Biff Elliot (1923 – 2012)

Morreu na última quarta (15/08) o ator Biff Elliot, conhecido por ter sido o primeiro intérprete do detetive Mike Hammer no cinema. Ele morreu em sua casa na cidade de Studio City, Califórnia, aos 89 anos.

Leon Shalek nasceu em Lynn, Massachusetts (EUA), no dia 26 de julho de 1923, e foi o último de quatro filhos do casal Susan M. e Israel Michael Shalek. Neto de imigrantes judeus do Leste Europeu, Leon ganhou o apelido “Bith” na infância, e, pela semelhança da pronúncia, a grafia se tornou “Biff”.

Biff Elliot e o público de Eu Sou a Lei, com óculos 3D

Quando sua família se mudou para Presque Isle, no estado do Maine, ele tinha 16 anos e começou a se envolver com o boxe amador, usando o título Biff Harris. Chegou a ser campeão no norte do Maine, e até mesmo participou do campeonato da região da Nova Inglaterra, formada por Massachusetts, Maine e outros quatro estados. Mas sua carreira não foi adiante, pois sua mãe descobriu que ele lutava e o proibiu de continuar.

Em 1943, Biff se alistou no Exército dos EUA para lutar na 2ª Guerra Mundial, participando das campanhas da África do Norte e da invasão da Itália. Chegou a ganhar medalhas por heroísmo e, três anos após a dispensa, casou-se com a namorada Elizabeth “Betty” Dole.

Eu Sou a Lei

No final da década, ele se mudou com a esposa para Nova York, onde fez cursos de interpretação. Em 1951, usando o nome do meio de seu irmão Irwin Elliot Shalek, Biff Elliot conseguiu seus primeiros papéis na televisão, nas séries “Lights Out”, “Kraft Television Theatre”, “The Philco Television Playhouse” e “Lux Video Theatre”.

O produtor Victor Saville viu potencial em Elliot e o levou para Hollywood. Diferente da trajetória de diversos atores iniciantes da época, sua estreia no cinema não seria como figurante. Ele começaria logo como protagonista, no papel principal de “Eu Sou a Lei” (I, the Jury, 1953), dando corpo e alma ao famoso detetive literário Mike Hammer.

O final clássico de Eu Sou a Lei, com Peggy Castle

Para conseguir o papel, o ator leu e releu os romances do personagem noir, criado pelo escritor Mickey Spillane, de uma sentada só. Seu teste durou apenas 15 minutos. Mas os produtores não precisaram ver mais ninguém para saber quem viveria o papel.

O clássico noir, rodado em 3D pelo diretor Harry Essex, foi adaptado do romance policial homônimo de 1947, e representava a grande chance para o ator se tornar um astro de Hollywood. Ao contrário dos detetives cínicos e sagazes dos filmes noir tradicionais, como os clássicos Sam Spade (Humphrey Bogart, em “Relíquia Macabra”) e Phillip Marlowe (Dick Powell em “Até a Vista, Querida”), Hammer tinha sangue quente e não se mantinha emocionalmente distante dos crimes que investigava. Seu apelido (Hammer é martelo em inglês) refletia uma personalidade brutal. Ele não tinha problemas em socar mulheres, antes ou depois de beijá-las. A atitude rude, de lutador das ruas, e o passado como combatente militar tinham paralelos com a própria vida do ator.

Quem Foi Jesse James?, entre os galãs Robert Wagner e Jeffrey Hunter

Na trama de “Eu Sou a Lei”, Hammer vai atrás do homem que assassinou seu parceiro, em uma busca bastante pessoal, usando a violência, ao invés da sagacidade, para conseguir as informações que precisa. Seu par romântico no filme é também a mulher fatal da trama, vivida por Peggy Castle, e o diálogo final do casal se tornou tão célebre que foi utilizado em todas as outras adaptações cinematográficas do livro: após tentar matar Hammer e receber um tiro em legítima defesa, Charlotte questiona “Como você pôde?”, ao que o detetive responde “Foi fácil”. Elliot inclusive autografou fotos para seus fãs com a frase “Foi fácil”.

