Cara ou Coroa revisita a época da ditadura com filtro nostálgico

No Brasil de 1971, vivia-se a ditadura militar em plena vigência do Ato Institucional nº 5, o golpe dentro do golpe. Governo Médici. Censura, perseguições políticas, prisões e desaparecimentos, tortura. Ser jovem naquele tempo implicava viver de forma arriscada, com uma pitada de heroísmo.

“Cara ou Coroa”, do diretor Ugo Giorgetti (“Festa”, “Boleiros”), focaliza essa juventude no meio teatral. O teatro, como todas as artes, tinha de ser uma arte de resistência. Era sua razão de ser e existir naquele período. Era também um caminho de inovação, incorporando os novos ventos libertadores que o mundo podia se permitir, mas não por aqui.

João Pedro (Emilio de Mello) e seu irmão Getúlio (Geraldo Rodrigues) estão nesse meio teatral e têm vínculos com o Partido Comunista. O pai deles (Otávio Augusto) é taxista e anticomunista. Lilian (Julia Ianina), namorada de Getúlio, é neta de um general do exército (Walmor Chagas), já na reserva. Com esses personagens, “Cara ou Coroa” recria aquela época em que sobreviver era um tanto complicado e se omitir, um pecado grave.

Cabelos compridos, roupas extravagantes, rock, drogas e o corpo se expressando no palco já representavam grandes conquistas. Tudo valia para passar a mensagem cifrada pela liberdade e democracia. Ou pela revolução socialista. E contra o conservadorismo nos costumes e na moral.

O que era possível fazer: circular notícias proibidas, ir em busca de um jornal alternativo, ajudá-lo a existir, assinar manifestos, entregar uma carta a um parente de exilado, cantar as músicas da MPB proibidas, participar dos festivais, vaiando ou aplaudindo, curtir e discutir o cinema novo, o teatro de resistência, e, talvez, abrigar alguém que esteja sendo perseguido em algum lugar, por alguns dias. Essas coisas dariam sentido à existência para jovens que pretendiam lutar contra a ditadura. O movimento estudantil, as passeatas, a esta altura, eram fortemente reprimidos. A luta política estava na clandestinidade. E a luta armada era a opção mais radical e destrutiva.

Ler “O Pasquim” ou “O Movimento”, cantar as músicas provocadoras do Chico Buarque ou dos tropicalistas, apoiar o Living Theater em passagem pelo Brasil, que também teve seus integrantes presos, essas coisas também eram importantes de se fazer. Abrigar pessoas perseguidas em casa exigia uma dose de coragem bem maior. Esse será o desafio que se imporá aos personagens do filme, simbolizando essa época de chumbo, de cuja lembrança, curiosamente, “Cara ou Coroa” tem nostalgia. Era dura, mas era bonito, porque éramos (a geração do diretor Ugo Giorgetti, que estreou com um curta em 1973) jovens e belos.

Visto hoje, retrospectivamente, pode parecer assim, para quem não morreu, não ficou lesado, física ou psiquicamente. Para quem pegou mais leve nessa resistência, por certo. Ou teve mais sorte.

O fato é que, em busca da reconstrução desse período, por meio desses personagens jovens ligados ao teatro, o filme traz à lembrança um número grande de referências que marcaram esse momento histórico. Os cartazes das peças de teatro que se destacaram, os anúncios e produtos da época, os fusquinhas que dominavam o mundo dos automóveis, as ruas, o interior das casas, os eletrodomésticos, os programas de TV, está tudo lá. A saudade de um período duro, mas que tinha seu charme, especialmente no idealismo e na generosidade dos jovens. É um olhar mais intimista sobre um período marcadamente político, ideológico e violento da nossa história.

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Cara ou Coroa

Imagem de Amostra do You Tube

(Brasil, 2012)

 ★★★☆☆ 

+ Antonio Carlos Egypto

Psicólogo educacional e clínico,sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de “Sexo, Prazeres e Riscos, “Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão” e “Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante”, entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Tem críticas publicadas habitualmente no Cinema com Recheio e nos sites GTPOS.org, Pipoca Moderna e na Confraria Lumière, um e-group que reúne críticos e cinéfilos. Associado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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