Com Ilha do Medo, Scorsese homenageia os filmes B

BERLIM: “Ilha do Medo” começou como uma diversão, segundo o próprio Martin Scorsese. No filme, o diretor resgata memórias cinematográficas de sua infância e revê a obra de seu grande professor, o rei do cinema B americano Roger Corman.

Scorsese adaptou o livro de Dennis Leahane (autor do romance que virou o filme “Sobre Meninos e Lobos”, de Clint Eastwood) numa obra que reverencia a iconografia clássica do suspense e do terror, onde o que se vê, feito a própria imagem de cinema, pode parecer real, mas é a mais pura ilusão.

Uma homenagem aos elementos dos filmes B estão na base de toda a ação: a ilha isolada, os ventos uivantes, o cientista louco, os tiras durões, o hospício lotado de criminosos insanos, longos corredores, celas fétidas, um ex-nazista, o precipício, o furacão iminente… Tudo na ilha em que desembarcam Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo parece gritar: “Vão embora!”

Os detetives Teddy e Chuck, interpretados por DiCaprio e Ruffalo, chegam para desvendar um mistério: o sumiço de uma criminosa psicopata naquele lugar que mais parece uma fortaleza proibida. Na cena em que Vincent Price apareceria para recepcioná-los (se o filme fosse mesmo dos anos 50), surgem Ben Kingsley e Max Von Sydow, administradores daquele instituto transplantado de alguma produção gótica baseada em Edgar Allan Poe.

Estamos em 1954, no auge da Guerra Fria e dos “tratamentos” questionáveis de pacientes psiquiátricos. Assim, o “perigo” comunista e as analogias com as experiências dos campos de concentração nazistas não demoram a aparecer na investigação.

Os detetives têm muitas perguntas, mas não encontram respostas. Ninguém na ilha sabe explicar como alguém desaparece em pleno ar ou simplesmente não quer falar – nem o staff, nem os pacientes. A maioria dos médicos encontra-se, convenientemente, de férias. Registros médicos importantes são mantidos em sigilo. E os policiais, veteranos da 2ª Guerra, não demoram a perceber que algo muito estranho se passa no lugar.

Estranho do tipo que se manifesta em sonhos e visões, especialmente depois que Teddy (DiCaprio) toma uma “aspirina” oferecida pelo médico encarregado. Logo, sua esposa morta (Michelle Williams) num incêndio criminoso também resolve circular pelo lugar. E Scorsese sai das sombras de Corman para a iluminação de Kubrick.

O diretor demonstra controle absoluto de sua técnica, aplicando nos ângulos, cortes e enquadramentos as lições de suspense que aprendeu, não só ao trabalhar para Corman, mas de assistir na juventude aos filmes de Alfred Hitchcock, Mario Bava, Jacques Tourneur e Don Siegel. Quase todos os movimentos de câmera transmitem uma excitação evidente ao invadir cenas de um gênero que ele ainda não tinha filmado. A música, as roupas, o cenário, cada quarto e corredor da fortaleza-prisão surge na tela com a voltagem de um impacto emocional. O virtuosismo flui naturalmente.

Há muitos anos Scorsese não filmava com essa vibração, com a alegria de brincar com o que Orson Welles chamava de “os brinquedos” da criação cinematográfica. Depois de ter ganhado o Oscar de Melhor Diretor por “Os Infiltrados”, que perseguiu por quase toda a carreira, ele consegue filmar sem a pressão de fazer uma obra de arte. Vai na direção oposta mesmo, ao assumir uma narrativa típica de horror B.

Trata-se possivelmente do filme mais comercial do diretor de “Táxi Driver” e “Os Bons Companheiros”. Mas mesmo uma filmagem idílica pode ter problemas de concepção. Se, por um lado, o diretor capricha na atmosfera gótica e na fotografia deslumbrante das sequências de alucinação, por outro, as transições entre o real e o surreal quebram o ritmo da trama. A certa altura, cada sequência parece começar com um sonho ou um trauma do passado.

Isto não tira o brilho do virtuosismo formal, labiríntico, que faz o público correr em círculos, até se deparar de volta ao lugar em que começou a noite, na fila de entrada, pronto para assistir ao filme pela segunda vez. Pois o toque de mestre de Scorsese planta uma ambiguidade avassaladora na trama, que fará muita gente querer rever cada detalhe e sutilezas de interpretação mais de uma vez, sempre com um novo olhar.

Se “Ilha do Medo” é a idéia de diversão de Scorsese, o público não irá se importar se ele decidir brincar um pouco mais antes de voltar a filmar a sério.

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Imagem de Amostra do You Tube

Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)

 ★★★★☆ 

+ Cris Thomas

Chris Thomas é uma cinéfila brasileira em Paris, que canta e dança quando começam os festivais europeus.

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