Mas não foi tão fácil assim. Embora surgisse esforçado na tela, a pouca experiência de Elliot impediu que causasse uma impressão duradoura, ao contrário de Humphrey Bogart, que parecia ter nascido como Sam Spade em “Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon, 1941). Mike Hammer apareceria em diversos outros livros de sucesso, como o que deu origem ao filme “A Morte Num Beijo” (Kiss Me Deadly, 1955), de Robert Aldrich. Mas Biff Elliot nunca mais o interpretou.

Raposa do Mar, com Robert Mitchell

Após sua estreia como protagonista, ele retomou a carreira praticamente como figurante em outro clássico noir, “Casa de Bambu” (House of Bamboo, 1955), do mestre Samuel Fuller. A trama acompanhava Robert Stack (da série “Os Intocáveis”) como um investigador do exército baseado em Tóquio, em busca de criminosos que mataram militares e roubaram armas americanas. Biff interpretava uma das vítimas dos criminosos, liderados por Robert Ryan (“Os Doze Condenados”).

Por três décadas, ele continuou atuando na televisão e no cinema, mas sem conquistar o mesmo destaque.

Na série 77 Sunset Strip, com Roger Smith e Maureen Leeds

Biff era sempre o soldado/marinheiro que morria rápido nos filmes de guerra, como em “Entre o Céu e o Inferno” (Between Heaven and Hell, 1955), “A Raposa do Mar” (The Enemy Bellow, 1957) e “Os Bravos Morrem de Pé” (Pork Chop Hill, 1959). Na melhor hipótese, vivia um pistoleiro eliminado no começo do western, como em “Quem Foi Jesse James?” (The True Story of Jesse James, 1957). Mas se acostumou a trabalhar com cineastas respeitados. Os filmes citados acima por exemplo, foram dirigidos respectivamente por Richard Fleischer, Dick Powell, Lewis Milestone e o gênio Nicholas Ray.

Até que em se pegou fazendo uma figuração que nem sequer foi creditada no filme “Drama na Primeira Página” (The Story on Page One, 1959).

No episódio O Demônio na Escuridão, de Jornada nas Estrelas

Decepcionado, voltou-se para a televisão, onde sempre havia espaço para atores vindos do cinema. Entre os programas televisivos mais famosos nos quais atuou, estão o cultuado episódio “O Demônio na Escuridão” de “Jornada nas Estrelas”, além das séries “77 Sunset Strip”, “Missão Impossível”, “Bonanza”, “Combate”, “Viagem ao Fundo do Mar”, “Planeta dos Macacos” (como um orangotango!), “Alfred Hitchcock Apresenta”, “Perry Mason”, “São Francisco Urgente”, “Cannon” e, em 1986, em sua última atuação, “Starman”.

Ele tentou voltar ao cinema nos anos 1970, quando recebeu ajuda de Jack Lemmon. A amizade nasceu quando Biff participou numa figuração de “Kotch – Ainda Há Fogo Sob as Cinzas” (Kotch, 1971), que Lemmon dirigiu. A parceria foi estendida em quatro outros filmes estrelados pelo famoso comediante: “Sonhos do Passado” (Save the Tiger, 1973), o clássico “A Primeira Página” (The Front Page, 1974), de Billy Wilder, o curta “Wednesday” (1974) e “Assim É a Vida” (That’s Life!, 1986), último papel cinematográfico da carreira de Elliot.

Com o amigo Jack Lemmon, durante as filmagens do curta Wednesday

Quando foi escalado para “Dois Velhos Rabugentos” (Grumpy Old Men, 1993), Walter Matthau, seu colega de cena em “Kotch”, disse ter se inspirado em Biff para o papel icônico. A esta altura, o velho intérprete de Mike Hammer já tinha se afastado de Hollywood e se tornado comentarista esportivo, função que exerceu na rádio CBS até se aposentar.

Biff permaneceu casado com a primeira esposa até ela morrer, em 1974, voltando a se casar três anos depois Constance Bandy. Ele não teve filhos.

Biff Elliot como Mike Hammer, em Eu Sou a Lei

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