Morreu na tarde desta quinta-feira (14/6) em São Paulo o cineasta brasileiro Carlos Reichenbach. Diretor consagrado de mais de 20 filmes, entre eles “Sede de Amar” (1979), “Amor, Palavra Prostituta” (1982), “Dois Córregos” (1999) e “Garotas do ABC” (2003), Carlão, como era conhecido, surgiu em meio ao cinema marginal e à Boca do Lixo paulistana e se tornou uma referência no cinema nacional, a ponto de receber uma mostra especial no Festival de Roterdã, na Holanda, na década de 1980.
O diretor sofreu uma parada cardíaca, não resistiu e faleceu a caminho da Santa Casa de Misericórdia. Ele completou 67 anos no dia de sua morte, e a forma súbita com que se foi abalou a comunidade cinematográfica nacional. “Tenho muito respeito por sua obra e pelos riscos que correu. Sempre gostou de surpreender. Além de cineasta, era um grande cinéfilo. Era sempre um prazer falar com ele sobre filmes”, lamentou o diretor Cacá Diegues (“O Maior Amor do Mundo”).
Carlos Reichenbach e a equipe de As Prostitutas do Dr. Alberto, na Boca do Luxo
“Ele foi um grande amigo, sempre pude contar com ele. A notícia de sua morte me deixou muito chateado”, comentou José Mojica Marins, o Zé do Caixão. O diretor Heitor Dhalia (“12 Horas”) ressaltou a paixão de Reichenbach pelo cinema brasileiro. “Tive um contato muito próximo e muito rápido, mas uma coisa me chamou muita atenção: ele era um cara extremamente generoso, era um torcedor do cinema brasileiro, torcia pelos filmes de todo mundo, não só pelos dele. Isso é raro nessa área, em que a competição é muito grande.”
“Perdemos um amigo, um camarada generoso e entusiasmado. Nunca vou me esquecer de suas palavras emocionantes e emocionadas num texto sobre meu primeiro filme, ‘Um Céu de Estrelas’ (1996)”, declarou Tata Amaral. A atriz Betty Faria, que trabalhou com Carlão em “Anjos do Arrabalde” (1987) e “Bens Confiscados” (2004) lamentou a perda do amigo. “Ele era um grande mestre, conhecia profundamente o cinema. Foi com ele que ganhei o meu primeiro Kikito (prêmio do Festival de Cinema de Gramado)”.
Filmando Via Sacra, com Orlando Parolini na Av. São Luiz
Atores da nova geração também sentiram a morte do cineasta, caso de Cauã Reymond, que esteve no elenco de “Falsa Loura” (2007), seu segundo filme como ator. “Ele percebeu que briguei pelo personagem. Fui muito bem tratado e tive liberdade de criação no set. Foi uma experiência muito boa. Sempre sonhei em trabalhar com ele novamente. Ele era um artista com quem se deseja trabalhar independente do projeto e do dinheiro disponível”.
O ator Milhem Cortaz destacou a alegria que ele viu em Reichenbach durante as filmagens de “Garotas de ABC”: “Muitas das cenas que tivemos de regravar do filme foi porque vazava o som dele rindo e se divertindo no set. Perdemos um anarquista do cinema nacional. Um pensador.”
Filmando A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do sexo, episódio do longa Audácia!
Carlos Reichenbach nasceu em Porto Alegre (RS) no dia 14 de junho de 1945, filho de imigrantes da Alemanha e Romênia. Sua família era do ramo da indústria gráfica e tanto seu pai quanto seu avô foram editores, donos da empresa Hartmann e Reichenbach, especializada em litografia (impressão em pedra).
Ainda garoto, passou a morar em São Paulo, cidade que se tornaria uma das principais personagens de seus filmes. Carlão – ou talvez Carlinhos, devido à época – cresceu como um verdadeiro cinéfilo, a ponto de ser assinante das principais revistas sobre cinema do mundo, como a Cahiers du Cinéma, a Sight and Sound e a Film Culture.
