“Cabeça a Prêmio” é um faroeste brasileiro. O filme transcorre no Velho (Centro-)Oeste, num lugarejo distante e fronteiriço com a Bolívia. Terra de latifundiários e traficantes, pistoleiros e putas de estrada, federais e pilotos cowboys. Esse caldo nutritivo alimenta o roteiro, estruturado como romance. Várias subtramas correm em paralelo para a seguir interferirem-se, com personagens ricos e pobres relacionando-se entre si num jogo de poder, violência e traição. Haverá tensões dramáticas, dilemas morais, viradas da história, cenas de ação e crime.
Marçal Aquino (“Crime Delicado”) não só assina o romance homônimo que alicerçou o longa, como também escreveu o roteiro. O enredo lembra o romance tradicional, pré-moderno, na sua linearidade e na coerência interna de onde extrai o cordão da diegese. Em termos narrativos, remete, portanto, ao cinemão norte-americano dos anos 1930 e 40, quando a maioria dos filmes tomava por eixo peças literárias. Contudo, se o procedimento servia para refletir os pensamentos mais batidos e as emoções mais óbvias, em Cabeça à Prêmio o drama ganha espessura e os personagens esfericidade. Boa parte disso se deve ao vigor da dramaturgia, que engaja os atores por inteiro numa encenação bem-sucedida.
O tema do filme também é o Brasil. Falar do país de suas bordas, do limiar a partir do qual ele se torna estrangeiro. Da estranheza, pode-se assistir à corrupção dos donos da terra, na sua instrumentalização dos demais personagens. Corrupção e decadência que acedem à carne – quer na obesidade de Mirão (Fúlvio Stefanini), quer na lascívia de Abílio Abílio (Otávio Muller), quer na deterioração da família rica.
Cabeça a Prêmio adota um matiz platônico, em que o bem e o belo confluem. Não por acaso, o personagem galã Brito (Eduardo Moscovis) faz o papel do bandido com crise de consciência. E o filme lhe concede de mão-beijada a oportunidade de redenção, que ele não hesita em agarrar, escolhe o bem sobre o mal e sela a sua participação. Talvez a passagem menos inspirada da trama.
No global, o longa embute tese otimista, na medida em que, pela primeira vez, vê-se um policial federal profissional e idôneo, bem como uma operação eficaz das autoridades. Ainda que o policial seja exceção e, por isso mesmo, traído pelo sistema. Mas o desfecho desgraça os bandidos assim como os mocinhos, e aí reside, por curioso que seja, o otimismo moral do filme. Afinal, os maus não se dão bem.
Competente e bem dosado, é o primeiro longa do ator Marco Ricca (“O Invasor”) como diretor.
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Cabeça a Prêmio
(Brasil, 2010)

































