“A Primeira Coisa Bela” é um tradução literal que não funciona bem em português. Pode até atrapalhar a carreira comercial do filme de Paolo Virzí. Seria uma pena, porque se trata de uma comédia bem construída e muito agradável de se ver, faz a gente se lembrar dos velhos tempos das comédias italianas, que tanto divertiram. E que sempre tinham algo a dizer. Acrescentavam alguma coisa, com inteligência e apelos eróticos bem calibrados.
O filme de Paolo Virzí se revela um produto que não faz feio diante de seus antecessores.
Aqui vemos Bruno e sua irmã Valéria em diferentes fases de suas vidas, tendo que conviver com Anna, uma mãe belíssima, que esbanja sensualidade e desinibição, atrai o interesse de muitos homens, deixando ciumento e abalado seu marido.
Se a Valéria criança consegue se entusiasmar com o êxito da mãe – já em 1971, em Livorno, eleita “Miss Mamma” – , o mesmo não se dá com Bruno, que acha tudo aquilo muito embaraçoso. Claro, Valéria toma a mãe como um modelo bem sucedido, enquanto Bruno vai se identificar com o pai, traído e mortificado de ciúme.
Enquanto Valéria continuará convivendo com a mãe, Bruno vai se afastar dela, da família e de sua cidade natal, a ponto de perder os fortes laços que o uniam à irmã, na infância. Só quando sua mãe passa a sofrer de uma doença terminal é que voltará a conviver com ela. Mas Anna (vivida nesta fase por Stefania Sandrelli, dos clássicos “Divórcio à Italiana” e “O Conformista”) não perde a exuberância, nem as atitudes arrojadas, porque sua vida está por um fio. Ela continua a mesma. E assim será até o fim. Por que haveria de ser diferente?
Caberá a Bruno ressignificar a figura da mãe e o seu relacionamento com ela, e com os homens que povoaram a vida dela. E também, evidentemente, reencontrar os laços perdidos com a irmã.
Descrito assim, parece um assunto muito sério. E é mesmo. Mas o tom do filme é leve, envolvente, divertido. Se o público conseguir descobri-lo, ou seja, se o filme não for retirado rapidamente das telas dos cinemas, poderia render boa bilheteria e reações de satisfação.
Não se trata de nenhuma obra-prima cinematográfica, por certo. Mas é uma produção caprichada, que tem ideias, é bem humorada e comunicativa com os espectadores, sem exigir deles maiores esforços. Afinal, nem só de filmes-cabeça ou aventuras carregadas de violência e efeitos especiais pode viver o cinema contemporâneo.
A Primeira Coisa Bela
(La Prima Cosa bella, Itália, 2010)


































