Carlos Manga reencontra as chanchadas

CINEOP Aos 83 anos, o mítico Carlos Manga diz nunca ter abandonado as chanchadas que o tornaram famoso no cinema popular brasileiro na década de 1950. O carioca diz simplesmente ter “parado de fazer” aqueles filmes, por conta da mágoa surgida das críticas negativas que o gênero acumulou ao longo dos anos.

“Ficávamos todos ofendidos e machucados. Alguns comentários eram muito desagradáveis, e eu não quero me lembrar disso nas vésperas de uma homenagem tão bonita”, relatou o cineasta.

Carlos Manga

A homenagem à qual Manga se refere acontece na CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, que segue até o dia 20 de junho. Em sua 6ª edição, o festival da Universo Produção, que prioriza aspectos históricos dos filmes do país, escolheu justamente a chanchada como o mote. Manga, um dos principais nomes da época, será o grande representante de um período áureo do contato do espectador brasileiro com filmes locais.

Historicamente, a primeira chanchada data de 1943, “Tristezas Não Pagam Dívidas”, de José Carlos Burle – um dos fundadores da Companhia Atlântida, junto com os colegas Moacir Fenelon e Elinor Azevedo. Manga foi trabalhar na Atlântida no fim dos anos 1940. Na empresa, foi almoxarife, contrarregra, assistente de montagem e produção e assistente de direção. Em 1953, aos 25 anos, já assinava sozinho o primeiro filme como diretor, “A Dupla do Barulho”.

Oscarito e Eliana Macedo em Nem Sansão nem Dalila

“Eu fazia filmes que o brasileiro adorava, porque o brasileiro é engraçado e quer rir”, orgulha-se Manga, que emplacou um sucesso seguido do outro. Títulos como “Matar ou Correr” (1954), “Nem Sansão nem Dalila” (1955) e “De Vento em Popa” (1957), vários capitaneados por Oscarito, Grande Otelo e Eliana, moveram milhões de espectadores.

Manga garante que seu “O Homem do Sputnik” (1959) ainda é a maior bilheteria do cinema brasileiro, já que o filme foi visto por 15 milhões de espectadores numa época em que a população do Brasil era de 60 milhões – ou seja, um quarto do país foi aos cinemas ver o longa.

Carlos Manga com o Troféu Oscarito

Nem só por isso “O Homem do Sputnik” – que ganhou exibição especial na abertura da CineOP – é o filme favorito de Manga entre todos dirigidos por ele. O motivo passa pela política e pela notória ojeriza do diretor com os EUA. “Esse filme demonstra muito da minha expressão política internacional. Nunca fui a favor do americano e me desforrei um pouco nesse trabalho”, dispara.

Em cena, Oscarito é um homem simples que acredita ter sido “alvo” do satélite russo Sputnik. Numa mistura de deboche e situações delirantes, basicamente dentro do clima de Guerra Fria, o personagem é perseguido por agentes dos EUA interessados no tal satélite. Jô Soares faz um espião norte-americano, e Norma Bengell encarna uma versão tupiniquim da musa francesa Brigitte Bardot.

A abertura de O Homem do Sputnik

“A chanchada foi bem-sucedida ao reproduzir aqui, de forma competente, o esquema de estrelismo de Hollywood”, afirma o professor João Luiz Vieira, colaborador da temática história da mostra, junto com o crítico Cléber Eduardo.

Essa absorção do “estrangeiro” pela chanchada foi um dos elementos a gerar controvérsia entre intelectuais que não aceitavam o tipo de produto da Atlântida. Os filmes eram chamados de “espetáculos vulgares” e sofriam todo tipo de preconceito e ataque.

Grande Otelo, José Lewgoy e Oscarito em Matar ou Correr

O termo “chanchada” não foi exatamente uma maneira elogiosa de se referir às comédias populares musicais dos anos 1940 a 1960. Diz-se que a palavra teria origem espanhola, sinônimo de “porcaria”.

Por anos, as chanchadas apanharam de todos os lados,? com exceção do público, que as assistia aos milhões. Mas nos anos 1970, Paulo Emílio Sales Gomes, um dos principais intelectuais a repensarem o cinema brasileiro, reconheceu o período da chanchada como primordial.

Carlos Manga nos anos 1970

Fazendo relações históricas da ascensão do gênero a fatos como a queda de Getúlio Vargas e a 2ª Guerra, Paulo Emílio diz que “um exame atento é possível que nos conduza a uma visão mais encorajante” do fenômeno – no ensaio “Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento”, um marco do pensamento artístico.

Meio século depois de seu apogeu, a chanchada finalmente parece ganhar um novo olhar. “Nunca recebi tantas homenagens. Ninguém mais fala mal, só me elogiam”, diz Manga, feliz. “Não que o elogio seja fundamental. O que não quero é ser maltratado”.

+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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