Exibido publicamente no Brasil apenas em São Luís, durante o Festival Internacional Lume de Cinema, e em Porto Alegre, no festival Fantaspoa, “A Serbian Film – Terror sem Limites” foi o assunto da semana entre os cinéfilos brasileiros. Adorado por uns, rejeitado por outros, o primeiro longa-metragem do sérvio Srdjan Spasojevic tem chamado atenção pelo uso brutal de cenas de violência – que já renderam a sensacionalista alcunha de “filme mais polêmico dos últimos anos” ou “filme mais censurado de todos os tempos”.
No Brasil, ao menos, o slogan pegou. O terror, previsto para passar neste sábado (23/7) no RioFan, festival carioca de cinema fantástico, teve a exibição vetada pelo banco do governo que mantém o espaço Caixa Cultural. Obstinados, os organizadores do evento mudaram a sessão para o Cine Odeon, entidade privada. Mas o partido DEM entrou com uma liminar na justiça para proibir que o filme fosse projetado.
Resultado: um oficial de Justiça apreendeu na sexta, no cinema, a cópia que seria utilizada. Uma censura com apreensão de bem cultural, que remonta indisfarçavelmente à época da ditadura militar. Como naquela era de trevas, ninguém responsável pela violência contra os organizadores e o público do RioFan assistiu ao filme, nem sequer a juíza que emitiu a decisão, proibindo uma produção para maiores a partir da Vara da Infância e da Juventude.
“A Serbian Film” se tornou, assim, o primeiro filme censurado no país desde o fim do regime militar – mais exatamente, desde “Eu Vos Saúdo Maria” (1985), de Jean-Luc Godard.
Por que tanto polemismo? Ou indo até a fonte: por que tanta violência? Em entrevista a um grande jornal brasileiro, o diretor de 35 anos disse: “Cresci num período muito turbulento da Sérvia, com várias guerras durante minha infância e bombardeios da Otan. Como artista, fui inspirado por essas coisas, e elas não me inspiram a fazer nada bonito”.
“A Serbian Film”, lançado em seu país de origem em 2010, corrobora o discurso de Spasojevic com coerência. Trata-se de um filme sobre coisas doentias que seres humanos podem cometer.
No enredo, um ex-astro pornô é convocado para um projeto fílmico sobre o qual não tem informação prévia alguma. Precisando de dinheiro para sustentar a esposa e o filho, ele aceita o negócio – para, pouco tempo depois, descobrir o inferno no qual se inseriu.
A partir de determinado momento, “A Serbian Film” se torna um verdadeiro apocalipse de dor, aflição e angústia, terminando num tom próximo do que seria o fim do mundo – ou, pelo menos, o fim de um mundo.
Há uma assustadora contemporaneidade em relação às possibilidades de uma imagem filmada para consumo posterior, que remete ao clássico do suspense inglês “A Tortura do Medo” (1960). Curioso que se tenha acusado o filme de ter cenas de pedofilia e necrofilia, quando nada disso, de fato, está na tela. Há, sim, momentos muito fortes envolvendo crianças, sexo e corpos dilacerados, mas em momento algum há o elemento “filia” (sufixo originário do grego, que significa “atração ou afinidade patológica”).
No filme de Spasojevic, a violência física e psicológica está devidamente contextualizada dentro do que o diretor narra – e o cineasta se mostra profundamente talentoso para criar cenas marcantes e bem filmadas. É, acima de tudo, um filme de horror – e pedir a um filme de horror que “esconda” o horror é como querer uma comédia sem piadas.
A versão vista em São Luís e Porto Alegre foi integral, com 104 minutos. Em países como o Reino Unido, “A Serbian Film” chegou a ter centenas de cortes; em outros, foi proibido de ser apresentado. “É uma aposta que a gente fez”, diz Rafaelle Petrini, sócio da distribuidora maranhense Petrini Filmes, que comprou os direitos de exibição de “A Serbian Film” no Brasil.
Os planos eram, depois de apresentá-lo em festivais de cinema de terror – como o Fantaspoa, em Porto Alegre, e o RioFan, na capital carioca – , tentar inseri-lo num circuito limitado de salas comerciais do país. “O desafio é aprovarmos uma versão sem cortes. É o que vamos tentar”, afirma Petrini.
Depois da polêmica decisão da justiça carioca, dificilmente o filme conseguirá passar incólume.




































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