Morreu Carlo Rambaldi, mestre italiano dos efeitos especiais, que criou personagens inesquecíveis do cinema, como Alien, E.T. e a versão dos anos 1970 de King Kong. Ele faleceu na sexta (10/8), aos 86 anos, em Lamezia Terme (Calábria, sul da Itália), onde residia.
Nascido em 15 de setembro de 1925 em Vigarano Mainarda, no nordeste da Itália, Rambaldi se formou na Academia de Belas Artes da Bolonha e começou a trabalhar no cinema ainda jovem, na década de 1950, ao criar um dragão gigante de 16 metros para o filme “Sigfrido” (1957), de Giacomo Gentilomo.
Perseu, O Invencível
Apaixonando-se pelo cinema, ele decidiu se mudar para Roma e tentar arranjar mais trabalho na indústria cinematográfica italiana.
O sucesso de seu dragão lhe rendeu uma encomenda completa para seu trabalho seguinte. Em “Perseu, O Invencível” (Perseo l’Invincibile, 1963), deu vida à Medusa, Guerreiros de Pedra, um Cíclope e novamente a um perigoso dragão. E a seguir foi ao espaço, criando seus primeiros alienígenas no cultuado “Planeta dos Vampiros”, do mestre Mario Bava. Estrelado pela brasileira Norma Bengell, esta ficção científica costuma ser apontada como grande influência em “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979). Não por acaso, Rambaldi trabalhou nos monstros de ambos os filmes.
Planeta dos Vampiros
Curiosamente, o artista aprimorou sua técnica fazendo jorrar sangue e forjando mortes brutais em vários filmes de horror e suspenses da era do giallo, a tendência que trouxe serial killers e assassinatos chocantes ao cinema italiano.
Sua filmografia da época inclui “Banho de Sangue” (Reazione a Catena, 1971), outra parceria com Bava, cujo nome diz tudo. O filme é considerado o primeiro slasher do mundo – aqueles filmes em que o serial killer ataca suas vítimas armado de faca. Ele conseguiu radicalizar ainda mais com “Prelúdio Para Matar” (Profondo Rosso, 1975), de Dario Argento. Para este filme, produziu baldes e baldes de sangue, esguichos, cortes e todo o tipo de respingo e espalhamento de líquido vermelho, basicamente originando a expressão splatter (respingo) para descrever uma tendência de horror “grand guignol” que se tornaria bastante comum nos EUA no final da década.
Banho de Sangue
Uma das passagens mais curiosas de sua carreira aconteceu quando se uniu ao mito do giallo sensacionalista Lucio Fulci. Ao trabalhar em “Uma Lagartixa em Corpo de Mulher” (Una Lucertola con la Pelle di Donna, 1971), precisou provar que as cenas criadas eram efeitos especiais e não realidade. A cena em que um cachorro era mutilado provou-se tão convincente que o diretor Lucio Fulci foi processado por maus tratos a animais. Ele teria pego uma pena de dois anos de prisão caso Rimbaldi não revelasse os animatronics (animais mecanizados) que usou, provando que tudo não passou de truque de filmagem.
Rambaldi foi o maior pioneiro no uso de animatronics, fantoches operados mecanicamente por engrenagens e cabos, e mechatronics, que combinavam mecânica, eletrônica e design avançado de engenharia, tudo isso antes que os efeitos digitais passassem a ocupar o lugar dos monstros no cinema.
Flesh for Frankenstein
Conquistando um aval importante para sua carreira, ele também se juntou ao artista plástico Andy Warhol para trabalhar nos dois terrores que ele produziu: os cultuados “Flesh for Frankenstein” (1973) e “Blood for Dracula” (1974), ambos estrelados por Udo Kier e dirigidos pela dupla Paul Morrissey e Antonio Margheriti.
Reconhecido no cinema de seu país, foi convidado pelo grande produtor italiano Dino de Laurentiis para realizar o maior desafio de sua carreira: criar um novo King Kong nos Estados Unidos.
Set de King Kong
Ao contrário do filme clássico de 1933, em que a criatura ganhava vida pela técnica de animação do stop-motion, e do remake de 2005, no qual o monstro foi criado inteiramente por computador, Rambaldi concebeu um macaco gigante “de verdade”.
Eram, na verdade, várias peças avulsas. Havia um macaco completo, para ser fotografado à distância e que tinha movimentos rudimentares. Mas para closes e situações que requeriam maior movimento, Rambaldi construiu uma cabeça e duas mãos mecanizadas. A mão boba, por sinal, rendeu uma das cenas mais famosas do filme de 1976: o topless de Jessica Lange (a atriz da série “American Horror Story” já foi musa das sessões da tarde).
