A 16ª edição Cine PE – Festival do Audiovisual começa nesta quinta-feira (26/4) com mudanças em sua estrutura e a ambição de ganhar mais destaque no cenário cinematográfico nacional. A programação está mais enxuta – ao todo, serão 40 filmes (26 curtas e 14 longas). Mas apenas três produções são inéditas: “À Beira do Caminho”, de Breno Silveira, “Corda Bamba, História de uma Menina Equilibrista”, de Eduardo Goldenstein, e o documentário “Sons da Esperança”, de Zelito Viana, que será exibido fora de competição – seriam quatro, mas “Paraísos Artificiais” foi exibido na sexta-feira (20/4), no evento Vivo Open Air, em São Paulo.
A opção por uma programação reduzida teria sido um pedido do público que frequenta o evento. Agora, apenas um longa-metragem em competição será exibido por noite, além de três curtas. A medida facilita ao público acompanhar a competição e evita a correria – além de diminuir a probabilidade de atrasos nas exibições, que começam às 20h e terminam Às 23h30. Vale lembrar que a edição de 2011 da Mostra de São Paulo também optou por reduzir sua programação, valorizando a qualidade e o ineditismo de outros festivais. A organização do festival nordestino também definiu o padrão 2K para a exibição digital para evitar os constantes problemas ocorridos em festivais durante essa fase de transição de tecnologia do cinema analógico para o digital.
À Beira do Caminho
Apesar do projeto de se tornar referência nacional, no vácuo do cancelamento do Festival de Paulínia, o encolhimento de sua programação e a opção por poucas obras inéditas prejudica suas pretensões. Porém, ele sai na frente por realizar a première de “À Beira do Caminho”, novo trabalho de Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco”), sobre caminhoneiro (João Miguel) que viaja pelo Brasil após sofrer um trauma. O ineditismo não atrapalha as pitonisas de considerá-lo já favorito a levar o troféu Calunga.
“Boca”, de Flávio Frederico, também compete ao prêmio. No elenco estão Hermila Guedes, Paulo César Peréio, Leandra Leal e Daniel de Oliveira, que interpreta o criminoso Hiroito Joanides, “rei” da região central de São Paulo conhecida como Boca do Lixo nos anos 1950 e 1960. A produção foi vencedora do Festival do Rio de 2010 de Melhor Fotografia e Melhor Montagem, e agora retorna após mudar seu título (originalmente era “Boca do Lixo”) e a música de encerramento – sai Jimi Hendrix e entra Céu, Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra.
Boca
“Paraísos Artificiais”, dirigido por Marcos Prado, com produção de José Padilha (Tropa de Elite), entra no mundo das drogas e das raves utilizando a Praia do Paiva, em Pernambuco, para simular Amsterdã. Para balancear, também tem o infantil “Corda Bamba: História de uma Menina Equilibrista”, de Eduardo Goldenstein, e o curioso “Na Quadrada das Águas Perdidas”, de Wagner Miranda e Marcos Carvalho, que traz Matheus Nachtergaele num filme mudo pela caatinga de Petrolina. Foi exibido no Cine Ceará e eleito o melhor longa do último Festival de Triunfo.
Já “Estradeiros”, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, traz um visão documental de viajantes que buscam uma filosofia de vida pela América do Sul, alternativa à sufocante proposta das grandes metrópoles. Foi exibido na Janela Internacional de Cinema do Recife e na Semana dos Realizadores do Rio de Janeiro. Fecha a lista de competidores “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”, documentário de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, sobre a vida do compositor que veio ao Brasil ainda na barriga de sua mãe após o estouro do horror nazista – sucesso do recente É Tudo Verdade. Fora de competição, ainda será exibido o documentário “Sons da Esperança”, do veterano Zelito Viana.
Paraísos Artificiais
Jorge Mauter também estará presente no curta “Kaosnavial”, de Marcelo Pedroso e Afonso Oliveira. Entre os curtas, destaca-se ainda “Até a Vista”, do sempre obrigatório Jorge Furtado (“Meu Tio Matou um Cara”). Seu trabalho faz parte do projeto “Fronteiras”, liderado pelo cineasta Juan José Campanella (“O Segredo de Seus Olhos”). Na verdade, há vários filmes de relevo na seleção curta-metragista.
O curta “A Fábrica”, de Aly Muritiba, chega a Pernambuco com o currículo inchado: foi premiado no Festival de Brasília e no Festival da Coréia do Sul e concorreu no Clermont Ferrand. “Garotas da Moda, de Tuca Siqueira, mostra a rotina de um grupo de travestis inspiradas em Beyoncé, Madonna e nas Spice Girls. “Qual Queijo Você Quer”, de Cíntia Domit Bittar, foi premiado no Festival de Paulínia e do Rio ao abordar uma crise conjugal de um casal na terceira idade. Do outro lado do espectro, “Sonhando Passarinhos”, de Bruna Carolli, invoca o ponto de vista de uma criança para analisar o mundo sem graça dos adultos. Vale conferir ainda “Dia Estrelado”, de Nara Normande, é uma animação inspirada na obra “Noite Estrelada”, do pintor Van Gogh.
Estradeiros
Este ano, o Cine PE vai homenagem o ator Ney Latorraca e os cineastas Fernando Meirelles e Cacá Diegues. Latorraca será lembrado por sua atuação em “O Beijo no Asfalto” (1980), dirigido por Bruno Barreto, baseado em peça de Nelson Rodrigues.
Para comemorar uma década de “Cidade de Deus” (2002), Meirelles será homenageado como produtor, com a exibição de “Xingu”, filme de Cao Hamburguer produzido pela empresa O2, do diretor. A ideia dos organizadores, na verdade, seria apresentar “360”, novo trabalho do cineasta, ainda inédito por aqui. A autorização não foi obtida, entretanto. “Fomos até a marca do pênalti, mas não fizemos o gol”, lamentou o diretor do evento Alfredo Bertini, na divulgação da programação.
Na Quadrada das Águas Perdidas
Já Cacá Diegues, que está prestes a filmar “O Grande Circo Místico”, recebe homenagem pelos 50 anos de carreira com a exibição de seu “Xica da Silva” (1976). A restauração digital teve apoio da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, que também patrocina o lançamento do livro “Maracanã dos Festivais”, sobre os 15 anos do Cine PE.
A parceria com a instituição paulista reafirma a estratégia da organização de ganhar mais destaque em escala nacional e, consequentemente, mais patrocinadores. Os eventos cinematográficos nacionais estão buscando soluções para melhorar sua viabilidade, como a criação da Frente dos Grandes Festivais, que será lançado oficialmente em Pernambuco, principalmente porque a crise vem se confirmando. Após quatro anos em pleno crescimento, o Festival de Paulínia não será realizado este ano por questões políticas. E o prestigiado Festival de Gramado vem passando por problemas com a prestação de contas e também corre riscos.
Corda Bamba: História de uma Menina Equilibrista
Com o atual cenário, o Cine PE pode se destacar e até ocupar possíveis vácuos deixados por seus “concorrentes”. E vem tentando fazer isso sem perder sua identidade. Dos sete longas em competição, quatro usam Pernambuco como locação – provavelmente resultado de uma parceria com governo do estado, que aumentou sua participação no evento por meio da Secretaria de Turismo e da Empetur.
O Cine PE será realizado entre os dias 26/4 e 2/5 no Teatro Guararapes (Centro de Convenções de Pernambuco), em Olinda. Os ingressos custam R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia), e a entrada é livre nas sessões especiais e na mostra de curtas Pernambucanos. Mais informações no site oficial.
Jorge Mautner – O Filho do Holocausto


