Dirigindo Sandra Bréa em Sede de Amar
Aos 15 anos, disputava com os amigos quem assistia a mais filmes (ele acredita que tenha passado de 3 mil) e conhecia todos os cinemas de bairro de São Paulo, do Cine Júpiter (Penha) ao Cine Carrão (Vila Carrão), do Cine Pérola (Vila Maria) ao Cine Sapopemba.
Carlão aventurava-se por São Paulo e descobria todas as salas de cinema graças à sua fiel bicicleta, que ficava constantemente com os pneus desgastados de tanta exploração. E o pior: ele conseguia convencer os lanterninhas a entrar com sua magrela dentro do cinema.
Conferindo a luz de Mulher, Mulher, com Helena Ramos e Paulo Leite
“Lembro de ver ‘Ladrão de Casaca’ (1955) e ‘Um Corpo Que Cai’ (1958) com a bicicleta do lado, no Cine Pérola”, contou nostálgico em uma entrevista à revista Cult. “Essas idas aos cinemas de bairro era como se estivesse indo para a Ilha do Tesouro. O cinema, indiscutivelmente, era a razão para eu conhecer cada bairro de São Paulo, cada reduto da cidade. Foi uma das coisas mais prazerosas da minha vida.”
Uma de suas descobertas foi o cinema japonês no bairro da Liberdade, onde conheceu o Cine Nippon, o Cine Jóia e o Cine Nikatso, e passou a frequentar também templos budistas. Seu interesse era tamanho que assistia aos filmes falados em japonês sem legendas. Esta fase transparece entre as inspirações de seu filme “O Império do Desejo” (1981).
Durante as filmagens do Filme Demência
Sua cinefilia inevitavelmente o levou a trabalhar na arte, primeiro colaborando como crítico de jornais de bairro. Carlão também passou a estudar na famosa Escola Superior de Cinema São Luiz, acreditando que seria roteirista graças ao seu interesse em escrever e ao ramo de sua família, com avô, pai e tio editores.
Como aluno da São Luiz, aos 20 anos, ele fotografou o que ele acredita ter sido o primeiro filme underground do Brasil, chamado “Via Sacra”.
O Paraíso Proibido
O ano era 1965, em plena ditadura militar, e o filme dos garotos trazia nu frontal, cenas de homossexualismo feminino e masculino e orgias, e o resultado foi algumas horas na cadeia durante as filmagens, já que uma das atrizes era filha de delegado.
Infelizmente, não existe mais registro do trabalho, cujo negativo foi destruído. “Mesmo depois de ter terminado o movimento underground, não me lembro de ter visto imagens tão ousadas, impactantes, violentas e uma forma de filmar São Paulo tão particular”, comentou Reichenbach.
Celia Olga em Lilian M.: Relatório Confidencial
Eram os anos 1960 e Carlão e seus colegas de curso estavam altamente influenciados pela contracultura e pelas ideias efervescentes do período. “Quando entrei na São Luiz, entrei imbuído com aquela ideia do Cinema Novo, de fazer um cinema revolucionário, um cinema que afetasse a realidade, que mudasse a realidade”, confessou o diretor aos risos ao site Contracampo.
Em 1965 ele deu início às filmagens do curta “Esta Rua Tão Augusta”, mas só foi concluir a obra depois de estrear como diretor em “As Libertinas” (1968), onde comandou o segmento “Alice”. Era o nascimento do cinema marginal, da Boca do Lixo do centro de São Paulo, de onde também vieram Rogério Sganzerla (“O Bandido da Luz Vermelha”), Ozualdo Candeias (“A Margem”) e José Mojica Marins (” À Meia-Noite Levarei Sua Alma”).
Filmando a si mesmo em cena de Extremos do Prazer
Ele também trabalhou como ator para os amigos, vivendo desde um gângster em “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) até uma das vítimas de “O Ritual dos Sádicos” (1970), de Marins, entre outras aventuras de pouca metragem.
