O público acostumado à versão imortalizada pela Disney deve achar estranho o cartaz e todo o material publicitário de “Branca de Neve e o Caçador”. Afinal, a princesa indefesa agora é uma guerreira empunhando espada e escudo. Mas, curiosamente, o filme estrelado por Kristen Stewart (“Saga Crepúsculo”) resgata parte do tom sombrio registrado originalmente pelos irmãos Grimm em 1812 e traz uma eficiente história de aventura que pode surpreender aqueles que entrarem no cinema com o nariz torcido.
A maioria dos créditos devem ser dada ao diretor estreante Rupert Sanders, que soube lidar com um orçamento gigante e uma história clássica, transformada num épico medieval. Seu principal acerto foi saber equilibrar com eficácia realismo e fantasia, sem prejudicar qualquer um dos lados. Em nenhum momento “Branca de Neve e o Caçador” nega sua origem das fábulas, a ponto de iniciar com o famoso “Era uma vez…”.
Mas os elementos fantásticos aparecem como parte natural daquele universo e Sanders não nega beber da atual referência desse gênero: “O Senhor dos Anéis”. É impossível não pensar na trilogia de Peter Jackson com uma direção de arte (de David Warren, de “A Invenção de Hugo Cabret”) que investe na sujeira e na lama – até mesmo as unhas de Branca de Neve são sujas – e uma fotografia (de Greig Fraser, de “Deixe-me Entrar”) que registra tomadas aéreas idênticas às da Sociedade do Anel caminhando nas montanhas.
Se é para copiar, que seja do melhor, claro, mas é até injusto reduzir o trabalho de Sanders desse modo. Numa produção envolvendo tanto dinheiro, e provavelmente com inúmeros produtores em seu ombro dando pitacos, o diretor estreante, que veio do mundo publicitário, mostrou segurança para compor belos enquadramentos e utilizar os efeitos digitais de forma enxuta e econômica, sem cair na armadilha do exagero.
Sua direção de atores também é competente, a começar por Charlize Theron (“Jovens Adultos”), extremamente confortável e apaixonante no papel da Rainha Má – que aqui se chama Ravenna. Charlize cria uma personagem com tamanha empatia que haverá quem torça pela vilã, no final. Principalmente aqueles que transportarem para a Branca de Neve de Kristen Stewart o desgosto pela insossa Bella, de “Crepúsculo”. É injusto, já que a garota é uma boa atriz e vai precisar de mais alguns anos e filmes até ter sua imagem desvencilhada da personagem da franquia dos vampiros românticos. Se Kristen não tem a doçura de Lily Collins (“Espelho, Espelho Meu”), isso não faz diferença, já que esta Branca de Neve está mais para Joana d’Arc do que para princesinha delicada.
Esta mudança radical pode incomodar quem busca a Branca de Neve dos contos de fada. Mas não é a única. O roteiro feito a seis mãos por John Lee Hancock (“Um Sonho Possível”), Hossein Amini (“Drive”) e o estreante Evan Daugherty traz ainda outras novidades: oito anões, um irmão para a vilã e uma carga religiosa na disputa entre Branca de Neve e a bruxa Ravenna. Mas é interessante notar que o longa mantém diversos elementos do conto original, como a maçã envenenada e uma madrasta feiticeira, dialogando diretamente com o folclore europeu e a literatura dos Grimm.
A principal alteração, no entanto, está no título, com o aumento da importância da figura do caçador, mero coadjuvante na fábula original. Chris Hemsworth (o Thor de “Os Vingadores”) interpreta o sujeito que tem a missão de matar a heroína, mas que fraqueja na última hora. No filme, o personagem ganhou passado, motivação e o cargo de herói.
É uma renovação interessante na história, mas que resulta num problema em relação à trama clássica. O personagem, inicialmente, seria interpretado por um ator mais velho, e funcionaria como um mentor de Branca de Neve e general de seu exército. Quando Hemsworth ganhou o papel, a trama foi alterada para que pudesse fazer par romântico com a protagonista.
O problema é que o roteiro já previa um interesse amoroso, o “príncipe” genérico William, que acabou sobrando na história, sem muito sentido e relevância – ainda mais porque Sam Claflin (“Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas”) não tem muito carisma. O resultado é um triângulo amoroso desnecessário e perigoso – sugerir um triângulo amoroso num filme cuja protagonista é a mesma de “Crepúsculo” não deixa de ser gratuito.
Mas nada que chegue a estragar sua diversão, principalmente se for levado em conta que a obra traz um novo frescor a uma história que todo mundo já conhece. Rupert Sanders fez uma estreia promissora e mostra que tem potencial para se firmar entre os diretores de ação de Hollywood.
Branca de Neve e o Caçador
(Snow White and the Huntsman, EUA, 2012)




































3 Comentários
Sua crítica foi muito boa, parabenizo-o por ela, porém ainda insisto em dizer que devemos separar mais os conteúdos e criticar apenas aquilo que se está ‘na mesa’ claro que levará algum tempo para que Kristen se desvencilhe de seu papel de Bella, porém em minha opinião é uma excelente ideia fazer com que haja um ‘triângulo amoroso’ por mais que acredite que essas relações hajam apenas para que o filme não fuja do seu primórdio conto de fadas, porém o que todos sempre esperam de um filme onda há romance é um ‘Felizes Para Sempre’ e o final sem desfecho amoroso pode ser interpretado como uma possível chance de uma continuação (por mais que não ache cabível) ou um modo de dizer que nem todo filme que se inicia com um ‘Era Uma Vez’ termine com um beijo.
Essa foi a melhor análise desse filme que eu pude ler. Foi perfeita: é um filme que não é totalmente perfeito e maravilhoso como um Senhor dos Anéis da vida, mas não é medíocre como Crepúsculo, é uma história original em cima de um adaptação, mas o trabalho do diretor é o grande diferencial: ele juntou todos os elementos e forma organizada e tudo na medida certa, ou seja, nem os efeitos especiais nem os cenários tentam de sobrepor ao roteiro e as atuações são satisfatórias. Deixo um crédito a mais a dramatização: as cenas da Branca de Neve presa e da vila de mulheres com cicatrizes é realmente triste e comovente.
Bom filme, vale a pena conferir. principalmente pra quem gosta dos gêneros fantasia, épico medieval e conto de fadas.
é, suas críticas são realmente as que são construídas de forma mais clara e inteligente. parabéns! :)
já queria ver o filme, e voce fez eu continuar querendo. rs