Chris Marker (1921 – 2012)

Morreu Chris Marker, um dos gênios do cinema documental. Ele tinha 91 anos e morreu exatamente no dia de seu aniversário, no domingo, 29 de julho, em sua residência em Paris.

Chris Marker inovou o cinema durante a nouvelle vague, a onda vanguardista francesa, que mudou as regras das filmagens nos anos 1960. Documentarista, seus filmes pareciam mais ensaios literários que cinema, repletos de observações pessoais e insights. Um dos seus primeiros filmes, “Lettre de Sibérie” (1958), começava exatamente como uma carta de um viajante. “Eu estou lhe escrevendo de um país distante…”

Chris Marker nos anos 1950

Nascido Christian François Bouche-Villeneuve, nos arredores de Paris, ele integrou a Resistência Francesa e lutou contra os nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Ao fim da guerra, trabalhou como jornalista ao lado de André Bazin, um dos maiores teóricos da nouvelle vague. Escreveu críticas de teatro e cinema, poemas e um romance. Até se encontrar atrás da câmera, filmando documentários de esquerda, que ele mesmo escrevia, dirigia e filmava, o que durou um extenso período, entre 1955 e 1966, até querer ver mais gente fazendo o mesmo.

Nos anos 1960, o poeta Henri Michaux proclamou que a universidade de “Sorbonne deveria ser destruída e Chris Maker erguido em seu lugar”. A alusão se devia à qualidade do material produzido pelo cineasta, que tirou seu pseudônimo da caneta que escreve em qualquer superfície, a Magic Marker.

Si j’Avais Quatre Dromadaires

Apesar de esquerdista assumido, ele também era humanista e considerava a propaganda soviética um alvo pronto para ridicularizar, assim como o consumismo ocidental. Uma das sequências memoráveis de “Lettre de Sibérie” entrou para a história do cinema por apresentar a mesma cena sob três pontos de vistas diferentes: a primeira ilustrava elogios à União Soviética, a segunda atacava o estado comunista e a terceira trazia comentários “contando como realmente é”.

Ele questionava todos os limites do cinema, inclusive a isenção do documentário. A inclusão da mesma cena três vezes, em contextos diferentes, no célebre “Lettre de Sibérie”, era um exemplo de sua capacidade de contestar o próprio meio.

La Jetée

Mas Marker também cultivava a dúvida em relação a si próprio. Nunca deu entrevistas e não gostava de ser fotografado. Quando um editor pediu que ele enviasse uma foto para acompanhar uma antologia de suas críticas sobre a nouvelle vague, ele postou a foto de seu gato. E sempre contava sua biografia de forma diferente. No começo, tinha nascido na França, mas, dependendo de quem perguntasse, podia dizer que era mongol.

Nunca se interessou em dirigir filmes de ficção em longa-metragem e seu único filme dramático foi um curta de 29 minutos, uma ficção científica chamada “La Jetée”, de 1964. Entretanto, esta obra se mostrou bastante influente. Trinta anos depois, o curta serviu de base para a sci-fi “Os 12 Macacos” (Twelve Monkeys, 1995), de Terry Gilliam, estrelada por Bruce Willis e Brad Pitt. O roteiro do longa é creditado a Chris Marker.

La Jetée

“La Jetée” é considerada uma obra influente mais por sua forma do que por seu conteúdo. Passado num mundo devastado pela guerra nuclear, a trama acompanha a tentativa de um grupo de sobreviventes de voltar no tempo e alterar a história. Mas em vez de um filme convencional, o que se vê projetado na tela é uma sucessão de fotografias inanimadas e uma única cena – breve – com movimento, de uma jovem despertando e abrindo os olhos. O próprio diretor descreve a produção como uma fotonovela.

Marker amplificou a ideia de “Le Jatée” em “Si j’Avais Quatre Dromadaires” (1966), um documentário de longa metragem composto por 800 fotos que ele tirou ao longo de 10 anos em 26 países diferentes. A produção levava ao extremo sua obsessão com viagens. Ele excursionou por boa parte do mundo como jornalista, fotógrafo e cineasta. Chegou a editar uma série de guias literários sob o nome “Petite Planète”, antes de resumir o mapa mundi em “Si j’Avais Quatre Dromadaires”.

O Fundo do Ar É Vermelho

No começo da carreira, ele filmava por compulsão, de forma amadora, usando uma câmera de 8mm. Mas, a partir de 1952, quando filmou a Olimpíada de Helsinki, progrediu para uma câmera de 16mm, o que representou um grande salto profissional em sua carreira.

