Bertolucci reencontra o prazer de dirigir

CANNES Uma torrencial salva de palmas e ovação marcou o retorno de Bernardo Bertolucci ao cinema. O intervalo de quase uma década sem o diretor lançar um longa-metragem (seu último trabalho foi “Os Sonhadores”, de 2003) foi interrompido este ano no Festival de Cannes, onde foi apresentar “Io e Te”, exibido fora de competição.

Trata-se do primeiro filme do diretor em 30 anos falado totalmente em italiano, sua língua materna. Uma opção óbvia, já que “Io e Te” marca um tipo de renascimento do cineasta. “Esse filme foi um retorno à vida. Nos últimos 10 anos eu vivi numa espécie de torpor, mas agora eu acordei”, disse um emocionado Bertolucci, durante a entrevista coletiva realizada no festival.

Na última década, a saúde do diretor entrou em declínio e um agravamento em seu problema na coluna o forçou a utilizar uma cadeira de rodas para locomover-se. Mas a letargia que o dominou tinha causas psicológicas, mais do que físicas. Uma espécie de labirinto que ele próprio precisou enfrentar e encontrar uma saída. “A partir do momento que aceitei que era fisicamente menos capaz, e aceitei a cadeira de rodas como parte da minha vida, tudo se tornou mais fácil”, declarou, sob palmas.

Ele explicou que bastou apenas uma mudança de percepção para perceber que poderia, sim, continuar filmando. Só precisaria adaptar-se, e adaptar seu talento para essa nova condição. Com as energias recarregadas, o premiado diretor foi em busca de novos materiais e encontrou o que procurava no livro “Io e Te”, do escritor Niccolò Ammaniti.

A história acompanha a vida de Lorenzo (o estreante Jacopo Olmo Antinori), um garoto de 14 anos que não encontra conexões com sua família ou colegas de sala de aula. Ele vê a chance de tirar férias de sua própria realidade quando sua escola promove uma excursão – ele diz para a mãe que vai viajar, mas na verdade tranca-se no porão do próprio prédio onde mora. Por uma semana, o rapaz poderá fazer o que mais gosta: ler livros, escutar música e observar formigas.

Sua tranquilidade é abalada quando encontra sua meia-irmã Olivia (a bela Tea Falco), de 25 anos, que também precisa de refúgio para enfrentar o vício em heroína. O ambiente claustrofóbico e o confinamento voluntário promoverão aos personagens a oportunidade de lamber as próprias feridas e tentar descobrir suas personalidades. “Quando li o livro de Niccolò (Ammaniti), me apaixonei imediatamente e queria fazer um filme”, recordou Bertolucci.

Não é difícil entender o porquê. Narrado em primeira pessoa por Lorenzo, “Io e Te” traz diversos elementos presentes na filmografia do cineasta, como o enclausuramento e a claustrofobia (“O Conformista”, “Último Tango em Paris”) e, principalmente, a visão do mundo pela ótica da juventude (“1900”, “O Último Imperador”, “O Pequeno Buda”, “Os Sonhadores”). “Mesmo agora, aos 70 anos, continuo intrigado por personagens jovens e pelo desafio de capturar sua vitalidade e curiosidade”, justificou.

A nova energia juvenil do septuagenário, no entanto, não foi suficiente para o diretor filmar seu novo longa como desejaria inicialmente. No ano passado, Bertolucci esteve em Cannes para receber uma Palma de Ouro honorária e, na ocasião, havia anunciado que seu próximo trabalho seria em 3D. Porém as complicações técnicas da tecnologia fizeram o cineasta desistir do projeto. “Gosto de trabalhar de forma rápida e descontraída. Gostaria de sublinhar as emoções do filme com o 3D, mas tudo bem”, lamentou.

Bertolucci só não abriu mão de manter os diálogos em italiano, língua original do livro. A última vez que ele dirigiu uma produção inteiramente falada em sua língua materna foi em 1970, no longa “A Estratégia da Aranha” (Strategia del Ragno). “Tinha medo de filmar em italiano porque a considero uma língua muito literária. O aspecto mais frágil dos filmes do (cineasta Michelangelo) Antonioni, por exemplo, são os diálogos. Admiro as falas dos filmes americanos: são simples e eficazes”.

O distanciamento de sua terra natal, no entanto, também se deve a um descontentamento político. “A Itália vive uma doença constante e perpétua. Mas não posso fazer nada se a maioria dos italianos vota em alguém que eu prefiro esquecer”, disparou Bertolucci, referindo-se à “Era Berlusconi”. “Isso é democracia”, lamentou. Sua irritação também mostra o inconformismo de um jovem. O que significa que mais filmes virão. “Depois de ter filmado ‘Io e Te’, sinto que estou de volta à ativa, e pronto para fazer outro filme assim que possível”.

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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