CANNES Com um cavanhaque impecável e cabelos longos ao estilo “Lendas da Paixão” (1994), Brad Pitt não podia estar mais diferente de de seu personagem no filme “Killing Them Softly”, um assassino de aluguel frio e de cara fechada que trabalha para gângsteres. Pitt estava cheio de sorrisos e respondeu com bom humor às perguntas feitas na entrevista coletiva realizada após a exibição do longa, no Festival de Cannes.
Num certo momento, ele perdeu a linha de raciocínio no meio da resposta e reclamou, em tom de piada, do horário do evento. “Acho que não deveríamos ter essas entrevistas antes da 13h. Vou começar algum movimento, assinar uma petição ou algo assim”, brincou. O estado de espírito leve do astro reflete sua boa fase na carreira, agora bem-sucedido também como produtor. No ano passado, ele produziu “O Homem que Mudou o Jogo”, indicado ao Oscar de Melhor Filme, e “A Árvore da Vida”, vencedor da Palma de Ouro da edição anterior do festival francês.
Pitt retorna a Cannes novamente como produtor e protagonista de “Killing Them Softly”, novo filme do neozelandês Andrew Dominik (“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”). Adaptado do livro “Cogan’s Trade”, de George V. Higgins, mostra o universo de mafiosos em decadência moral e financeira, tendo como pano de fundo a América esperançosa da eleição presidencial de Barack Obama em 2008.
“Quando li a história, percebi que se trata de um comentário sobre os dias atuais e o desastre dessa crise econômica”, disse o astro. “Você acha que está vendo um filme de gângster, mas esse microcosmo na verdade fala algo sobre o mundo”.
Originalmente, a história se passava na década de 1970, porém Dominik, responsável também pelo roteiro, resolveu atualizar a trama ao se dar conta de que a motivação dos personagens reflete uma crise financeira que os rodeia. Assim como a recessão dos anos 1970, o final da primeira década do século 21 foi marcado por grandes dificuldades econômicas. “Não dava para ignorar os paralelos”, confessou o neozelandês, ao comparar os mafiosos com os banqueiros de Wall Street e até com os produtores hollywoodianos.
“Sempre senti que os filmes de gângsteres são sobre o capitalismo, porque todos os personagens são motivados pelo dinheiro. E, de certa forma, é o gênero americano mais honesto, porque reflete a sociedade americana que eu conheci. Em Hollywood, especialmente, as pessoas só pensam em dinheiro”, disparou o diretor, como uma metralhadora.
Curiosamente, outro filme com financiamento americano que disputa a Palma de Ouro no Festival de Cannes, “Os Infratores”, também traz gângsteres e é ambientado durante uma crise financeira – após a quebra da Bolsa de Valores em 1929. E assim como no filme de John Hillcoat, a violência de Dominik é crua e gráfica – e chegou a incomodar espectadores e críticos. “Killing Them Softly”, porém, ganhou um pouco mais de elogios do que seu “irmão” “Os Infratores”, tanto pelo visual mais sofisticado de Dominik quanto por sua abordagem política e econômica mais direta sobre os EUA.
Pitt, por outro lado, minimizou a questão, reforçando que se trata de um microcosmo (o dos gângsteres), ao mesmo tempo em que lembrou aos presentes que a violência rodeia a todos, mesmo de forma natural e quase invisível. “Eu cresci caçando. Vocês comem hambúrguer. Sabem como matam a vaca? É o mundo em que vivemos”, rebateu. Questionado se, agora que é pai, não acharia melhor deixar de fazer filmes com cenas brutais, o astro retrucou com naturalidade. “Eu teria mais problema em fazer um personagem racista”, explicou.
Os jornalistas também estavam curiosos sobre as intenções e visões políticas do astro ao lançar, num ano com eleições presidenciais, um filme pessimista, ácido em seu discurso (numa das cenas, o personagem de Pitt diz “A América não é um país, é um negócio”) e que cita diretamente a campanha cheia de esperança de Barack Obama em 2008. Ele explicou que o longa não é anti-Obama e que não deve ser visto como uma propaganda, para qualquer um dos lados. “A campanha deste ano vai ser feia e mais negativa do que nunca, e com certeza não quero que meu filme seja confundido com isso.”
Ainda assim, não fugiu das questões diretas, como quando perguntado sobre para qual partido vota. “Sou democrata, estou mais alinhado à esquerda, mas estou interessado em como todas as pessoas pensam”, explicou.
É claro que, em se tratando de uma entrevista coletiva com Brad Pitt, política e cinema não seriam os únicos assuntos e cada pergunta séria era alternada com alguma questão voltada para sua vida pessoal – como “quando voltará a fazer um filme com Angelina Jolie” e “quando finalmente se casam?”.
Apesar das tentativas do moderador em focar o tema, Pitt mostrou-se animado e paciente, e matou algumas das curiosidades. Explicou que não há previsão para trabalharem juntos em breve, porque a atriz está atualmente com a atenção voltada exclusivamente para a família e para a pré-produção de “Maleficent” – uma versão sombria do conto “A Bela Adormecida”, sob o ponto de vista da bruxa Malévola –, motivo pelo qual ela não o acompanhou no festival. Ele também negou que exista uma data para o casamento e reafirmou em tom de brincadeira que os dois aguardam a aprovação do casamento gay nos Estados Unidos para formalizar a própria relação. Uma posição política até na hora do afeto.

