No ano seguinte, juntou-se a Alain Resnais para co-dirigir seu primeiro filme controvertido, “Les Statues Meurent Aussi” (1953), um estudo da arte africada e seu declínio sob a influência do colonialismo. O documentário foi considerado um ataque na política externa francesa e acabou banindo. Só foi ressurgir 10 anos depois, e ainda assim faltando pedaços.

Loin du Vietnam

Não foi a única censura que sofreu na França. O apaixonado e influente “Cuba Si!” (1961), que trazia duas entrevistas com Fidel Castro e terminava com o fiasco da invasão americana de Baía dos Porcos, também foi banido pelo governo francês, desta vez por seu tom anti-americano.

“Le Joli Mai” (1962) foi a primeira obra do diretor sobre seu país, um afresco composto por entrevistas de pessoas comuns, colhidas na rua, destinado a criar uma colagem sobre o que os parisienses pensavam sobre a vida, o amor, a política e os temas sociais da época. 55 horas de entrevistas foram editadas num filme de 150 minutos, com narração e comentários do ator Yves Montand (“O Salário do Medo”).

Cuba Si

No final dos anos 1960, ele fundou um cooperativa chamada Société para encorajar jovens cineastas a filmarem documentários e criarem suas próprias equipes cooperativadas. O esforço inaugural desse período foi “Loin du Vietnam” (1967), uma antologia criada por cineastas franceses, que envolveu o esforço de 150 técnicos, todos trabalhando de graça. Entre os cineastas que contribuíram para o projeto, figuraram a nata da nouvelle vague: Jean-Luc Godard, Agnes Varda, Alain Resnais, Joris Ivens e o próprio Marker.

Os eventos de maio de 1968 em Paris, quando a juventude universitária confrontou a polícia e o governo, com o apoio dos intelectuais franceses, teve grande impacto em sua carreira. Marker decidiu parar de filmar sozinho para se concentrar em trabalhos coletivos e divulgar o ideário cooperativo.

Le Joli Mai

Só foi voltar a filmar por conta própria em 1974, com “La Solitude du Chanteur de Fond”, um retrato de 1 hora de seu velho amigo Yves Montand. Em 1974, ele montou um estudo de 4 horas de duração sobre o legado de 1968, composto inteiramente de imagens filmadas por terceiros. Intitulado “O Fundo do Ar É Vermelho” (Le Fond de l’Air est Rouge), contava a história da ascensão e queda da Nova Esquerda, de seu nascimento como efeito colateral da Guerra do Vietnã até a reação da direita, culminando na intervenção na CIA no Chile, que colocou a ditadura militar no poder – um retrato definitivo da repressão da esperança ideológica.

O principal filme de seu entardecer cinematográfico é, indiscutivelmente, “Sem Sol” (Sans Soleil, 1983), filme narrado por uma mulher que lê cartas enviadas por um cameraman durante suas viagens ao Japão, Islândia, África e outros destinos distantes. As cartas descrevem cenários fantásticos, como um deserto branco, uma escada musical e um templo dedicado aos gatos. Tudo acompanhado por imagens imponentes. A ideia é a mesma recentemente resgatada pela dupla brasileira Karim Ainouz e Marcelo Gomes em seu documentário lírico “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” (2009).

Sem Sol

Entre seus últimos trabalhos se destacam alguns cine-ensaios, como “AK” (1985), um relato das filmagens de “Ran”, de Akira Kurosawa, e “The Last Bolshevik” (1993), um estudo em vídeo do cineasta russo Alexander Medvedkin, que, no início do estado soviético, excursionou a Rússia com um cinema ambulante, montado num trem, para mostrar imagens da revolução ao povo.

Apesar da idade avançada, ele continuou filmando sem parar, sempre buscando inovar. Nos anos 1990, virou multimídia: passou a criar video-instalações e a trabalhar com CD-Roms, que permitiam diversas permutações diferentes do mesmo trabalho. Em atividade até 2007, ele dedicou sua vida a registrar temas que lhe eram caros, para realizar aquilo que o crítico Alexandre Astruc predizia: que, no futuro, cineastas seriam capazes de escrever com a câmera, com estilo próprio, como os poetas escreviam com a caneta. Ou, no caso, uma Magic Marker.

Chris Marker

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