Claudio Cavalcanti (1940 – 2013)

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Morreu o ator Cláudio Cavalcanti, que estava internado desde o dia 16 no Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro. Ele faleceu devido a complicações cardíacas decorrentes de uma cirurgia na coluna, no domingo (29/9), aos 73 anos de idade.

Ator identificado com a história da TV brasileira, Cavalcanti viveu personagem clássicos da era de ouro da TV Globo, tendo participado de cerca de 50 novelas, minisséries e especiais, além de 22 longas-metragens e dezenas de peças teatrais. Entre seus personagens mais conhecidos estão Jerônimo, de “Irmãos Coragem”, e o Padre Albano, de Roque Santeiro”, duas das telenovelas mais populares já feitas no Brasil. Ele também foi vereador do Rio de Janeiro durante dois mandatos.

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Engraçadinha Depois dos Trinta, com Vera Vianna

Claudio Murilo Cavalcanti nasceu em 24 de fevereiro de 1940 no Rio de Janeiro, filho de um professor e de uma dona de casa. Começou a atuar muito cedo, ainda no Ensino Médio. Fazia teatro amador na escola, em 1956, quando foi convidado por um amigo para participar de um teste no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), que iria montar a peça “Nossa Vida com Papai” e precisava de um ator jovem, na faixa dos 16 anos.

Foi nessa época que começou seu convívio com atores profissionais e desenvolveu amizade com outros jovens que se tornariam referência nacional, como Fernanda Montenegro, Sérgio Britto e Nathalia Timberg.

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Anastácia, a Mulher sem Destino, com Leda Lúcia

Seguindo sua carreira, ele começou a aparecer em diversos filmes nos anos 1960, antes de se estabelecer como galã de novelas: comédias como “Cuidado, Espião Brasileiro em Ação” (1966) e “Nudista à Força” (1966), ambos de Victor Lima, nos dramas “Um Ramo para Luíza” (1965) e “Engraçadinha Depois dos Trinta” (1966), ambos de J.B. Tanko, além do filme criminal “História de um Crápula” (1965), de Jesse Valadão, e o sucesso infantil “Pluft, o Fantasminha” (1966), baseado na peça de Maria Clara Machado.

Em 1965, ele estrelou a primeira série dramática da TV brasileira, “22-2000 Cidade Aberta”, na TV Globo. O título trazia o número de telefone do jornal O Globo. A trama seguia as aventuras de dois repórteres policiais do jornal, o veterano Márcio Moura (vivido por Jardel Filho) e o jovem “foca” (iniciante) Carlinhos (Cavalcanti). Apesar de ter durado só dois anos, a popularidade da produção rendeu até gibi e uma adaptação cinematográfica em 1969, “A um Pulo da Morte”, que reuniu o elenco original.

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Véu de Noiva, com Regina Duarte

Sua primeira participação em telenovela foi ao ar em 1967, em “A Mulher que Amou Demais”, da TV Rio, que tinha Tonia Carrero no papel título. No mesmo ano fez sua primeira novela da Globo, “Anastácia, a Mulher sem Destino”, que ficou conhecida por marcar a estreia de Janete Clair no horário nobre das 20h. Ela foi chamada na reta final para tentar salvar a audiência do folhetim – era, literalmente, uma adaptação de folhetim francês, o que inspirou as primeiras novelas a ganharem este apelido antigo.

Claudio estrelou outras novelas adaptadas por Gloria Magadan, a responsável original por “Anastácia” e diretora do núcleo de dramaturgia da Globo, e até encaixou duas novelas na TV Tupi, antes de se reencontrar com Janete Clair em “Rosa Rebelde” em 1969 e se tornar um dos atores favoritos da escritora.

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Irmãos Coragem, com Tarcísio Meira e Claudio Marzo

“Rosa Rebelde” foi o último folhetim da TV Globo. Graças ao sucesso fenomenal de “Beto Rockefeller” na Tupi, o canal se viu inclinado a abandonar as histórias de capa e espada, castelos e masmorras europeias, em favor de tramas passadas no Brasil contemporâneo.

Cavalcanti fez o último folhetim e também integrou o elenco da primeira novela de temática nacional da Globo, “O Véu de Noiva”, escrita por Clair, que mudou as regras do gênero – trazendo o primeiro “quem matou?” e deixando o final para ser decidido ao vivo, por um juiz de verdade, num julgamento que determinaria quem ficaria com uma criança: a mãe biológica ou a adotiva vivida por Regina Duarte, em sua estreia na emissora. Foi um sucesso de público como a Globo jamais tinha visto e ajudou a transformar o canal em líder de audiência. Foi também a primeira novela a lançar um disco com sua trilha sonora.

