COMIC-CON A imagem do Demônio como uma criatura avermelhada de chifres, rabo pontudo e tridente é um estereótipo pouco condizente com o que a figura representa. Um homem belo, lascivo, sedutor e desregrado é um tanto quanto mais ideal.
Sob esse conceito, a escalação de Bradley Cooper (“Se Beber, Não Case”) para viver Lúcifer, o diabo em pessoa, em “Paraíso Perdido” (Paradise Lost) é mais do que coerente. E, pela presença do ator na Comic-Con de San Diego, ficaram boas expectativas.
Primeiro, a premissa. “Paraíso Perdido” se baseia no poema épico de John Milton sobre a guerra dos anjos. Lúcifer e Miguel, os melhores arcanjos de Deus, dividem uma extraordinária amizade, até Deus criar o Homem.
Incapaz de permanecer subserviente a Deus, se isso significar que precisará curva-se para a humanidade, Lúcifer se revolta e é expulso, “somente para começar sua vingança”. O filme, dirigido por Alex Proyas (“Eu, Robô”), mostrará uma batalha épica e inúmeros combates aéreos – tudo devidamente filmado em 3D.
Em um trocadilho inevitável, perguntaram a Cooper se o projeto havia caído do céu. “O oposto disso”, rebateu o ator, entre risos. “Na verdade, devo ter me encontrado com o diretor umas cinco vezes. Passei três anos perseguindo esse papel e decidi me filmar na minha própria cozinha, para que ele me visse representar”, brincou Cooper.
Entre as piadas, contudo, ele confirmou que, de fato, correu atrás de Lúcifer. “Estudei o poema na faculdade e o vejo como uma história familiar íntima sobre dois irmãos e um Pai”, explicou. Nesse caso, o Pai, sem metáforas, é Deus.
Mas não espere que o Lúcifer de Cooper seja o capeta. Ao contrário, ele o imagina como uma figura simpática. “Me apaixonei pelo personagem através do Poema. Satã é justamente o cara com quem você concorda – e mesmo se não concorda, você ao menos entende o seu argumento, e isso é muito interessante”, articulou o ator. “Espero mesmo que possamos manter a integridade disso”.
Como admirador da obra original, Cooper afirmou também que “‘Paraíso Perdido’ não será uma versão em sci-fi do poema, mas uma adaptação cinematográfica”. Ele aproveitou para apontar que a evolução tecnológica progride a cada dia, possibilitando-os filmar o conteúdo com fidelidade – inclusive com o processo de captura de movimentos. “A tecnologia progride minuto a minuto, e já é quase um mundo novo desde que fizeram ‘Avatar’ até agora”, disse, para tranquilizar quem tem o inferno dos filmes de Zé do Caixão como referência no cinema.
Aproveitando a exibição de artes conceituais (que também ilustram esta página), o diretor concordou que, sem as atuais aparelhagens cinematográficas, “Paraíso Perdido” não teria como sair do papel. Para ele, um dos maiores desafios do projeto, além de traduzir um poema épico para o escopo de uma narrativa mais tradicional, foi conceber e elaborar os visuais sugeridos pela obra de maneira tão nova quanto inventiva. “Certamente, esse filme não poderia ser feito alguns anos antes”, afirmou Proyas.
Por sua vez, o ator adiantou que a produção já está a todo vapor. “Já fiz até as provas com os trajes que vou usar”, revelou, antes de garantir que a sua aparência será preservada escrupulosamente. “Lúcifer se parecerá comigo, se é que eu pareço satânico”, emendou, entre risos.
O começo do processo tira um peso dos ombros de Cooper, que poderá conciliar “Paraíso Perdido” – ao qual está claramente e completamente dedicado – a outros projetos não tão distantes. Entre eles, o antecipado “Se Beber, Não Case 3″, que deve encerrar a saga dos marmanjos beberrões no cinema. O segundo filme, lançado este ano, foi um sucesso absoluto e possibilitou automaticamente a produção de uma terceira parte.
Nenhum pronunciamento oficial foi feito sobre a trama, mas Zach Galifianakis, que interpreta o avoado Alan, sugeriu que a sequência poderia ser centrada em seu personagem internado em um hospício e nos amigos tentando retirá-lo de lá. “Não faço a menor ideia”, admitiu Cooper quando indagado a respeito. “Mas essa premissa parece boa o bastante”, completou, com um sorriso. Sorriso este que de repente parece diabólico.

