Porém, sua maior contribuição aos filmes dos colegas da Boca do Lixo foi sua câmera e fotômetro, que levou para sets famosos da pornochanchada. Reichenbach criou, como diretor de fotografia, alguns dos takes que alimentaram a libido de uma geração de brasileiros – entre eles, as imagens de “Os Dons Tempos Voltaram: Vamos Gozar Outra Vez” (1985), de David Cardoso e John Herbert, “Doce Delírio” (1983), de Manoel Paiva, “Tessa, a Gata” (1982), de John Herbert, “As Prostitutas do Dr. Alberto” (1981), de Alfredo Sternheim, “Mulher, Mulher” (1979), de Jean Garret, “A Dama da Zona” (1979), de Ody Fraga, “Viúvas Precisam de Consolo” (1979), de Ewerton de Castro, “Excitação” (1976), de Jean Garret, e “Os Amores de Um Cafona” (1971), de Osíris Parcifal de Figueroa e Penna Filho.
Carolina Ferraz e São Paulo, em Alma Corsária
São Paulo costumava ser o ambiente e, de certa forma, personagem das produções. Com as inevitáveis transformações sociais e visuais da metrópole, Carlão ressalta a importância da cena cinematográfica da época. “É engraçado que o cinema tenha preservado bem a memória do Centro.”
Antes do primeiro longa, ele participou de mais um projeto coletivo, “Audácia!”, em que usou da metalinguagem para falar da própria Boca do Lixo. A estreia como diretor de longas veio em “O Paraíso Proibido” (1971), que deu início a uma produção marcadamente autoral. Seguiram-se “Corrida em Busca do Amor” (1972) – cuja última cópia foi encontrada recentemente após passar anos dada como perdida –, “Lilian M.: Relatório Confidencial” (1975) e “A Ilha dos Prazeres Proibidos” (1979), seu primeiro estouro comercial, que reuniu quase 2 milhões de pagantes no Brasil e totalizou 6 milhões na América Latina.
Com Betty Faria, no set de Bens Confiscados
Com a pornochanchada a todo vapor, realizou “Sede de Amar” (1979), “Império do Desejo” (1981), “Amor, Palavra Prostituta” (1982), o segmento “Rainha do Fliperama” do longa “As Safadas” (1982) e “Extremos do Prazer” (1984) – sempre enfrentando os retalhos da censura. E com a estética da Boca do Lixo em decadência, Carlão filmou sua versão do livro “Fausto”, “Filme Demência” (1986), considerada por muitos seu maior trabalho.
Reichenbach também se mostrou forte mesmo quando o cinema brasileiro levou um de seus maiores golpes, após o Governo Collor dinamitar os mecanismos de incentivo cultural no país. Em 1993, ele dirigiu “Alma Corsária” e produziu o curta “Olhar e Sensação”, mostrando que ainda era possível fazer cinema. Também esteve presente na retomada da produção nacional com “Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo” (1999). Nos anos 2000, ainda realizou três longas: “Garotas do ABC” (2003), “Bens Confiscados” (2004) e “Falsa Loura” (2007).
Garotas do ABC
Ao longo de sua carreira de quatro décadas, foi premiado diversas vezes pelos festivais do Brasil e teve seu trabalho reconhecido pelo Festival de Roterdã, do qual participou frequentemente. Em 2011, o festival holandês exibiu uma cópia restaurada de “Liliam M”.
Na edição de 2010 do Festival de Brasília, chegou a anunciar que seu próximo filme seria “O Anjo Desarticulado”, inspirado na história de sua mãe, que veio da Romênia na década de 1920.
Com Flávia Lorenzi, nos bastidores de Falsa Loura
Fumante exagerado, Carlão chegava a queimar três maços de cigarro por dia, o que o levou a desenvolver doenças respiratórias e a três infartos em 2001, chegando a ficar internado no Incor, em São Paulo. Em 2003, sofreu nova parada cardíaca, que o deixou bastante debilitado.
Na tarde quinta-feira (14/6), seu aniversário, teve um ataque cardíaco fulminante e chegou morto ao hospital. Ele deixa sua esposa Lygia Reichenbach, três filhos e uma neta.
Carlos Reichenbach










































1 Comentário
fará muita falta, um artista da época em que havia originalidade no meio artístico… gosto muito de Garotas do ABC!!!