literária “Millennium”, poderia ter sido interpretada por Scarlett Johansson, Kristen Stewart, Natalie Portman, Carey Mulligan, Emma Watson, Mia Wasikowska ou Ellen Page. Todas essas atrizes foram consideradas e testadas para o papel, que é considerado o mais icônico dos últimos tempos e acabou com a pouco conhecida Rooney Mara.
Bonitinha e frágil, e até um pouco nerd, como demonstrou em “A Rede Social”, Rooney era praticamente o oposto da personagem criada por Stieg Larsson (1954-2004) para sua trilogia literária. Tão diferente que o cineasta David Fincher precisou pensar muito e realizar diversos testes para convencer-se de que a garota seria a melhor escolha para interpretar a hacker.
Lisbeth é a grande protagonista dos livros de Larsson, que foram publicados após sua morte e se tornaram best-sellers mundiais, rendendo, inclusive, versões cinematográficas suecas de relativo sucesso. Noomi Rapace estrelou as produções e seu desempenho foi tão elogiado que ela já está em Hollywood (“Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” e “Prometheus”, que estreia esse ano).
“Ela é o punk original”, resumiu o cineasta sobre Lisbeth durante coletiva de imprensa para apresentar o filme, em Los Angeles. “Ela criou uma maneira de ser vista como um lixo, porque ela acha que é assim que o mundo a enxerga. Ela pensa: ‘Eu vou viver assim se isso significar que ninguém vai tirar vantagem de mim’”, refletiu Fincher.
Para dar vida à essa punk de computador, Fincher queria uma atriz menos conhecida que as candidatas famosas ao papel. O produtor Ceán Chaffin, que havia trabalhado com o diretor em “A Rede Social”, sugeriu Rooney. A atriz interpretou a namorada de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) naqueles primeiros minutos cheios de falas rápidas e afiadas. E, de fato, havia impressionado o cineasta naquela oportunidade. “O problema é que ela era intensamente feminina, muito madura, quente, verbal, e nenhuma dessas qualidades se aplicam à Lisbeth. Na verdade, elas são uma antítese.”
Mas Fincher não conseguia negar o talento de Rooney e sempre pedia para ela voltar para mais um teste, enquanto não conseguia se decidir – já a atriz, determinada a fazer parte da produção, ia ganhando cada vez mais confiança. “Depois da primeira audição, me disseram que eu tinha uma boa chance de conseguir esse papel”. Por esse motivo, Rooney não desistiu, mesmo após uma maratona de testes que chegaram a deixar o diretor acanhado.
“Ela era indomável. Houve momentos em que eu estava pessoalmente com vergonha de pedir para ela voltar mais uma vez (para fazer outro teste)”, confessou Fincher. “Eu sabia que David estava lutando por mim”, confessou a atriz, explicando sua persistência.
A garra valeu a pena: depois de dois meses de testes, o diretor a convidou para seu escritório para comunicá-la que ela seria Lisbeth Salander. Antes, porém, ele tratou de fazer um discurso preventivo. “Ele queria me deixar ciente de todas as merdas que viriam junto com o papel, e não apenas as coisas boas. Eu não lembro bem o que ele falou – sabe, foi um grande discurso, eu devia ter gravado”, divertiu-se a atriz.
Com a primeira fase da missão completada, havia chegado a hora do próximo passo: tornar-se Lisbeth. Para a composição da personagem, Rooney raspou parte dos cabelos, descoloriu a sobrancelha, aplicou piercings reais, fez tatuagens removíveis, aprendeu kickboxing e a andar de skate, perdeu peso e recebeu de um especialista uma noção básica de como hackear computadores. Só não fez o mais fácil – aprender a andar de moto, porque ela tem horrores a esse tipo de veículo.
