Berlinale começa em clima de revolução

BERLIM O drama de época “Farewell, My Queen” (“Les Adieux à la Reine”), sobre os últimos quatro dias de reinado de Maria Antonieta, abriu na quinta-feira (9/2) a 62ª edição do Festival de Berlim reforçando a tradição do evento alemão em valorizar os tons políticos. Afinal, um dos assuntos mais comentados durante a coletiva de imprensa após a exibição do filme foi o paralelo entre a Revolução Francesa e os protestos e levantes contra regimes ao redor do mundo, como a chamada Primavera Árabe, no Oriente Médio, e o movimento Occupy Wall Street, nos Estados Unidos.

“Faz um ano que (o líder egípcio) Hosni Mubarak foi tirado do poder e eu desconfio que as últimas 48 horas dele e de outros ditadores não tenham sido muito diferentes das de Maria Antonieta”, comentou o diretor do festival, Dieter Kosslick, explicando um dos motivos pela escolha do longa de Benoit Jacquot para abrir a Berlinale.

Questionada sobre as referências e interpretações do filme e as revoltas populares, a atriz Diane Kruger (“Bastardos Inglórios”), que interpreta a rainha Maria Antonieta, explicou que a produção não foi realizada com o intuito de ser política, mas concordou que a comparação acaba sendo inevitável. “Qualquer revolução, particularmente esta (a francesa), é contra o abuso de poder e o abuso do dinheiro, algo que está em curso ainda hoje”, refletiu a alemã, durante a entrevista coletiva do festival.

O cineasta Benoît Jacquot (“Escola da Carne”) fez coro e lembrou, animado, que os eventos do final do século 18 modificaram a Europa: “Tudo gira em torno do fim de um reinado, e pessoalmente acho o fim de um reinado algo positivo e fascinante.”

O filme também provocou discussões por conta da polêmica abordagem da jovem rainha. Inspirado no romance de Chantal Thomas, a trama não se preocupa com fidelidade histórica e sugere um triângulo amoroso lésbico entre Maria Antonieta, sua serva Sidonie Laborde (Lea Seydoux, de “Missão Impossível: Protocolo Fantasma”) e a duquesa Gabrielle de Polignac (Virginie Ledoyen, de “A Ilha”). “Eu não acho que ela era lésbica”, respondeu Diane, após a insistência de perguntas sobre a sexualidade da monarca.

A história é contada por meio da ótica da fictícia criada da rainha interpretada por Lea, atriz que tem alternado importantes blockbusters americanos com filmes de arte na França. Além de integrar, ao lado de Diane Kruger, o elenco de “Bastardos Inglórios” (2009), de Quentin Tarantino, ela também foi dirigida por Ridley Scott em “Robin Hood” (2010), por Woody Allen em “Meia-Noite em Paris” (2011) e brigou em cena do blockbuster “Missão: Impossível – Protocolo Fantasma” (2011). Paralelamente, concorreu ao prêmio César por “A Bela Junie” (2008) e por “Belle Épine” (2010).

“Faço filmes pelos diretores”, ela afirmou durante a entrevista. “Antes de mais nada, eu escolho os filmes por causa do talento dos diretores. A história e os outros atores são, naturalmente, muito importantes, mas para mim tudo começa pelo diretor”. Seu próximo trabalho será “A Espuma dos Dias” (L’ecume Des Jours), dirigido por Michel Gondry (“Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”), e com Audrey Tautou (“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”). Além de “Farewell, My Queen”, Lea terá ainda outro filme em exibição no festival: “Sister” (L’enfant D’en Haut), de Ursula Meier.

Apesar de não priorizar pelo realismo, o cineasta optou por interpretações naturalistas, motivo pelo qual escolheu Diane, uma alemã que fala francês, como Maria Antonieta (nascida na Áustria). “Eu queria uma estrangeira e Diane tinha raízes similares às da rainha. Além disso, ambas são loiras e têm quase a mesma idade”, explicou o diretor. As primeiras críticas do filme, por outro lado, já apontaram que essa busca pela verossimilhança não teria ecoado na atmosfera composta pelas câmeras digitais utilizadas pelo cineasta – acredita-se que a película de 35 mm teria maior efeito de “época”, sugeriram alguns críticos.

Jacquot, por sua vez, acredita que a discussão sobre o cinema digital versus película já deveria ter sido encerrada. “Querer o 35 mm hoje é como ainda querer andar a cavalo quando todo mundo anda de carro. Você até pode preferir o cavalo, mas não pode querer que o resto do mundo também prefira”, disparou.

“Farewell, My Queen” concorre com outras 17 produções ao Urso de Ouro, e o júri deste ano é formado pelos atores Barbara Sukowa (“Veronika Decide Morrer”), Charlotte Gainsbourg (“Melancolia”) e Jake Gyllenhaal (“Contra o Tempo”), pelo escritor Boualem Sansal (“Le Village de L’allemand”) e pelos cineastas Francois Ozon (“Potiche – Esposa Troféu”), Anton Corbijn (“Control”) e Mike Leigh (“Segredos e Mentiras”), presidente do júri.

Leigh comentou a responsabilidade de escolher qual produção será premiada. “Sabemos que nossas decisões poderão afetar o futuro dos filmes e de seus produtores”, declarou durante a coletiva de imprensa. No ano passado, o drama iraniano “A Separação” ganhou o Urso de Ouro de Melhor Filme e o Urso de Prata para o casal protagonista, chamando atenção do mundo para o longa de Asghar Farhadi – a obra concorre a dois Oscar, sendo favorito na categoria das produções estrangeiras.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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