Breno Silveira na carona de Roberto Carlos

A música move o cinema de Breno Silveira. O cineasta, que em 2005 dirigiu o filme “2 Filhos de Francisco”, sobre a dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, está com novo filme em cartaz, “À Beira do Caminho”, desta vez embalado pelas músicas de Roberto Carlos, e prepara a seguir um filme biográfico sobre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha.

“Sempre tento encaixar a música como parte do roteiro”, ele contou em entrevista coletiva para a imprensa, realizada nesta semana em São Paulo. “Ela conta parte do sentimento dos personagens e explica uma coisa que você não está vendo na tela”, descreveu o diretor.

Fã confesso de Roberto Carlos, Breno teve de negociar por quase um ano para que o cantor liberasse quatro músicas para “À Beira do Caminho”, filme que acabou batizado com parte do título de um dos maiores sucessos de Roberto em parceria com Erasmo Carlos, “Sentado À Beira do Caminho”, de 1969. Frases desta música, mais passagens de “A Distância” e “O Portão”, formam o argumento básico do longa.

Breno conta que Roberto Carlos só deu o aval para a utilização das músicas após ver o filme, ainda sem sonorização. “O problema foi fazer o filme chegar até ele”, conta o diretor. “Comemorei muito quando ele liberou as músicas, porque sinceramente não sei o que faria se negasse. Eu já estava ficando maluco com essa possibilidade”, assume.

E não é para menos. “A trilha sonora é um personagem do filme”, aponta a atriz Dira Paes (“E Aí, Comeu?”), que vive o interesse romântico do protagonista.

Assim como na canção romântica de 1959, que descrevia o desespero e a desesperança de um apaixonado que se encontra na “beira de uma estrada” aguardando por sua amada, o protagonista de “À Beira do Caminho” cruza as estradas à bordo de um caminhão, atormentado por um trauma do passado. Em sua rota, ele encontra um menino em busca do pai que nunca conheceu, e também um amor que tinha ficado para trás.

Um dos trunfos da produção foi a química entre o ator João Miguel (“Xingu”), que interpreta o protagonista caminhoneiro, e o garoto vivido por Vinícius Nascimento (“Ó Paí, Ó”). Segundo João Miguel, o relacionamento foi além das filmagens. “Criamos uma cumplicidade real, concreta. O que está no filme é exatamente o que vivemos durante as gravações”, garante o ator.

Ele revela que uma das cenas chaves da trama surgiu desta interação espontânea, quando o garoto imita João no caminhão. Era uma brincadeira que Vinícius fez com o colega de cena. “Quando vi aquilo fui correndo falar com o Breno. Tinha de virar cena, entrar no filme”, relembra Miguel.

O ator também contou que, para dar vida a seu personagem, recebeu algumas dicas do diretor, entre elas os filmes “Paris, Texas” (1984), de Wim Wenders, “Gran Torino” (2008), de Clint Eastwood, e “Nascido e Criado” (2006), de Pablo Trapero. “Eu tinha que passar uma ideia de aprisionamento, agonia, angústia, perdas. O meu personagem sofre por amor. E dor de amor pesa mesmo”, observou.

Seria possível citar também “Central do Brasil” (1998). O filme de Walter Salles guarda algumas semelhanças com o roteiro de “À Beira do Caminho”, escrito por Patricia Andrade (também de “2 Filhos de Francisco”). Ambos os filmes narram jornadas de adultos endurecidos pela vida que viajam pelo interior do País acompanhados por crianças que buscam suas famílias. “No fundo, todas as histórias já foram contadas. E eu sou a influência de tudo que já vi”, concordou Breno, para discordar em seguida. “Mas ‘Central do Brasil’ não foi uma inspiração. Acho que ‘Paris, Texas’, do Wim Wenders, me marcou muito mais”, finalizou.

Sobre sua própria jornada, João Miguel disse que interpretar este personagem, chamado João como ele mesmo, foi mais difícil do que ele imaginava. “Não foi fácil desenhar um personagem tão duro. Me emocionei muito. Até porque ele apareceu em um momento de grande coincidência, quando perdi um grande amigo, o ator africano Sotigui Kouyaté (‘London River – Destinos Cruzados’). Isso contribuiu para o chororô. Nunca chorei tanto fazendo um filme”, assumiu.

O jovem Vinicius Nascimento, que tinha 10 anos durante as filmagens, também encontrou referências na sua própria vida para compor seu personagem. Viver uma criança em busca do pai lembrava ao menino que ele nunca conheceu seu próprio pai. “São coisas da vida, mas o filme me ajudou a encarar o passado”, contou o jovem e tímido ator.

“Coisas da vida” também aconteceram com o diretor durante a produção. No roteiro de Patrícia Andrade, o caminhoneiro João saía pela estrada após sofrer com a morte da mulher. E, enquanto se preparava para montar o filme, no ano passado, Breno perdeu a esposa, Renata, que morreu devido a um tumor no cérebro. “Eu, de repente, virei João”, ele disse, emocionado para a imprensa. “É um filme sobre um homem reaprendendo a amar depois de uma grande perda. Ele me provoca uma emoção profunda”.

São muitas emoções, como convém a um filme embalado pelas músicas do Rei. Breno acredita que o público também encontrará muito com o que se identificar na trama e espera uma boa recepção, assim como aconteceu com “2 Filhos de Francisco”, um dos maiores sucessos do cinema brasileiro. “Sempre faço meus filmes pensando no grande público, querendo chegar a todos. É legal quando o Brasil se vê na tela”, ele explica.

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