Mas essa lista de exigências cumpria apenas a composição externa de Lisbeth e a atriz precisou mergulhar fundo na alma de sua personagem. E não se tratava de alguém simples, mas uma garota com talentos investigativos incríveis, memória fotográfica e uma habilidade sobre informática invejável, porém que também possui significativos problemas de relacionamento, um passado violento e possivelmente distúrbios mentais. Para entender um pouco melhor Lisbeth, Rooney visitou uma escola para jovens que têm autismo e síndrome de Asperger (cogita-se que a personagem seria portadora do transtorno).
Ela também conheceu um centro de atendimento a vítimas de estupro – no filme, Lisbeth é violentada sexualmente numa cena perturbadora. “Foi um dia cansativo física e emocionalmente”, lembra Rooney, que encarou as filmagens dispensando dublês. “Eu estava preparada para isso, eu sabia que teria que fazer a cena.”
Mas a personagem não sente vergonha ou repulsa ao sexo. Ao contrário. Para o papel, Rooney precisou ficar à vontade com sua própria nudez e a se mostrar desinibida com homens e mulheres, como uma verdadeira bissexual. “Nudez era parte integrante da personagem, então eu nem pensei duas vezes sobre isso”, Rooney observou. “Eu simplesmente tirei as roupas e não me importei”.
Após o sucesso de venda dos livros e da boa carreira que os filmes suecos fizeram, Lisbeth acabou se tornando uma espécie de heroína de alguns movimentos feministas – um dos motivos é porque ela se vinga de seu agressor. “Eu posso entender que as pessoas a escolham como um ícone feminista”, Rooney refletiu, mas, após analisar um pouco mais sua personagem, fez uma correção. “Eu nunca a vi como uma feminista e acho que ela mesma não se caracterizaria como tal. As coisas que ela faz não são em nome de um grupo”, comentou a atriz.
Questionada se ela própria seria uma feminista, Rooney não titubeou: “Eu nem mesmo sei realmente o que isso significa”, respondeu rapidamente. “Acho que sou mais parecida com Lisbeth, nesse sentido. Eu realmente não me sinto parte de qualquer grupo ou algo semelhante.”
Rooney também se parece com sua personagem em relação à negação da própria identidade: seu nome completo é Patricia Rooney Mara. “Na verdade eu nunca gostei muito do meu primeiro nome”, ela disse, arrancando risos. Ela estudou psicologia e relações internacionais na New York University, mas atuar parecia estar em seu sangue – ela é irmã da atriz Kate Mara (“127 Horas”). Porém, Rooney também parecia simular Lisbeth em relação às escolhas erradas e à busca pela invisibilidade: a jovem participou de trabalhos sem muita expressão, como o desconhecido “Um por Todas e Todas por um” (2009), apareceu num episódio da série “E.R.” (2009) e estrelou o execrado remake de “A Hora do Pesadelo” (2010).
E, assim como Lisbeth, foi por meio dos computadores que ela mudou sua sorte. Mais precisamente por meio do Facebook. Com apenas alguns minutinhos no filme sobre a rede social, Ronney chamou atenção de Fincher e do público. Agora ela é uma indicada ao Oscar, deve estrelar mais dois filmes da franquia “Millennium” e fará o drama “Lawless”, dirigido por ninguém menos do que Terrence Malick (“A Árvore da Vida”), no qual contracenará com Ryan Gosling (“Drive”), Christian Bale (“Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”) e Cate Blanchett (“O Senhor dos Anéis”).
A atriz assume que ainda não superou totalmente a personagem. Lisbeth ainda está lá, nas sombras, esperando para emergir nas continuações da franquia.
Além disso, Rooney, que era toda mocinha, agora adora roupas pretas, anda como um moleque e tem um piercing no seio. “Acho que o filme causou um grande efeito sobre mim”, ela admite. “É difícil desligar o botãozinho, após o fim de uma experiência que exige tanto, em termos de foco e dedicação ao papel, e que te transforma tanto – fisicamente, inclusive. Cresci e mudei em muitos sentidos. Hoje, me sinto mais capaz como atriz e como mulher”, ela proclama.






































