“Ondine” é um conto de fadas? Certamente não, porque seu público-alvo não são as crianças, mas nós adultos ? principalmente aqueles com a alma já empedernida pelo cotidiano. E porque a proposta apenas lembra um exemplo atual de tentativa nessa linha, que foi “A Dama na Água” (2006), de M. Night Shyamalan.
Então o filme seria um quebra-cabeça, mais ou menos como aqueles jogos de adivinhação no qual o narrador da história se diverte em enganar os ouvintes? Um pouco sim, porque o diretor Neil Jordan (“Entrevista com o Vampiro”) constrói uma expectativa na mente do espectador, só para desmontá-la nas últimas cenas.
Mas este belo espetáculo não se resume apenas a isso. Com sensibilidade e poder de síntese, ele cria um microcosmo a um só tempo banal e sugestivo, numa remota aldeia de pescadores ao norte da Irlanda.
Que tipo de interesse poderia nos despertar o dia-a-dia de um pescador pobre, triste e solitário? Quem sabe se tropeçasse com algo que ele mesmo chama de incrível e extraordinário, como, por exemplo, uma linda moça que ele arrancasse do fundo do mar e que transformasse radicalmente a sua existência insípida e vazia.
Pois é exatamente isso que acontece com o personagem de Colin Farrell (“Miami Vice”), ao encontrar na rede de seu barco uma desconhecida interpretada pela bela cantora polonesa Alicja Bachleda (“Trade”).
A filhinha do pescador acredita que ela seja uma entidade mítica, como os gnomos e as fadas, tão populares naquele país. Aos poucos os demais personagens o público passam a partilhar dessa crença, embalados pelo clima de sonho que se instala.
Aliás, é comovente o carinho com que o autor trata seus personagens e o ambiente em que se movimentam: especialmente o padre (Stephen Rea, de “Traídos pelo Desejo”) que, para o herói, funciona como psicoterapeuta e que nos proporciona momentos de sutil humorismo.
Em suma, o filme nos oferece uma narrativa irresistivelmente poética, no sentido de que as coisas mais prosaicas e corriqueiras de que são feitas as pequenas vidas dos anônimos podem ser transfiguradas num universo fantástico e repleto de maravilhas, pelo engenho dos artistas que fazem o filme.
No fundo, é precisamente isso que o cinema procura fazer conosco, quando nos rendemos aos seus encantos.
Ondine
(Ondine, Irlanda/EUA, 2010)




































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