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Carinhoso, com Lúcia Alves e Rosamaria Murtinho

Mas para o ator a grande virada veio em sua novela seguinte, outra parceria com Janete Clair. Ele foi um dos protagonistas de “Irmãos Coragem”, uma espécie de western caboclo, situado num campo de garimpo no Centro Oeste brasileiro. A trama acompanhava a saga de três irmãos, João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cavalcanti) e Duda (Claudio Marzo) contra um poderoso coronel. O conflito tem início depois que João encontra um grande diamante, que é cobiçado pelo Coronel Pedro Barros (Gilberto Martinho), o todo-poderoso responsável pelas injustiças da região.

A trama hipnotizou o país. Clair recebeu ordens de esticar a novela e ela se tornou a segunda mais longa da história da Globo, com nada menos que 328 episódios. Entre idas e vindas, João virava fora-de-lei, Duda ia jogar futebol no Rio e Jerônimo entrava na política, para enfrentar o coronel nas urnas – em plena ditadura! O final comoveu o público. Embora tenha trocado beijos com Sônia Braga, Cavalcanti terminava morto numa emboscada, ao lado de seu verdeiro amor, interpretada por Lúcia Alves.

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Quando as Mulheres Paqueram, com Sandra Barsoti

A morte do personagem tornou o ator ainda mais popular, fixando-o como figura cativa na programação da Globo, geralmente em tramas noveleiras estreladas por seus ex-irmãos Coragem ao longo dos anos 1970 e 1980, como “O Homem que Deve Morrer” (1971) e “Carinhoso” (1973), entre muitas outras.

Ele também capitalizou o sucesso nos cinemas, estrelando diversas pornochanchadas. Bastam os títulos para revelar o conteúdo das produções, como a trilogia do diretor Victor di Mello: “Ascensão e Queda de um Paquera” (1970), “Quando as Mulheres Paqueram” (1971) e “O Grande Gozador” (1972). Mas a “obra-prima” foi sua participação na antologia “Contos Eróticos” (1977), no qual aparece realizado ato sexual com uma melancia. A cena marcou época, escandalizou e virou piada recorrente. Mesmo assim, não prejudicou sua carreira.

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Contos Eróticos

No mesmo ano em que transou com uma melancia, Cavalcanti fez sucesso entre outras frutas, verduras e legumes, no elenco de “Dona Xepa” (1977), primeira novela reprisada na faixa do “Vale a Pena Ver de Novo” e que se passava numa feira livre.

Circulando por todos os horários de telenovelas, das 18h às 22h, ele ainda foi visto em produções populares como “Água Viva” (1980), “Roque Santeiro” (1985), “A Rainha da Sucata” (1999) e “A Viagem” (1994). Mas, com o tempo, seus personagens foram se tornando cada vez mais secundários.

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Roque Santeiro

Depois de participar da minissérie “Chiquinha Gonzaga” (1999), Cavalcanti resolveu mudar de ares. Estrelou a novela “Marcas da Paixão” (2000) da TV Record em papel de destaque, como o juiz Djalma Barreto, que tenta descobrir o que aconteceu com seu filho Ivan (Eriberto Leão), dado como morto, e que ainda precisa administrar o testamento de um amigo fazendeiro emboscado pelos mesmos homens que espancaram Ivan.

A atração se provou uma das maiores audiências da Record e inspirou uma repetição da parceria no ano seguinte, quando o ator participou de “Roda da Vida” (2001). Mas após o papel do Professor Vidal, veio a primeira grande interrupção de sua carreira. Ao ingressar na política, Cavalcanti deixou um buraco na programação televisiva. Pela primeira vez, desde os anos 1960, ele não seria visto numa novela, voltando apenas dez anos depois, em “Amor e Revolução” (2011) do SBT.

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Com o elenco da novela Marcas da Paixão

Desde 1979, Cavalcanti era casado com a atriz Maria Lúcia Frota Cavalcanti, que compartilhava com ele a paixão e luta pela defesa dos animais. Causa que defendia desde 1975, quando ingressou na Associação Protetora dos Animais (APA), e que foi sua bandeira em seus dois mandados de vereador no Rio de Janeiro.

Seu último trabalho como ator foi uma participação na 2ª temporada da série “Sessão de Terapia”, que estreia no canal pago GNT no dia 7 de outubro. Na trama, Cavalcanti interpreta Otávio, um empresário com síndrome do pânico. Na ocasião, foi dirigido por Selton Mello (“O Palhaço”), que nesta segunda (30/9) lembrou do “grande ator”, em comunicado distribuído para a imprensa. “Ele nos deixou na noite do dia 29 de setembro, mas sua arte é eterna. Porque um ator pode nos deixar, mas suas criações seguem reverberando na mente e no peito de quem se deparou com elas”, exaltou Selton, reverente.

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Gravando Sessão de Terapia com o diretor Selton Mello

+ Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna

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