Lançado em DVD pela Lume, o segundo longa de Carlos Reichenbach — o primeiro foi dado como perdido — “Lilian M: Relatório Confidencial” (1975) demonstra uma cinefilia tão plena de referências que fica impossível mapeá-la sem estudos minuciosos. Referências que se distribuem harmonicamente, despojada de espírito gratuito de citação ou de filiação pernóstica a escolas e vanguardas.
O filme divide-se em várias fases da vida da personagem-título, interpretada por Célia Olga, que narra a história a posteriori, numa entrevista em seu apartamento, a um repórter black power. Impressiona como cada um dos capítulos combina estilos e tópicos de diretores “íntimos” a Reichenbach. Isto fica mais claro na trilha sonora, recheada de temas do cinemão americano e utilizada, de modo travesso, para pautar atmosferas. E também em montagem paralela com a imagem, como exemplo a cena da morte do caixeiro viajante. É apresentada duas vezes seguidas – uma com trilha melodramática, outra sem áudio, o espectador pode comparar a diferença.
“Lilian M” trata-se de uma obra extremamente feminina sobre uma mulher. Não tem a veia aberta de um Sganzerla ou Bressane, mas não deixa de impactar os públicos por outra via.
Maria escapa de uma vidinha na roça casamento-e-filhos, para aventurar-se na cidade grande. Na cidade, cada episódio descreve o relacionamento de Lilian com um homem diferente: um galante e generoso burguês, um industrial alemão sádico, um rato-de-repartição ciumento, um rebelde pistoleiro e selvagem, um grileiro prolixo e enrolador, e por aí vai.
É a mesma trajetória campo-cidade que moveu a geração do cinema novo à experiência tropicalista – de Sganzerla, Bressane, Tonacci, Reichenbach e outros sob a (renegada) legenda “cinema marginal”. Também aí se nota a tendência desse grupo: a paixão pela exceção, a ausência de alegoria e grandiloqüência, a desconstrução da identidade.
Reichenbach zela por seus personagens. Confere a todos um diferencial, permite-lhes a plenitude do inacabamento. Não os confina em caricaturas, nem os menospreza como numa sátira plana. Pelo contrário: respeita-os, trata-os com apreço. Mesmo os mais burlescos – o filho gay do burguês, o caixeiro-viajante bufão – invocam a simpatia do espectador. Vale a pena atentar aos discursos e signos ao redor de cada personagem/episódio, lembrando que se trata de um filme rodado no auge da ditadura. Que, aliás, mandou mudar o final, considerado “subversivo demais” pelos censores.
Lilian não se preocupa com o que ela é. Acima de tudo, vive. A câmera doa-lhe a liberdade para inventar e dançar, e acompanha os movimentos, os trejeitos, a sua beleza simples e sua libido em construção. Ela inventa um novo nome. Maria vira Lilian e se transmuta através dos homens que conhece, aos quais jamais se submete e menos ainda os instrumentaliza como joguetes. Lilian não é nenhuma vítima ingênua. Tampouco é femme fatale e emascula os homens de cima de sua sensualidade, como Ângela Carne-e-Osso (de “A Mulher de Todos”).
Uma personagem de caráter, na acepção clássica, no sentido de Orson Welles: caráter como o vigor e a virtude de encarar a vida e reinventar-se a cada momento, sem preconceitos ou mesquinharias. Lilian vive o grande amor que se renova, além de qualquer ideal abstrato da geração.
Sem dar um passo em falso sequer na direção, Carlos Reichenbach conseguiu ser original no tema da mulher insatisfeita com a vidinha, mulher de alma intensa que não se resigna senão na vida a mais plena.
Nisso, “Lilian M: Relatório Confidencial” expressa a riqueza de sentimento que irá percolar a filmografia desse diretor, num cinema de reinvenção permanente, que usa e abusa das referências para afirmar o seu estilo.
Lilian M: Relatório Confidencial
(Brasil, 1975)
Lançamento em DVD



































