CANNES O dia que antecedeu a premiação do Festival de Cannes foi marcado por amor, ternura e cumplicidade. E um final feliz. Trata-se de “Mud”, terceiro filme do jovem cineasta Jeff Nichols, que arrancou aplausos calorosos da plateia na última sessão do evento cinematográfico francês.
A trama do filme gira em torno de dois garotos (Tye Sheridan, de “A Árvore da Vida”, e o estreante Jacob Lofland), que encontram um homem solitário vivendo em um barco quebrado às margens do Rio Mississipi. Ele é Mud (Matthew McConaughey, de “O Poder e A Lei”), um sujeito de coração bondoso que se esconde após ter cometido um crime para proteger sua amada, Juniper (Reese Witherspoon, de “Johnny & June”), que nunca lhe retornou a afeição.
Em termos de temática, “Mud” se distancia de “O Abrigo”, suspense psicológico sobre paranoia que, no ano passado, rendeu a Nichols o prêmio da Semana da Crítica, a mostra paralela mais antiga do Festival de Cannes. O diretor definiu o filme como uma história de amor, tanto de Mud por Juniper, quanto dele próprio por sua terra natal, o sul dos EUA, mais especificamente o estado do Arkansas.
A escolha do elenco foi pautada no conceito de que os personagens deveriam refletir o ambiente de forma autêntica, uma parte do país raramente mostrada nas telas. Uma das exigências era que os intérpretes dos dois garotos fossem da região, e que soubessem pilotar barcos e motocicletas, coisas que um ator de Los Angeles provavelmente não saberia fazer.
Se McConaughey é um texano legítimo, Witherspoon revelou que foi o retrato fiel do Sul americano que a motivou fazer o filme. “Eu cresci com meu irmão fazendo motocross nos riachos, no meio da terra, ou mesmo pescando no Tennessee, então quando eu li o roteiro de Jeff eu simplesmente me senti em casa”, disse a atriz, na entrevista coletiva após a exibição do filme para a imprensa. “Eu nunca tinha visto minha infância bem representada na tela, e Jeff conseguiu criar uma história bela para este lugar. Há tão poucos filmes sobre o Sul dos EUA que são acurados, e eu sinto que este é um dos poucos que sabem evocá-lo”.
O cineasta se comoveu ao falar de sua decisão em escrever um filme que se passa na área rural de sua terra natal. “Esses lugares e pessoas têm uma cultura e um sotaque tão particulares, mas que acabaram sendo homogeneizados. Eu queria captar uma imagem instantânea de um lugar que provavelmente não estará lá para sempre”, ele disse.
Nichols admitiu ter se inspirado levemente no clássico “As Aventuras de Huckleberry Finn”, romance de Mark Twain sobre um garoto que mantém amizade com um escravo foragido, com quem passa boa parte do tempo em uma jangada no rio Mississipi.
“Se você vai roubar algo, que seja de alguém muito inteligente, e eu roubei coisas de Mark Twain”, brincou Nichols. “Twain é um de meus autores favoritos, e há uma cena em ‘Tom Sawyer’ (outro romance do escritor sobre os mesmos meninos) em que o protagonista nada até o meio do Rio Mississipi e tira um cochilo no banco de areia logo depois. Acredito ter lido isso na oitava série, na aula de Inglês, e desde então eu nunca consegui tirar a cena da minha memória”.
Durante as filmagens, os dois atores juvenis tiveram que ler “As Aventuras de Huckleberry Finn” e identificaram paralelos com a trama do filme. “A gente descobriu que um monte de coisas do livro eram evocadas no roteiro, e questionamos Jeff sobre isso”, contou o estreante Jacob Lofland, de 15 anos. “Twain soube descrever, de forma atemporal, como é para uma criança crescer ao largo do Rio Mississipi”, Nichols explicou.
O que mais chama atenção em “Mud”, porém, é a reviravolta triunfal na carreira do ator Matthew McConaughey. Acostumado a papéis rasos em comédias românticas hollywoodianas igualmente superficiais, o ator de 42 anos está recebendo pela primeira vez em sua carreira a chance de interpretar personagens que exigem muito mais de suas habilidades dramáticas, até então desconhecidas. “O que eu estava de fato procurando eram personagens que não pendessem necessariamente para convenções, ou mesmo que se repetissem em seus arcos dramáticos”, revelou o astro.
E este não é o único filme que o ator promove em Cannes este ano. Ele também estrela “The Paperboy”, do diretor Lee Daniels (“Preciosa”). Naquele filme, McConaughey interpreta um advogado que volta à sua cidade natal, também no sul americano, para defender um assassino.
“São dois filmes dos quais me orgulho, duas experiências que eu amei, e dois personagens com os quais eu realmente me importo”, o ator assumiu. “Estes são personagens que vivem à margem da sociedade, não são definidos por bons ou maus, certos ou errados, mas sim pela sua humanidade”, explicou, defendendo suas escolhas.
São falas que ainda soam estranhas vindas de um sujeito cuja principal característica foi ser filmado sem camisa na maior parte de sua carreira. Além de “Mud” e “The Paperboy”, McConaughey realizou alguns outros trabalhos interessantes recentemente, como o drama jurídico “O Poder e a Lei” e o thriller de William Friedkin “Killer Joe”, em que ele interpreta o psicopata do título. Interpretações elogiadas que apontam um novo rumo para o ator.
“Eu nunca tive uma regra para escolher filmes, apenas selecionava projetos diferentes”, ele conta. “Mas devia ser algo mais que isso. Eu fui instintivamente atraído para este tipo de material em vez de outras comédias ou coisas similares às que fiz no passado. E agora eu me sinto mais realizado com o meu trabalho que já me senti antes na vida, e mais projetos como estes tem aparecido para mim, e eu espero que essa tendência continue”, ele comemora.


