King Kong
O sucesso de “King Kong” (1976) lhe abriu as portas de Hollywood. E o primeiro a bater foi ninguém menos que Steven Spielberg. Rambaldi ganhou a missão de conceber os extraterrestres que desciam da nave espacial no final de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind, 1977).
Ridley Scott chegou na sequência, pedindo para ele desenvolver outro tipo de criatura do espaço: nada menos que o personagem-título de “Alien” (1979). A partir de desenhos do artista plástico suiço H.R. Giger, Rambaldi deu vida ao monstro mais famoso da sci-fi espacial, concebendo os hoje conhecidos movimentos de ataque da bocarra alienígena.
Com o molde de Alien
“Ele criou toda a funcionalidade da cabeça, fez a mandíbula funcionar”, Scott revelou. “Normalmente, a gente procurava evitar que a câmera se aproximasse muito das criações dos técnicos de efeitos, mas aquilo era tão bom que eu tinha que dar um grande close-up”. O mesmo movimento continuou imitado nos filmes mais recentes da criatura, só que com o auxílio preguiçoso da computação gráfica.
O artesão dos efeitos ainda criou a imagem icônica da mão decepada que ganha vida própria em “A Mão” (The Hand, 1981), de Oliver Stone – criação depois “homenageada” por Sam Raimi em “Uma Noite Alucinante” (Evil Dead 2, 1987).
Alien – O Oitavo Passageiro
Mas sua criatura mais famosa é, sem dúvida, o personagem-título de “E.T. – O Extraterrestre” (1982), seu segundo trabalho para Spielberg, que realizava 150 movimentos mecanizados diferentes e ainda tinha um dedinho que acendia feito lanterna. Oposto extremo de “Alien”, “E.T.” fez as crianças de todo o mundo se apaixonarem pelo monstro de outro mundo, invertendo os clichês da ficção científica – o inimigo, agora, era a humanidade – para criar um dos maiores sucessos do cinema em todos os tempos. “Rambaldi foi o Geppetto de ‘E.T.’”, disse Spielberg na sexta, aludindo ao marceneiro que deu vida ao menino de madeira Pinóquio.
Com “E.T.” ganhando vida em todo o tipo de produto, de brinquedos a lancheiras, Rambaldi se tornou requisitadíssimo para desenvolver ainda mais criaturas e efeitos em filmes que marcaram a década.
Contatos Imediatos do Terceiro Grau
Ele também concebeu o demônio que inferniza Isabelle Adjani em “Possessão” (Possession, 1981), de Andrzej Zulawski, criou personagens de fantasia para Arnold Schwarzenneger despachar em “Conan, o Destruidor” (Conan the Destroyer, 1984), imaginou civilizações de planetas distantes em “Duna” (Dune, 1984), de David Lynch, desenvolveu o monstro clássico de “A Hora do Lobisomem” (Silver Bullet, 1985), voltou ao macaco gigante na continuação “King Kong 2″ (1986), visualizou demônios em “O Armário do Diabo” (Cameron’s Closet, 1988) e soltou babuínos assassinos em “Fúria Primata” (Rage, 1988), dirigido por seu filho, Vittorio Rambaldi.
Após um hiato de sete anos, ele desenvolveu uma última parceria com o filho, “Decoy”, filme B de ação rodado em Los Angeles, com Peter Weller (“RoboCop”) e Robert Patrick (“O Exterminador do Futuro 2″) no papel de guarda-costas da filha de um milionário. O filme foi um desastre de crítica e bilheteria e marcou o final de sua carreira. Pouco a pouco, os efeitos digitais foram substituindo a técnica de artesões como Rambaldi, conduzido ao fim de uma era.
A criação de E.T.
Rambaldi ganhou um Oscar de realização técnica em 1977 por “King Kong”, antes do Oscar de efeitos especiais existir. Após a categoria ser criada, ele a venceu duas vezes: em 1980, por “Alien” e três anos depois por “E.T.” Ele começou criando efeitos baratos para filmes B italianos e acabou concebendo algumas das criaturas mais famosas dos blockbusters americanos.
O produtor J.J. Abrams chegou a prestar-lhe uma homenagem em vida, ao dar seu nome a um misterioso personagem da série “Alias – Codinome Perigo”, Milo Rambaldi, que seria uma espécie de gênio renascentista, ao estilo de Leonardo da Vinci, e inventor de intrincados artefatos que se provariam fundamentais na condução da trama. A homenagem não podia ser mais adequada. Carlo Rambaldi foi um dos grandes inventores do cinema.
E.T. – O Extraterrestre






































